Artistas, censuras, pênises cortados e puritanismo. Escondendo o que todo mundo já viu

Dizem que quem não estuda história corre o risco de repeti-la. O mundo segue eventos cíclicos em termos de comportamento geral. Um exemplo é a onda que intercala períodos de liberou geral com o que eu chamo de “recatismo”. Alguns chamariam de “conservadorismo”, mas eu leio isso e penso “o que estão conservando?”. É uma questão de semântica, prefira o termo que quiser, não é este o assunto.

De tempos em tempos, atitudes (principalmente as idiotas) acabam sempre se repetindo, e agora temos um vislumbre disso quando a UNESCO achou que nudez, apesar de bonita (às vezes) ofende a moral e os bons costumes e acabou por cobrir estátuas peladas.

Antes de falarmos da UNESCO e seu pudorzinho sem-vergonha, vamos falar dos Museus do Vaticano (sim, tem mais de um), que ficam no Vaticano, óbvio. Não, o Vaticano não é apenas um prédio, é um país inteiro! Resquício do que outrora fora o Império Romano, o Vaticano, se não detém o poder bélico de outrora, ainda é uma das maiores influências políticas ao redor do mundo.

A construção do Vaticano (os prédios, propriamente ditos) começou em 1447 com o Papa Niccolò V. Para essa tarefa, foi chamado o arquiteto Bernardo Rossellino para que projetasse o que viria ser a nova Basílica de São Pedro. Ficou a cargo de magnífico Fra Angelico a decoração da capela de Nicolina. Em 1471, Sisto IV ordenou a construção de uma nova capela, a Capela Sistina (adivinhe o porquê do nome), com decorações pintadas por artistas como Sandro Botticelli e Pietro Perugino. Em 1508, foi chamado um incrível pintor para decorá-la: Rafael Sanzio, que olhou praquilo e resolveu tirar da reta, falando para deixar a cargo de Miquelângelo, que replicou que era escultor e não pintor, mas a graninha foi boa e pronto. Rafael ficou bolado depois.

Ah, sim. Se não ficou claro, Rafael e Miquelângelo se detestavam (tanto quanto Da Vinci e Miquelângelo se detestavam. Todo mundo se detestava), a ponto de Rafael ter sacaneado Miquelângelo em outra oportunidade.

Os Salões de Rafael são quatro quartos conectados, cobertos com afrescos do Alto Renascimento, que faziam parte da área de recepção do Palácio Papal, o qual é museu hoje. Eles foram encomendados em 1508-1509 por Júlio II, que não viveu suficientemente para ver o trabalho finalizado. Tudo só foi concluído durante o reinado do Papa Leão X, que gastou uma grana pretérrima com aquilo, junto com outras coisas, o que quase levou o Vaticano quase à falência. Para conseguir dinheiro, instaurou as indulgências no que um cônego ficou bolado e pregou um pedaço de papel com 95 poucas e boas!

Voltando a Miquelângelo e Rafael (eu já falei que eles se odiavam, né?) estavam trabalhando nos afrescos da Capela Sistina. Michelangelo acusou o Rafael de tentar envenená-lo. Naquela época não se xingava muito no Twitter e a forma como as primas donas se hostilizavam era via carta, mas isso não estaria à altura de dois artistas. Sendo assim Rafael pintou o seu Escola de Atenas e retratou Michelangelo choramingando, mas jurou que não, que era Heráclito (o que está no pé da escada).

 

Miquelângelo, além de Rafael e Da Vinci, odiava o trabalho na Capela. A um amigo escrevera que ele estava num péssimo lugar e que ele gostava mesmo era de esculpir. Mas ter 60 anos naquela época e com dinheiro no bolso não era comum. Bóra continuar a pintar! E se não bastasse isso, o pintor que se descreveu como “um fervoroso cristão na religião e um pagão na arte” teve que aturar outro chato. 

“O Juízo FInal” é um espetáculo. A arte mostra… bem, o Juízo Final, com Deus julgando todo mundo, mandando os bonzinhos pro Cèu, os Malvados pro Inferno. A obra fica por trás do altar da Capela Sistina e apresentava nada menos que 400 santos, pecadores e almas salvas espalhadas por toda pintura, com todo mundo nu, peladão, despido, do jeitinho que viriam ao mundo se fossem vivos. Isso não agradou em nada o mestre de cerimônias do Papa, Biagio de Cesena. que foi encher o saco do Papa para que o Sumo Pontífice obrigasse Michelangelo a pintar por cima dos genitais dos afrescos. O Papa não deu a menor bola e Miquelângelo ficou sabendo. Mike foi lá e pintou o cardeal Biagio no Inferno, com orelhas de burro e uma cobra mordendo o pinto dele.

Biagio viu, achou um ultraje e foi fazer queixa de novo ao Papa Paulo III, que ao que parece estava se divertindo muito com aquilo. Dissera o Papa que havia um problema: já que o chato do cardeal não fora pintado no Purgatório, mas no Inferno – e no Inferno nulla est redemptio –, não tinha nada que ele pudesse fazer. Caiu lá, vai ficar lá!

Mas as coisas não iam durar muito, com o advento da Reforma Protestante, pregadores como Savonarola, Lutero e Calvino começaram a espalhar a ideia da impureza da carne, apenas o espírito era perfeito. Então, mesmo as mais belas formas físicas e o belo passou a ser visto não muito bem, mas toleráveis. Só que nudez era demais! Os reformadores não tinham influência direta sobre o local onde a arte estava sendo criada: essencialmente nos países do Mediterrâneo, só que a Igreja Católica Apostólica Romana não estava há séculos em atividade dando mole para recém-chegados; dessa forma, ela não deixaria barato e assim teve início a Contra-Reforma. De qualquer forma, os padrões de comportamento começaram a mudar.

Em meados do século XVI, os Concílios de Trento proibiram a representação de órgãos genitais, nádegas e seios na arte sacra, ou em qualquer obra de arte nas dependências pertencentes à Santa Sé. Inicialmente, a regra se aplicava apenas às obras novas, mas não tardaria de chegar às outras obras. Isso não afetou Miquelângelo e seus contemporâneos imediatamente.

Miquelangelo morreu em 1564, e em 1565 teve um barata-voa, já que o Papa Pio IV falecera em 9 de dezembro desse ano e era preciso escolher um novo Papa. A Capela Sistina foi onde teve lugar o Conclave, e para não tirar o ar de santidade da solenidade, um dos aprendizes de Miquelângelo começou a cobrir todos os órgãos genitais das pinturas. O problema é que não deu tempo para terminar o serviço, mandaram que os andaimes fossem removidos e o trabalho de cobrimento dos nudes das pinturas nunca fosse concluído. Quando você chegar lá ainda terá muitos pintos para admirar.

O Vaticano caiu uma onda de conservadorismo (mesmo para os padrões do Vaticano) bem intenso! Tomando por base que a Bíblia fala que quando Eva & Adão se tocaram que estavam pelados, eles fizeram para si tapa-sexos com folhas de figueiras (você deve ter aprendido que foram folhas de parreira, mas são de figueira, conforme Gênesis 3:7), Inocêncio X preferia cobrir as “vergonhas” das estátuas com folhas de figueira feitas de bronze, já que ele achava que meter gesso ali seria tirar o valor da obra de arte. Sim, eu sei que soa estranho.

Já o Papa Clemente XIII mandou produzir folhas de figueira em grande quantidade para cobrir estátuas que ainda exibiam pênis, mas o mais exagerado foi o Papa Pio IX, que meteu o louco, e saiu com um malho e cinzel cortando fora os pintos das estátuas, em 1857. É muito piti só por causa de uns pipis diminutos. A estátua de Davi passou incólume porque foi esculpida em 1504 e a essas alturas estava bem longe do cinzel vaticaniano, mas mais tarde sofreria com censura, embora de maneira não tão drástica.

Vamos voltar um pouco no tempo. A Capela Brancacci  foi construída sob encomenda de Felice Brancacci. A capela fica na Igreja de Santa Maria del Carmine em Florença, muitas vezes chamada de “Capela Sistina do início da Renascença”. Sua construção começou em 1422 e as obras de arte que deveriam decorá-la foram encomendadas, em 1424, a Masolino da Panicale e seu aluno Tommaso di Ser Giovanni di Simone, cujo apelido era Masaccio (diminutivo de Tommaso), com 18 anos de idade.

Masolino começou a trabalhar, mas teve que ir para a Hungria para ser pintor do rei, e o serviço foi passado para Masaccio. Quando Masolino voltou, viu a incrível obra de Masaccio, mas este teve que ir a Roma antes que ele pudesse terminar a capela, lá falecendo aos 27 anos. Partes da capela foram concluídas mais tarde por Filippino Lippi. Infelizmente, durante o período barroco, algumas das pinturas foram vistas como fora de moda e uma tumba foi colocada na frente delas.

Em fins do século XVII, Cósimo III de Médici, achou que uma das obras de Masaccio era um atentado aos olhos, uma sem-vergonhice. Era Adão e Eva sendo expulsos, nus, do Éden. Cósimo III mandou cobrir aquela pouca vergonha, e como manda quem pode, obedece quem tem juízo, cobriram o pinto do coitado do Adão com folhas de figueiras. Hoje, a obra está restaurada mediante a pintura original.

Estamos agora na Inglaterra do século XIX. A Rainha Vitória foi coroada Manda-Chuva Geral do Reino Unido em 1837. Os tempos vitorianos eram temos austeros e sem nada que remetesse ao bom humor e à veneração do corpo. Era errado, impoluto, o que acarretou numa saia-justa em 1857, quando o Grão-Duque da Toscana presenteou a rainha com uma réplica em tamanho real do Davi de Michelangelo, que ela enviou ao South Kensington Museum (atual Victoria and Albert Museum), em Londres.

A Rainha foi lá ver o seu presente (não, ela não conhecia. Não tinha google imagens naquela época) e ficou tão chocada com a nudez de Davizão que encomendaram junto à empresa D. Brucciani & Co. uma folha de figueira personalizada e do tamanho exato, já que não vamos sacanear a obra mais, né? Havia dois ganchinhos para instalarem a folha para quando Vossa Majestade fosse lá visitar, e atualmente essa folha de figueira está alojada em seu próprio estojo na parte de trás da base da estátua.

Claro, a essa altura você está se perguntando por que, diabos, folhas de figueira? Bem, já falei que Eva & Adão usaram folhas de figueira para esconder as peladices, só que a figueira aparece em outros momentos, como quando Jesus seca a referida árvore por não estar dando frutos (quando não era tempo de figos, mas deixa quieto). Figos aparecem na mitologia grega, sendo um atributo dos deuses Príapo e Dionísio.

No mito romano, os fundadores de Roma, Rômulo e Remo, foram amamentados por uma loba debaixo de uma figueira, e Siddartha Gautama alcançou a iluminação sob os galhos de uma figueira. Só ali ele passou a ser Buddah, o Iluminado. A antiga palavra árabe para o figo tornou-se uma gíria tão amplamente usada para a genitália masculina que não podia mais ser usada na sociedade educada. Sendo assim, os frutos da figueira passaram a ser chamados de khrif, que também significa “outono”.

Para finalizar, em 2000 organizaram a exposição “Das Feige(n)blatt” (Folha de Figueira) no museu Glyptothek, em Munique. O N entre parênteses cria um jogo de palavras. Sem o N, fica “Feige blatt” ou “folha covarde”. Essa exposição contou a história das folhas de figueira servindo de grande protetora da moral na Idade Moderna e Contemporânea.

Depois de um pouco de História da Arte, vamos a noticias idiotas que acomete a loucura nossa de cada dia. A UNESCO resolveu que pinto de fora não é lá muito bem visto, mas não é selvagem a ponto de sair martelando os bingulins das estátuas. Então, ela colocou… calcinha!

 

Sim, antes as estátuas estavam “preparadas”, agora estão recatadas com roupinha debaixo, o que está causando hilariedade geral. A UNESCO viu que está passando vergonha e emitiu uma nota de desculpas, mas agora é batom na cueca da estátua, pessoal. Essa vergonha vocês já pagaram no crédito, no débito e esperem só até o boleto chegar na segunda-feira.

Como? Se a notícia é só isso? Sim. É engraçada, mas é só isso mesmo e não merece uma segunda lida. Mas daí a gente se lembra de alguns acontecimentos históricos, fica desde 7 da manhã lendo e pesquisando, aprendendo coisas que não se sabia, até colocar tudo num texto, podendo até compartilhar agora, já passando das 23:30.

E é por isso que eu ainda mantenho o blog.


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