Chomsky estava certo? Existe uma gramática no cérebro?

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Olá coleguinhas. Esse texto deveria ter sido publicado no início de dezembro/2015, mas por vários motivos pessoais (projeto de mestrado rolando, fiquei um tempinho sem computador, aí perdi a senha do site rs mais de uma vez rsrs…) só está saindo agora. Mas não tem problema, vamos lá.

Quem leu meus textos, sobretudo esse aqui, sabe que o Chomsky inaugurou uma teoria na linguística que propõe que a língua existe na mente do falante (em alguns textos ele até fala em "língua como um estado do cérebro" [CHOMSKY 1998]) e coloca a linguística na área de pesquisa em neurociência (sim, biologia, medicina e tal).

Nesse texto aqui eu já falava sobre como descobriram estruturas cerebrais que se especializam em partes diferentes da linguagem (sintaxe – estrutura de sentenças, e semântica – significado/sentido). Agora, pesquisadores encontraram evidências de que existe uma gramática no cérebro das pessoas (para entender sobre que gramática estou falando, leia esse texto aqui).

Existe uma divergência teórica entre psicólogos e linguistas em relação à natureza do conhecimento linguístico das pessoas. Linguistas (sobretudo os chomskyanos) acreditam que existe uma estrutura mental-cerebral responsável pelo processamento/aquisição da linguagem (ou seja, a gramática internalizada, gramática universal, dispositivo de aquisição da linguagem etc, tem nhenhentos nomes pra esse negócio). Já os psicólogos acreditam que o conhecimento linguístico é derivado de cálculos estatísticos mentais de pistas sonoras e ambientais, ou seja, da experiência empírica processada pelas nossas habilidades cognitivas gerais.

Então pra testar isso, Poeppel e colegas do Instituto Max Planck de Estética Experimental e outras universidades desenvolveram uma série de experimentos usando magnetoencefalografia (MEG – para medir pequenos campos eletromagnéticos produzidos pela atividade cerebral) e eletrocorticografia (ECoG – uma técnica que mede atividade cerebral em pacientes em neurocirurgia). Os experimentos consistiam em medir a atividade cerebral dos sujeitos enquanto eles (os sujeitos) escutavam diversos estímulos em inglês e mandarim. Esses estímulos consistiam em sentenças mais previsíveis (New York never sleeps), sentenças menos previsíveis (pink toys hurt girls), listas de palavras (egg jelly pink awake), além de outras sequências manipuladas, como sintagmas (sleep furiously, green ideas). Só que eles removeram todas as pistas acústicas do discurso, ou seja, os estímulos eram apresentados em isócrona (mesmo intervalo de tempo entre palavras), sem nenhuma pista prosódica, ritmo, entonação etc. Desse modo, os pesquisadores puderam ver como as estruturas puras são processadas sem interferência das pistas cognitivas.

Aí vem a parte legal: esses experimentos mostram diferenças de processamento entre palavras isoladas, sintagmas e sentenças. O cérebro dos sujeitos rastreava, separadamente mas ao mesmo tempo, três componentes das estruturas que eles ouviam, refletindo uma hierarquia de processamento linguístico: palavras, sintagmas e sentenças. Ou seja, evidências de que Chomsky estava certo e existe uma gramática na mente-cérebro, de alguma forma, guiando o processamento da linguagem. Se isso não existisse, a retirada das pistas acústicas e estatísticas do input ia fazer com que o processamento de diferentes estruturas fosse igual – e pelo visto não é.

“Because we went to great lengths to design experimental conditions that control for statistical or sound cue contributions to processing, our findings show that we must use the grammar in our head,” explains Poeppel. “Our brains lock onto every word before working to comprehend phrases and sentences. The dynamics reveal that we undergo a grammar-based construction in the processing of language.” ["Porque nós nos esforçamos para criar condições experimentais que controlam contribuições estatísticas ou acústicas ao processamento, nossos resultados mostram que precisamos usar uma gramática na nossa cabeça", explica Poeppel. "Nossos cérebros focam em cada palavra antes de trabalhar para compreender sintagmas e sentenças. As dinâmicas revelam que nós passamos por uma construção baseada em gramática no processamento da linguagem."]

Esse resultado é controverso porque as ideias chomskyanas de processamento linguístico baseado em hierarquia, abstração e gramática são bem impopulares.

O press release da NYU (New York University) (em inglês), está aqui. O link para o texto na Nature Neuroscience (em inglês) está aqui. (Cuidado! Paywall! use o sci-hub para burlar)


CHOMKSY, Noam. Linguagem e Mente. Brasília: Editora UnB. 1998.

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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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  • Pensador Livre

    Eu não entendo uma coisa : Algumas pessoas falam tanto e tão bem mas escrevem pouco, ou pouco e não escrevem direito, e outras, como eu, falam pouco e escrevem muito, ou muito e muito bem.
    Os processos de falar e de escrever são diferentes mas eu acho que deviam descender do mesmo conhecimento.
    Será que aquele negócio de existir uma inteligência para cada coisa e, neste caso em especial, entao, o fato de existir a inteligencia semantica e a inteligencia interpessoal…
    Falar e escrever vêm de conhecimentos diferentes? Ou, até mesmo, independentes?