A causa mortis que deu fim ao Faraó-oh-oh-oh é desvendada

Ser rei nunca foi fácil. Se o pessoal hoje em dia já sente ciúmes do seu fusquinha porque eles andam de ônibus lotado (ou sentem as maravilhas do calor humano do metrô de São Paulo), imagine comandar um vasto império como o Egito, Egito-ê. Todo mundo é suspeito e até mesmo o inspetor Poirot ficaria em dúvidas. O segundo faraó da 20ª Dinastia estava caminhando placidamente pelo seu palácio. No sagrado ano de 1155 A.E.C., a tragédia (solo de tambores) abateu-se sobre o Império do Nilo. O filho de Rá sucumbiu à conspiração e seu fim foi decretado.

Mais de 3000 anos são investigados por detetives do século XXI que querem saber: o que diabos aconteceu?

Ramsés III é considerado como sendo o último rei do Novo Reinado. A saber, os antigos egípcios não chamavam seus reis de "faraós". Ramsés III era rei, apenas. O termo "faraó" só começou a ser difundido muito depois, com ao Velho Testamento.

Hórus andava meio emputecido com o pessoal do Nilo e não deu a menor pitomba (de onde tiro estas expressões?) para o filho de Setnakhte. Em 1155 A.E.C, os membros do harém particular de Ramy the 3rd passaram o cerol no coitado. Se ter a garganta cortada não é nada animador, ser atacado pelo pessoal do harém é dose! Se ainda fosse num confronto heroico, como a Batalha de Kadesh, onde Ramsés II resolveu botar quente pra cima dos Hititas mas o rei Muwatali deu uma de Gandalf e disse You Shall Not Pass! (isso em hitita devia soar lindo!) ainda vá lá; mas, pô!, harém? Bem, de qualquer forma a Batalha de Kadesh acabou em empate, Ramsés II voltou pro Egito de peito estufado que nem pombo, mandou esculpir paredes e tirou onda que ele tinha o Osíris roxo. Não que Muwatali não tenha feito o mesmo quando voltou pra casa. Política é assim mesmo. Então, Ramsés III me é assassinado pelo pessoal do … harém? C’mon, man!

Mas há um detalhe aí. Tal coisa seria tão infame que ninguém seria maluco de dizer que o rei morreu tendo a garganta cortada assim, sem mais nem menos. Desta forma, os escribas ficaram enrolando e os documentos egípcios desta época são superficiais e não esclarecem se a tentativa de assassinato foi ou não foi bem sucedida. Mediante documentos da época — entre eles o Papiro Judicial de Turim (PDF) – só se sabe que os conspiradores foram descobertos, julgados e condenados, e isso não devia ser nada agradável. Matar (ou ao menos tentar) um rei nunca deu bom resultado.

Quem poderá dar mais informações? O melhor seria interrogar a vítima e a testemunha silenciosa repousou por milênios até que seus restos foram descobertos pelos idos de 1881, estando hoje no Museu do Cairo. Um mistério de 3000 anos contempla os cientistas, pedindo para ser decifrado, sem a necessidade de devorar ninguém.

O dr. Albert Zink trabalha no Instituto de Múmias e do Homem do Gelo na Academia Europeia Bozen/Bolzano. Entre outras coisas, Zink estudou Ötzi, o Homem do Gelo e agora pesquisa o que aconteceu com Ramy, the 3rd. Sendo assim, ele passou o defuntão por tomografia computadorizada, também chamada de CT scan. O aparelho foi adaptado na traseira de um caminhão, de forma que seja menos traumático pra múmia, afinal, ele está bem conservado, mas isso em relação a quem tem mais de 3 mil anos! O caminhão chega, a múmia é rapidamente analisada nele, sai e volta pro seu descanso eterno, esperando a hora de atacar o Brendan Fraser.

Os resultados foram bem interessantes. As imagens geradas pelo exame revelaram que a garganta Ramsés III foi cortada através de sua coluna, cortando a traqueia, esôfago e grandes vasos sanguíneos do pescoço. Isso deve ter doído:

Os pesquisadores afirmam que, embora seja possível que a garganta de Ramsés III, tal não parece ser o caso. Os cientistas notaram a presença de um pequeno amuleto apresentado no pescoço do faraó sob a lesão, o que, segundo eles, foi provavelmente introduzido pelos embalsamadores para ajudar no processo de cura. E não, não é estranho tentarem curar o morto. Segundo a mitologia egípcia, o morto voltaria nas mesmas condições e precisaria do corpo perfeitinho ou não entraria em seu paraíso. Afinal, era para isso que eles eram mumificados, mas só os ricaços tinham grana pra isso. Pequenos comerciantes no máximo mumificavam suas cabeças e pobre que se ralasse, como sempre.

A pesquisa foi publicada no periódico British Medical Journal, onde você poderá ler maiores detalhes. Talvez seja inútil como solução de um crime, já que de um jeito ou de outro os responsáveis não poderão responder a processo criminal. Mas a Ciência não se importa com isso. Ela estuda eventos do passado para entender ações que se seguiram e caminharam para os dias de hoje.

No reino de Osíoris, Ramsés III está sentado, com os dois cetros que representam o Alto e o Baixo Nilo. O Filho de Rá, protegido dos Deuses, vigiado pelo olho da Justiça de Hórus está calmo, pois sabe que o crime está bem identificado, seus segredos estão ali e se ele se enfureceu por saquearem seus tesouros, sorri calmamente, pois sabe que cientistas como os que haviam em seu palácio trabalharam para maior dignidade do Último Grande Rei.

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