Vladmir Komarov, o maior dos herois russos

O homem que sobe as escadas sabe que está com sua morte decretada. Ele sabe que suas horas estão contadas, mas ele não tem medo, pois é isso que ele quer fazer. Passo a passo, ele entra na cápsula que lhe servirá de carrasco. A Rodina decidiu que a glória do Partido está sobre todos os mortais e que um homem teria que cumprir a missão, mas um laço mais forte que a opressão poupou a vida de outro homem, o homem que viu que a Terra era azul. Por causa desse lado de amizade, o homem que está condenado chega até o seu destino e olha para fora, sendo este o último relance do céu e a última lufada de vento em seu rosto sério. O homem entra na cápsula; não há volta e ele nem pensaria em desistir, pois era um homem decidido.

Esta é a história do Coronel Vladimir Komarov, o cosmonauta russo que morreu para salvar seu melhor amigo.

Muitas vezes, somos vítimas de nossos próprios sucessos. É algo que temos que conviver. Infelizmente, muitos interesses estão muito, muito acima do que podemos querer e tais interesses pouco se dão quem é você. Quando eu falo em "saber quem é você", eu não falo de saber seu nome, data de nascimento ou endereço completo. Falo de conhecer a pessoa através das aparências, conhecer seus medos, suas conquistas internas, suas vitórias contra si mesmo… e algumas derrotas também, pois elas fazem parte de nossa natureza. Muitas vezes você perde, mas não demonstra, e é preciso conhecer de verdade para saber isso e mostrar que tudo não passa de um grande jogo, o qual nós sempre damos uma cartada para o vazio.

Em 12 de abril de 1961, um jovem tenente de 27 anos escreveu seu nome nos livros de História. Sua singela frase é conhecida por todos (ou quase) no mundo inteiro. E nesse dia, ele foi imediatamente promovido a major. A frase "A Terra é azul!", de Yuri Gagarin, modificou tudo o que sabíamos, onde todas as dissensões perdiam seus efeitos, toda megalomania dos líderes, pseudolíderes e psicopatas em geral e a fé de todas as religiões perderam o sentido. A Terra estava ali, sem fronteiras; uma ridícula bola azul, tão sublime e tão frágil. Fico imaginando Gagarin colando a mão na janela da Vostok 1 e ver que o mundo, de fato, cabia na sua mão, ao contrário de todos os déspotas de todas as eras da história.

O irônico disso é que Gagarin nunca falou isso! Em nenhuma das gravações das comunicações dele com o controle da missão aparece esta frase; isso foi obra do departamento de marketing do Partidão (ou seja lá como se diz isso em russo). Nos discursos de Nikita Khrushchev, secretário-geral do Partido Comunista, a frase foi usada para demonstrar o domínio soviético do Espaço e, da mesma forma, de doutrinação do ateísmo-comunista. Pouco depois, outra frase foi atribuída a ele: "Não vejo nenhum Deus aqui em cima", e mais tarde veio a versão da frase completa: ‘A Terra é azul e eu não vi Deus", repetido até mesmo pela BBC. Só que Gagarin nunca falou nada isso. A teoria mais aceita é que isso foi proferido durante um discurso do mesmo Khrushchev. A frase de Yuri Gagarin foi "Através da janela, eu vejo a Terra. O chão é claramente identificável. Eu vejo rios e as dobras do terreno. Tudo é tão claro…"

A década de 1960 foi uma época de grandes avanços científicos, grandes descobertas… e grandes disputas. A Guerra Fria ia de vento em popa, Kennedy decidira que o Homem TINHA que ir à Lua. Ninguém contraria o Presidente. Os líderes russos, que substituíram os Czares — em poder, arrogância e despotismo –, decidiram que o Espaço não deveria ser quintal dos capitalistas americanos e a Rodina, a Mãe Rússia, deveria fazer tremular sua bandeira vermelha e mostrar ao mundo o poder dos trabalhadores, que nunca tiveram poder nenhum, pois este pertencia aos natchalstvo. O primeiro satélite artificial era russo, o primeiro ser vivo em órbita era uma cadela russa, o primeiro homem a orbitar a Terra era russo, tudo tinha que ser da Rússia primeiro. Os projetos Mercury, Gemini e o futuro projeto Apollo estavam correndo atrás, sempre sendo superados pelos russos. A única exceção foi a chegada do Homem à Lua, por causa de um triste azar, que muitos atribuem à incompetência. A bem da verdade, Ciência nunca foi exatamente uma prioridade dos russos enquanto Ciência, pois seus programas eram estratégicos, visando cunho militar (satélites-espiões? Alguém? Míssil balístico Inter-Continental, ICBM, também não era uma "má ideia"). Nem mesmo o Projeto Apollo tinha caráter puramente científico e, por isso, apenas na Apollo 15 foram enviados cientistas para realizar experimentos. Mas isso ainda é futuro, perante o que estou abordando.

Os russos sabiam que os americanos estavam correndo atrás e vinham em velocidade Warp. Daí, os "gênios" tiveram a estúpida ideia de correr mais ainda. E isso seria o prenúncio de um desastre.

Em 12 de outubro de 1964, foi lançada a Vostok 3KV (também conhecida como Voskhod 1), a primeira nave russa tripulada por mais de um homem. Dois cosmonautas eram lançados ao espaço na primeira das missões Vostok. Por alguma sorte ou evento aleatório (ou pela obra da mão de Svarog, o Supremo Deus Eslavo), a missão foi um sucesso, apesar que tinha tudo para dar errado. Para começar, a cápsula não tinha assentos ejetáveis, não tinha escotilha de emergência e os cosmonautas sequer tinham roupas espaciais. Qualquer acidente seria fatal, e isso ficaria demonstrado depois. Basicamente, esta cápsula era uma adaptação da anterior, de forma que pudesse levar 3 cosmonautas, mas eu a definiria como "lata de lixo orbital". A bordo estavam presentes o médico Boris Yegorov , o engenheiro Konstantin Feoktistov e o piloto Vladimir Komarov. Todos com os fi-o-fós que não passavam uma agulha.

Ainda assim, a missão foi um sucesso, e enquanto a Voskhod 1 contemplava o frio do espaço, Nikita Khrushchev sentia o ardor dos seus opositores, até que ele foi deposto num golpe militar, sendo sucedido por Leonid Brejnev. Ditador deposto, ditador morto. Longa vida ao novo ditador… antes que ele mate a todos nós. Não adianta, entretanto, você ser o ditador de algo, se não puder mostrar aio mundo que você é maior que o antecessor (e, de preferência, matando qualquer um que queira ser seu sucessor).

Em 1967, os manda-chuvas do Politburo resolveram que o aniversário de Vladimir Ilyitch Ulianov deveria ser comemorado (ele nasceu em 22 de abril de 1500 1870), junto com o 50º aniversário da Revolução Comunista. O cara tinha um nome complicado até para os russos e resolveram chamá-lo de Lênin. Assim, os supra-sumo mandaram. E ordem dada é missão cumprida… ou quase. A missão Soyuz (em russo significa "União") consistia em um encontro espacial entre o módulo Soyuz 1 com a nave Soyuz 2, que seria lançada no dia seguinte, cujos dois cosmonautas passariam para a Soyuz 1. Simples, mas nada é tão simples assim~.

Desde o início de sua construção, havia muitos problemas técnicos e de construção. Um exame de projeto e de construção revelou que o módulo possuía mais de 200 defeitos estruturais bem graves. Engenheiros imploraram para que o lançamento fosse adiado, com o reforço do apelo do herói Yuri Gagarin, que escreveu um memorando detalhado e o entregou ao seu melhor amigo do KGB Russayev Venyamin. Mas ninguém queria desagradar aos supra-sumos, e todos que viram o memo acabaram indo passar férias na Sibéria, dando graças ao deus cristão-ortodoxo não terem ido parar em Lubyanka, a prisão do KGB. O memo nunca chegou aos escalões superiores (que, por sinal, não faria muita diferença no final das contas). Ninguém seria maluco de se opor tanto assim a Leonid Brezhnev. A glória do Marxismo deveria ser exaltado no dia marcado. A escória do Soviete Supremo decidiu que a missão continuaria. Ponto final.

Komarov reuniu-se com Russayev, agora um agente rebaixado , e disse que tinha certeza que não retornaria da missão.

Me soa ao ouvido a fala grossa e ríspida do General-de-Exército Nikolai Nikolayev, das tropas de Infantaria Mecanizada da URSS, ao dizer ao seu sobrinho em frente à Flama Eterna que guarnece o túmulo do soldado desconhecido: "Há milhões de soldados enterrados desde Moscou até Berlim. Não sabemos onde se encontram, em muitos casos nem quem eram. Mas eles lutaram comigo e eram bons homens. Não importa o que prometerem a você, não importa que lhe ofereçam dinheiro, promoções ou honrarias, não quero que traia estes homens". Mesmo sendo um personagem de ficção, o General-de-Exército Nikolayev não foi traído.

Russayev perguntou por que ele não recusava a missão. Komarov tria respondido: "Se eu não fizer este voo, eles enviarão o piloto de reserva". Vladimir Komarov demonstrou que toda a honra que um verdadeiro soldado precisa ter ao dizer "Será Yura, e ele irá morrer em vez de mim. Nós temos que cuidar dele", disse Komarov, caiu em prantos.

No dia do lançamento, 23 de abril de 1967, um jornalista russo, Yaroslav Golovanov, informou que Gagarin apareceu no local de lançamento e pediu para ser colocado em um traje espacial, apesar de ninguém esperasse que ele voasse. Golovanov chamou este comportamento "um capricho repentino", embora depois alguns observadores pensaram Gagarin estava tentando ir no lugar de seu seu amigo, mas a Soyuz deixou a Terra com Komarov a bordo às 00:35:00 UTC, do Cosmódromo de Baikonur. Era um voo só de ida.

Logo que a nave começou a orbitar a Terra os problemas começaram. Falhas elétricas, antenas não se abriram corretamente, o sistema de força estava comprometido, a navegação praticamente estava nula. Aquilo não passava de um caixão de aço orbitando a milhares de quilômetros por hora, acumulando muita energia cinética. Newton permaneceu impassível. Nada pode violar as Leis da Física e qualquer corpo com massa viajando a determinada velocidade acumula energia cinética. Nem mesmo os teóricos marxistas podem impedir isso.

A NSA (Agência de Segurança Nacional, dos EUA) acompanhou tudo o que estava acontecendo e eu imagino o que se passou na cabeça dos espiões eletrônicos: "Que merda!"

A Soyuz começou a perder de vez o controle de uma forma que nem mesmo os poderes Jedi de Komarov poderiam ajudar. Aquela govno começou a cair feito uma pedra. Os para-quedas não abriram e a velocidade só estava aumentando e a Segunda Lei de Newton faria a sua vítima. A temperatura no módulo começou a aumentar devido o atrito com o ar (que só é desprezado em exercícios babacas de vestibular) e quanto o módulo chegou ao solo, seu tripulante foi brutalmente mort… não, ele não foi morto. Foi assassinado!

Há um mito que durante a queda o coronel Vladimir Komarov estaria insultando e amaldiçoando todos os responsáveis por aquela missão desastrosa, mas isso é apenas mito. Até mesmo a comunicação estava falhando e o que ele disse era incompreensível.

http://www.svengrahn.pp.se/sounds/KOMAROV2.mp3

Só se sabe que seu tom de voz era mecânico e sereno, enquanto tentava lutar com as forças gravitacionais que determinariam sua morte. Lamentável saber que um homem tão corajoso teve um fim que lhe resumiu a uma massa disforme:

É uma pena que a política e o culto da própria imagem sobrepujem a sensatez. É uma pena que soldados morram inutilmente em guerras inúteis e nada mais inútil que uma guerra não-declarada. Polkovnik Vladimir Mikhaylovich Komarov será lembrado por todos aqueles que voam, voaram e voarão pelos céus e além deles, tendo o negro infinito. Sua essência vaga liberta pela memória de seus amigos e até mesmo pelos antigos adversários ideológicos, se bem que eram adversários de seu país e não dele.

Komarov podia ser visto como mais um soldado, mas não era um soldado qualquer. Nenhum soldadinho qualquer é agraciado duas vezes com a Ordem de Lênin e com o título de Herói da União Soviética, a mais alta honraria da antiga URSS. Seus pouquíssimos restos mortais foram sepultados no Kremlin, em Moscou, ao lado de outros heróis da antiga União Soviética (muitos dos quais são uma vergonha para os heróis de verdade daquele país) e com toda a pompa e circunstância que ele merecia. Os astronautas da Apollo 15 deixaram uma placa em uma cratera na Lua honrando todos aqueles que morreram durante a exploração espacial e o nome do Coronel Komarov não foi, nem podia ser, esquecido. Até mesmo uma cratera lunar foi batizada com o seu nome e o asteroide 1836 Komarov está lá em cima, zelando por todos os que amam o Espaço Sideral.

Mas soldados não precisam disso. Soldados de verdade fazem o que precisam fazer, apesar de muito poucos fazerem coisas acima e além do seu dever, como salvar a vida de um amigo oferecendo a sua em troca. Para estes, a singela homenagem de seus camaradas é mais que suficiente.

Não me foi difícil lembrar da frase final do conto O Astronauta, de Valentina Juravleva e que, ao meu ver, ilustra a perseverança que somente os heróis de verdade possuem: Sim, em frente. Somente em frente. Sempre em frente!


PS. Para comemorar os 50 anos da missão Vostok, será lançado no dia 12 de abril o documentário First Orbit, em cujo site você poderá baixar aplicativos pro seu smartphone favorito, vídeos e ver o Making Of. O documentário foi produzido por Chris Riley. Abaixo, vocês podem ver o trailler do filme.


Para saber mais:

18 comentários em “Vladmir Komarov, o maior dos herois russos

  1. @André,

    Gosto muito desses seus textos que relembram/retratam “heróis menores” que foram gigantescos.

    Parabéns pelo trabalho de pesquisa (O que, no seu caso, é redundâcia).

    Enquanto isso, aqui na Terra de Vera Cruz, daqui alguns dias, teremos um feriadão por causa de duas figuras mitológicas.

    Vai entender…

  2. Faço das palavras do Sandro as minhas. Gosto muito das histórias dos heróis que muitos desconhecemos. Pessoas nascem e morrem sem nunca ter ouvido num Komarov da vida. Colocam políticos e figuras mitológicas no patamar de herói e o adoram de maneira religiosa.

    Parabéns mais uma vez, André. Imagino o trabalho que deu pesquisar tanto. Agora minha vida fará mais sentido.

    PS: Fukushima tem dois heróis que tentaram impedir ou ao menos atrasar chegada do tsunami. Em vez de fugirem como todo mundo fecharam os portões e foram arrastados já que a onda era muito grande.

  3. Tentei ouvir o audio, porém diz que o arquivo não é encontrado :/ uma pena.
    O documentário foi produzido pelo Gagarin, ou entendi errado? No seu artigo não diz, fui ver no site e os créditos são ditos em terceira pessoa do plural, enfim. Eu mesma deveria procurar não? E procurando encontrei que o diretor é o Chris Riley :o adoro as parcerias dele com a BBC, é um excelente escritor. Esse documentário será bem feito, tenho certeza ;3 obrigada pelo partilhamento mais que especial!

    1. @Mari., Uma correção, sobre o arquivo de audio.

      Quando eu carrego na página principal do cet.net, o arquivo funciona normal.
      Quando eu o carrego dentro da página do artigo, dá o erro de arquivo não encontrado.

      Agora que consegui ouvir as palavras de Komarov, posso dizer que o achei tão conformado com o destino. Eu jamais teria a frieza que ele pareceu transpor, tudo bem que a gravação está cheia de chiados e abafada, mas o tom das palavras não deixa mentir. Fico feliz que ele tenha tido os reconhecimentos após o assassinato.

  4. Não lembro onde , mas certa vez fiz uma leitura sobre uma guerra onde um soldado dizia a outro, ” – Estamos matando e morrendo , só porque dois homens, em uma sala não concordaram com algo…”

    Se alguém se lembrar …!!

    No caso de Komarov o ego de seus ” líderes”, o matou.

      1. Nem tem como escapar, o cara é meu escritor favorito e depois de “Cães de Guerra”, “Ícone” é o melhor livro dele

      2. @André,

        É legal quando encontro alguma sutil referência no seus textos e vejo como isso torna o texto mais divertido…Parece que estou vendo Matrix (o filme) que também é cheio de referencias. ;-)

        1. Isso, para mim, soa melhor pq indica que a pessoa que captou os gags estava prestando atenção nos textos. Muito difícil eu não colocar um easter egg neles. Também gosto quando cometo algum erro de digitação e as pessoas apontam, como a Mari fez. Isso só deixa o texto melhor e faz com que eu passe a prestar mais atenção no que escrevo.

          1. @André,

            Nesse caso, me permita:
            … Gagarin colando a mão na janela da Vostok 1 e ver (vendo) que o mundo…

            Reparei numa segunda lida, porque esse trecho tinha me chamado a atenção devido ao tamanho da Terra vista de uma órbita baixa.

            E por favor, me tire uma dúvida: a maior parte do aquecimento não vem da compressão do gás no caminho do objeto em movimento?

          2. @Daniel_P, jatos supersônicos sofrem o mesmo aquecimento.

            No começo, eu achava estranho como o “vento” gelado poderia aquecer a fuselagem. Mas como é interessante essa tal de Física.

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