Localizacionismo, fRMI e linguística gerativa: tudo a ver?

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Os amiguinhos e amiguinhas leitores e leitoras já devem ter ouvido falar dos frenologistas, uns caras que no século XIX achavam que o cérebro era todo divididinho em partes especializadas em funções. Eles foram longe demais nessa hipótese e acabaram descaindo pra uma pseudociência que justificava todo tipo de desgraça e preconceito… Mas acabou que eles não estava de todo errados.

Hoje em dia a gente consegue ver com alguma confiabilidade que o cérebro tem áreas especializadas sim, só não é tão exato, e a neuroplasticidade permite que, na falta de uma área, outra possa compensar um pouco.

O que isso tem a ver com linguística, tia Bárbara?, você me pergunta. Pois bem, eu não sei se já comentei com vocês que sou gerativista. E o gerativismo, como uma “subdisciplina” dos estudos cognitivistas, se preocupa de certo modo com a correlação entre mente-cérebro-linguagem. Pois bem, um dos pressupostos básicos do gerativismo é a chamada “modularidade da mente”, isto é, que a mente tem “compartimentos” separadinhos, cada um processando um tipo de informação. Daí teríamos um módulo responsável pela linguagem, outro pela memória, e por aí vai. E o módulo da linguagem também é dividido em áreas específicas para sintaxe, semântica, morfologia etc.

As teorias funcionalistas mais recentes negam essa hipótese, afirmando que é tudo interligado, todas as habilidades humanas são integradas e trabalham em conjunto para desempenhar as funções necessárias.

E enquanto essa briguinha teórica come solta na linguística, a galera da neurociência vai pesquisando na prática o que funciona.

Desde o século XIX também sabemos que existem duas áreas responsáveis pela linguagem: a Área de Broca (na área triangular do lobo pré-frontal esquerdo) e a Área de Wernicke (no lobo temporal esquerdo). A área de Broca é composta de duas subáreas, a 44 e a 45. O grande debate dos estudos de neurolinguística era na especialização dessas subáreas. Dois pesquisadores da universidade de Leipzig, ns Alemanha, reoslveram fazer um teste bem interessante: estimular uma galera com palavras falsas (pseudowords) e ver o que aparecia ativado no fMRI (ressonância magnética). A ideia era isolar sintaxe e semântica (por isso as palavras falsas: elas parecem muito com coisas que poderíamos falar, mas não têm significado nenhum) e ver se esses componentes linguísticos estão diretamente relacionados a essas áreas específicas de processamento neural.

O primeiro experimento ativou as duas áreas 44 e 45, mas as palavras falsas contavam com elementos que têm algum tipo de significado (tais como marca de plural [-s] ou prefixo de negação [un-]). Quando essas marcas foram eliminadas no segundo experimento, tcharan! apenas a área 44 foi ativada. Isso mostra que existem áreas especializadas em processamento puramente sintático e semântico, e essas áreas são ativadas separadamente de acordo com o estímulo. Esse resultado é muito legal porque mostra que a hipótese da modularidade da mente pode estar correta. Obviamente, isso não significa que as funções cognitivas são 100% separadas: ainda existe a neuroplasticidade, e as funções que desempenhamos são complexas o suficiente pra exigir muita colaboração e integração neural. (De qualquer forma: gerativismo 1×0 funcionalismo. FTW) 

(tô brincando, gente. Não sou torcedora fanática de teoria. Juro.)


Errata:

fMRI não é uma ressonância magnética “comum”, mas uma ressonância funcional. Os números 44/45 etc se referem a um jeito de mapear o cérebro criado por Korbinian Brodmann, e as regiões são chamadas de Área de Brodmann. Agradeço ao @RelativeBrain pelas correções.


Fonte: aqui. (aviso de paywall. Mas tem acesso via Capes liberado se você estiver logado em um IP reconhecido de instituição federal) (em inglês)

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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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