Brevíssima introdução à linguística gerativa (oi Chomsky!)

Você, Jesus, o Pecado e a falta do que fazer
Grandes Nomes da Ciência: Simon Stevin

Desculpem a demora, amiguinhos e amiguinhas, mas, como sabem os que me seguem no twitter, estou atolada de estudos para o mestrado e a monografia. Quem me segue lá já deve ter me visto falando que sou gerativista, ou seja, sigo a corrente linguística do gerativismo, proposta pelo Noam Chomsky em meados da década de 50. O André me perguntou sobre isso esses dias, quando enfiaram o FoxP2 num rato pra ver no que dava. Então, vou falar um pouquinho sobre essa área da linguística.

Antes de tudo, preciso falar de duas perspectivas teóricas da epistemologia (do grego: ἐπιστήμη + λόγος ou “estudo do conhecimento”). São o empirismo e o racionalismo. Essas duas perspectivas vêm das tradições filosóficas dos séculos XVII e XVIII.

O empirismo acredita que todo o conhecimento que o ser humano pode apreender vêm do exterior, do mundo, da percepção, da experiência. Seus grandes representantes eram Hume, Locke, Berkeley. O empirismo influencia ainda muito do pensamento humano, sobretudo em áreas como psicologia (vou falar disso ainda, mas o behaviourismo/comportamentalismo é basicamente empirista).

Por outro lado, o racionalismo já acredita que a razão é a grande fonte de conhecimento, e que parte ou tudo do que se apreende é inato, ou seja, você já nasce com aquilo, não vem de fora. Descartes é o grande nome do racionalismo, junto com Spinoza, Leibniz e Kant.

Pula uns séculos.

Como eu já disse, a linguística só virou ciência mesmo com o Saussure e seus amiguinhos estruturalistas. (Estruturalismo é uma base teórica usada em várias ciências humanas, e basicamente serve pra se estudar sistemas, estruturas, e suas partes.) O estruturalismo se desenvolveu bastante nos Estados Unidos graças aos estudos de dois caras fantásticos: Leonard Bloomfield e Edward Sapir. (Estamos falando aí dos anos 20, 30 e 40). Nessa época o behaviourismo de Skinner e Watson e Pavlov estava pegando fogo na psicologia. O Bloomfield e o Sapir estudavam línguas dos nativos da América do norte e eram bem voltados para estudos culturais, antropologia e tal. Eles acreditavam que a língua era um instrumento puramente social e que era aprendido como um condicionamento, um comportamento aprendido. Isso foi levado ao extremo no livro Verbal Behaviour, do Skinner, em 1957.

Só que nessa década de 1950 as coisas começaram a mudar. Porque nem todo mundo achava legal essa história de o ser humano ser uma tábula rasa que aprende tudo com condicionamento igual cachorro salivando (entendedores entenderão). Aí aparece um sujeito, formado em matemática, que é fã do Descartes e da Gramática de Port-Royal (já falei dela antes). O Chomksy fez uma resenha sensacional do Verbal Behavior, lançando as bases para uma linguística racionalista, cartesiana, baseada na mente e não no comportamento.

Chomsky escreve então um livro chamado Syntactic Structures, que vem a ser um dos textos fundadores do Programa de Pesquisa Gerativa. O nome é inspirado na capacidade de criatividade linguística do ser humano. A grande sacada do Chomsky foi reparar que a gente tá o tempo todo inventando frases e palavras e estruturas novas, sempre inventando e interpretando essas novidades, ou seja, que a nossa capacidade linguística é super criativa, e nenhum outro bicho é capaz disso (não me venham com Nim Chimpsky). Daí vem a ideia dele: não, a gente não pode aprender por repetição ou por condicionamento, senão criança nenhuma no mundo falaria "eu mati a formiguinha". O negócio então seria o seguinte: a gente tem uma gramática internalizada cujas regras geram estruturas.

O Programa Gerativista passou por três grandes fases nesses mais de 60 anos. A primeira, a partir da publicação de Syntactic Structures até a década de 70, é chamada de Regras Transformacionais, porque a ideia do programa era identificar as regras que permitiam a geração e a transformação de estruturas. Por exemplo, de uma sentença ativa em uma passiva:

(1) Eu quebrei o vaso.

(2) O vaso foi quebrado por mim.

Depois, veio a fase do Modelo Padrão Estendido, onde nascem os níveis de projeção e aumenta a abstração do modelo.

Por fim, da década de 80 até hoje estamos no Programa de Princípios e Parâmetros, na forma de Programa Minimalista e Derivação por Fases.

Basicamente, o Gerativismo tem alguns pressupostos básicos e hipóteses de trabalho, baseados na evidência da criatividade linguística e dados de aquisição da linguagem. Uma das ideias é de que a mente é modular, ou seja, organizada em módulos interdependentes, com algum nível de independência e relação uns com os outros. O módulo mais central na teoria é o módulo sintático, seguido de perto dos módulos semântico (ou conceitual) e fonológicos (ou sensório-motor). Isso porque os gerativistas acreditam que a linguagem é organizada toda em torno das estruturas e regras que as formam, e a questão dos conceitos e da representação física deles é subordinada a isso. O mais importante aqui é a Hipótese Inatista. Basicamente, gerativistas acreditam que a capacidade humana para a linguagem é específica dos seres humanos (ainda não teve nenhum animal que aprendesse a usar a linguagem igual a gente usa, e teve muito chimpanzé por aí aprendendo ASL…), geneticamente transmitida, biologicamente desenvolvida. Ou seja, é como se fosse um órgão, uma parte do cérebro especializada em linguagem. Esse órgão biológico-mental seria desenvolvido, assim como outros órgãos do corpo, à medida que a criança cresce, processando cognitivamente os dados de experiência (ou seja, a interação com outras pessoas que falam e o input das línguas com que a criança tem contato) e gerando a Língua-I, ou seja, o conhecimento internalizado, inconsciente, profundo, que um falante tem de sua língua. Esse órgão também é chamado na teoria de Dispositivo de Aquisição da Linguagem e de Gramática Universal (GU).

Desde a década de 80, a ambição do gerativismo é tentar definir melhor o que é a GU. A proposta atual é que a GU é constituída de duas partes: uma parte universal, rígida, compartilhada por todas as línguas e que corresponde às semelhanças entre as línguas (os Princípios) e outra parte mais maleável, subjacente à primeira, que corresponde às variações existentes entre as línguas (os Parâmetros).

Outro problema do gerativismo é o equilíbrio entre adequação explicativa e adequação descritiva. Porque a teoria precisa explicar os fenômenos das línguas do mundo ao mesmo tempo que mantém sua coerência interna. É por isso que o gerativismo chegou num nível quase absurdo de abstração teórica.

As pesquisas gerativistas se dão com dados de introspecção, ou seja, confiando no conhecimento implícito que o falante tem da língua. Diferentemente dos estruturalistas e variacionistas, que constituem corpora de dados meticulosamente coletados e organizados, o gerativismo não acredita na representatividade dos corpus, desenvolvendo um método dedutivo, e não indutivo. O método pega muito emprestado da matemática e das ciências computacionais, e inclusive é muito aplicado em linguística computacional (e o Chomsky é um dos chefes da área de Inteligência Artificial do MIT por algum motivo).

O gerativismo acredita que a linguagem não surgiu como um instrumento de interação/comunicação social. Na verdade, é um instrumento bem confuso e bizarro, cheio de ambiguidades e garden paths (a gente acaba aproveitando isso como instrumento de comunicação, mas são defeitos sendo absorvidos, não qualidades). Na verdade, esse pessoal acredita mais que a linguagem surgiu como um jeito de ver, entender e interagir com o mundo, a natureza, a realidade, a existência. Isso não é uma ideia recente, e vem de caras como o Humboldt e o Hjelmslev.

Vou deixar com vocês um dos textos mais lindos do mundo sobre isso:

A linguagem a a fala humana – é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar da nossa consciência, as palavras já ressoavam a nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da personalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextricavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é isso tudo: a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas.


HJELMSLEV, Louis. (1975) Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Perspectiva.

Você, Jesus, o Pecado e a falta do que fazer
Grandes Nomes da Ciência: Simon Stevin

Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.