Uma Homérica Automação

Estamos investigando a automação, quando surgiu e porque surgiu. Surgiu porque somos preguiçosos, mas, mais do que isso, ela se disseminou em muitas obras e algumas delas eram apenas narrativas heróicas, Antes de enveredar para isso, entretanto, primeiro de tudo, precisamos saber que diabos é isso de automação.

Virou moda o conceito de “automatizar residências”. Dá até para pensar que isso é algo recente, mas estão muito enganados. Automação implica em fazer coisas de forma automática, de fazer coisas que funcionem por si sós, sem intervenção humana, ou com o mínimo de intervenção possível. Podemos ter uma perfeita compreensão das origens da automação, e como ela se desenvolveu, ao considerarmos a evolução do conceito ao longo dos séculos, analisando o aparecimento em diversas fontes, mesmo que não sejam tratados.

Pois é, o conceito de tratado científico nem sempre existiu, já que o Homem Antigo registrava as suas impressões sob a forma de diários, não um sistema de peer review. Muito do que foi escrito foi até mesmo em obras ficcionais, o que demonstra que os homens da Antiguidade Clássica tinham em mente a importância do uso de tecnologia de sua época na busca pela solução de problemas, além de deixarem registrado que facilitar processos era de suma importância.

A automação começa com o conceito de “autômato”, que assim como a palavra “estratégia” tem origem grega; no caso, αὐτόματον, ou “agindo por vontade própria”. O primeiro a usar esta palavra foi Homero, no poema épico Ilíada. Não que fosse um tratado de automação, robótica ou científico. Homero não estava preocupado com isso, e sim com uma narrativa poética, empregando o conceito de “antropomorfismo”, ou seja, de atribuindo atributos humanos à natureza, seus fenômenos, e mesmo às realizações tecnológicas humanas.

Do ponto de vista da tecnologia, Homero lida com a sua visão em termos de descobertas e invenções tecnológicas, tanto primitivas quanto modernas, bem como desenvolvimentos futuros fictícios. Teria sido o equivalente a Júlio Verne de sua época, embora Homero tenha misturado o melhor da tecnologia de sua época com divindades, criaturas fantásticas super-heróis etc. Praticamente um roteiro de Histórias em Quadrinhos, sem terem desenhado os quadrinhos, se bem que histórias em quadrinhos são as antigas narrativas heróicas COM quadrinhos. Mas discutir isso é perda de tempo e não vai acrescentar nada em nossa discussão.

Nas invenções descritas por Homero, há descrições de autômatos, ou seja, máquinas que se moviam por conta própria, por meio de energia interna, como seres vivos. Entre eles estão os tripés automáticos, os foles adaptativos, as robôs femininas de Hefesto e os navios milagrosos dos fenícios equipados com o que poderíamos chamar de “inteligência artificial”.

Observação: antes de prosseguir, é preciso um esclarecimento. Não se sabe quem foi “Homero”. As narrativas da Ilíada e a Odisséia muitas vezes se perdem ao longo da história. Estima-se que pouco a pouco, novos elementos eram adicionados e é por isso que algumas vezes personagens que uma hora estão mortos, em outro momento estão lá, lutando. Quando escrevemos “Homero”, estamos fazendo alusão ao conjunto de autores que mexeram e remexeram nas obras, porque, a rigor, ninguém sabe quem foi eles.

Outro ponto a ser observado: tanto a Ilíada quanto a Odisséia só foram deitadas em material escrito muito depois. Antes era pura narrativa oral, isto é, o cara chegava na frente da galera e começava a recitar; pode ser que isso tenha levado à adição ou subtração de partes. Não temos o texto original dessas obras e nunca iremos ter. O que se tem hoje é o que os especialistas mais aceitam como sendo “texto completo”, mas isso varia de editora para editora, mediante o organizador.

Além do termo “autômato”, Homero sugere a evolução das máquinas para máquinas auto-propelidas, para máquinas com “vida”. Essa sugestão constitui um salto tecnológico. As máquinas automáticas de Homero tinham sua própria alma (em grego, ψυχή ou psykhê) e esta alma era responsável por dar uma espécie de sopro vital aos dispositivos, com força, vontade e habilidades humanas; talvez apenas uma visão poética, uma aspiração mítica, mas que trazia em si uma visão técnica, também. Enquanto os preclaros filósofos gregos estavam pensando (apenas no mundo das ideias, claro. Meter a mão na massa era coisa de otários), Homero deu um passo a mais nas suas descrições, em que podemos realmente visualizar em nossas mentes o que estava acontecendo, de uma forma que poderia realmente ter acontecido.

Quando olhamos para o que temos hoje, sejam as Siri, Cortana, Alexa ou Google Assistente (Google não tem nenhuma imaginação), percebemos nesses assistentes uma alma particular, uma personalidade, algo com que possamos interagir não apenas apertando botões ou dando comandos de voz. Algo como a psiquê que Homero se referia.

Mas… será que isso tudo é apenas fantasia? Realmente não aconteceu? Temos exemplos de dispositivos automáticos como os criados por Heron de Alexandria (10 E.C. – 80 E.C.), mas ele aparece muito depois das narrativas de Homero, já que estima-se que a Ilíada tenha sido composta no século IX A.E.C.

No livro 18 da Ilíada, a nereida Tétis Argyropeza – “a de pés de prata” ou “pés prateados” –, mãe de Aquiles, vai até Hefesto, o Ferreiro dos Deuses, para que este fizesse uma armadura. Hefesto não negava nada a Tétis porque quando ele nasceu era tão feio que Hera, sua mãe, o jogou pra longe do Olimpo, e Hefesto acabou caindo no mar. Tétis o achou e o criou como seu filho.

Ao chegar na oficina de Hefesto, Tétis o encontra trabalhando em algo… inusitado: um móvel de três pernas; mas a parte inusitada não é que o móvel tinha três pernas. Esse tipo de ornamento era comum nas residências gregas, cujo design era chamado “tripous” (τρίπους), pois o chão nunca era muito niveladinho, e as três pernas ajudavam a manter o móvel em pé, aparecendo em vários lugares e descrições.

Esses antigos tripés gregos eram usados ​​como suportes para vasos e outros itens. Um dos tripés mais famosos foi usado pelo Oráculo de Delfos como assento dourado. Diante disso, as casas gregas foram decoradas com tripés em homenagem à Pítia e aos poderes do Templo de Apolo e algumas foram consideradas um tesouro como no caso do “Tripé Platéia”.

Ao examinarmos a Ilíada, vemos o trecho:

mas Tétis de pés prateados veio à casa de Hefesto, imperecível, enfeitada com estrelas, proeminente entre as casas dos imortais, toda feita de bronze, que o próprio deus de pés tortos havia construído. Ela o encontrou suando de tanto esforço, enquanto ele se movia de um lado para outro em torno do fole com pressa; pois ele estava construindo tripés, vinte ao todo, para ficar ao redor da parede de seu salão bem construído, e rodas douradas ele tinha colocado sob a base de cada um para que eles mesmos pudessem entrar na reunião dos deuses conforme sua vontade e novamente voltar para sua casa, uma maravilha de se ver. Tanto eles foram totalmente trabalhados, que ainda não foram colocados neles as orelhas habilmente moldadas; isso ele estava preparando e estava forjando os rebites.

Segundo a descrição, os tripés eram autopropelidos (pudessem entrar na reunião dos deuses conforme sua vontade).

Com isso, Homero (ou quem quer que tenha sido o autor) deu um passo maior que os filósofos refestelados em seus mundos próprios. Homero investigou a natureza do movimento auto-propelido, analisando elementos fundamentais para isso, como a energia necessária para poderem se mover sozinhos. A obra de Homero desafia e motiva os filósofos clássicos que se seguiram a investigar os conceitos de sistema, controle e resposta, dirigindo-se aos engenheiros do período helenístico, para que seus autômatos sejam transformados em ciência e tecnologia aplicada: o que seria mais tarde chamado de Automatopoietice por Heron de Alexandria. Mas isso fica para outro dia.


Achou interessante? Que tal ler a Ilíada, a Odisseia ou as duas obras de Homero?

Melhor ainda se for num Kindle:

4 comentários em “Uma Homérica Automação

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