Lacus Eburodunensis: o lago que conservou Roma melhor do que Roma

Roma conquistou o mundo conhecido, pavimentou estradas por toda a Europa, chegou às margens do Reno com suas legiões e seus gladii (plural de gladius ou “gládio”) e, então, numa tarde qualquer do século I da nossa era, afundou um carregamento inteiro num lago suíço. Sem sobreviventes, sem registro, sem testemunha. Dois mil anos depois, mergulhadores vasculham o fundo lodoso do Lacus Eburodunensis – hoje conhecido como lago Neuchâtel – e encontram praticamente tudo intacto, como recém-saído da olaria. A História tem um senso de humor que os professores preferem não comentar.

A descoberta começou de forma bastante prosaica. Em novembro de 2024, Fabien Droz pilotava um drone sobre o lago como parte do projeto “Naufrágios Vulneráveis do Lago Neuchâtel”, iniciado em 2018 pelo escritório cantonal de arqueologia (OARC), quando detectou uma sombra suspeita no fundo. Três dias depois, em 24 de novembro, o arqueólogo Fabien Langenegger e Julien Pfyffer, presidente da Fundação Octopus, desceram para conferir de perto e encontraram um amontoado de cerâmicas antigas que quase fez a mandíbula cair dentro da máscara de mergulho.

O que ninguém imaginava é que o lago Neuchâtel já tinha fama arqueológica consolidada antes disso. É na sua margem que fica La Tène, o sítio onde os antigos celtas helvetianos tiveram seu famoso encontro cultural com gregos e etruscos, e que deu nome a toda uma fase da Idade do Ferro europeia. O lugar tem o hábito de guardar segredos.

O sítio foi batizado de “The Eagles’ Wreck”, o Naufrágio das Águias, em referência às águias imperiais romanas, e é tecnicamente um naufrágio sem navio. O casco da embarcação sumiu há muito, provavelmente devorado pelo tempo e pela madeira aquática, mas a carga permaneceu praticamente onde caiu, a cerca de oito metros abaixo da superfície. A datação por carbono-14 de um fragmento de madeira e a análise dendrocronológica de uma tábua estabelecem 17 E.C. como terminus post quem, posicionando o afundamento entre 20 e 50 E.C., no início do Império Romano. Uma fíbula encontrada entre os objetos ajudou a refinar essa datação. Esse tipo de broche romano só passou a ser usado a partir do reinado de Tibério, iniciado em 14 E.C. Roma, além de tudo, carimbava sua moda.

O inventário do que os arqueólogos encontraram lembra o manifesto de carga de um mercado romano de médio porte. Há várias centenas de peças de cerâmica, a maioria absolutamente intacta após dois milênios submersa: pratos grandes, pratos menores, tigelas, taças e cumbucas de vários tamanhos, aparentemente produzidas localmente no Planalto Helvético por oleiros que, sem saber, estavam fabricando o que viria a ser referência para os arqueólogos do século XXI.

Há ânforas de origem espanhola que transportavam azeite de oliva e vinho, provando que a globalização comercial romana chegava bem antes das rotas marítimas modernas. Há utensílios, ferramentas, peças de arreios e componentes de carroças, incluindo quatro rodas em perfeito estado de conservação, únicas no gênero encontradas na Suíça. E, para completar, uma cesta de vime que sobreviveu a milênios debaixo d’água, contendo seis peças cerâmicas de produção diferente do restante da carga, possivelmente o kit de cozinha dos próprios marinheiros.

É aqui que o achado revela sua dimensão mais rara. Trata-se da primeira descoberta desse tipo em águas interiores ao norte dos Alpes, uma cápsula do tempo de mercadorias absolutamente novas, algo raríssimo em escavações terrestres, aonde os objetos chegam até nós quebrados, usados, revendidos ou enterrados com seus donos. Este carregamento saiu da olaria, entrou no barco e afundou antes de ser utilizado. Era novo, continua novo.

As condições do fundo do Neuchâtel explicam essa proeza: baixo teor de oxigênio, temperatura estável e sedimentos que envelopam os objetos, impedindo a oxidação. Por séculos, uma camada espessa de calcário lacustre cobriu a carga como um cobertor protetor. O problema surgiu, ironicamente, por intervenção humana. Duas grandes obras de correção do nível do Jura, uma no século XIX e outra no XX, estabilizaram as cheias regionais, mas perturbaram o leito do lago, erodindo gradualmente essa cobertura sedimentar. Quando os arqueólogos chegaram, o carregamento estava semi-exposto e vulnerável à erosão, às âncoras de barcos de lazer e, claro, ao eterno vilão da arqueologia: os saqueadores.

E então chegamos à parte que faz qualquer historiador se endireitar na cadeira. Os objetos militares. Entre os pratos e as ânforas, os mergulhadores encontraram dois gladii, as espadas curtas características dos legionários romanos, sendo que uma ainda estava em sua bainha de madeira e metal. Encontraram também uma dolabra, a picareta-machado que os legionários usavam para tudo, de construir acampamentos a cavar latrinas, além de uma fivela de cinto militar e a tal fíbula de datação histórica. A presença simultânea de louças domésticas e equipamento bélico levou os arqueólogos à hipótese mais fascinante do achado: tratava-se, provavelmente, de um navio mercante civil com escolta militar a bordo.

O destino provável da carga conecta a história à XIII Legião Gemina, estacionada no acampamento de Vindonissa, às margens do rio Aare, desde 16 E.C. O acampamento ficava onde hoje é a cidade suíça de Windisch, e a missão dos legionários era impedir que tribos germânicas avançassem pelo Planalto Helvético em direção aos passes alpinos, onde permaneceram até 45 E.C. Uma legião romana típica tinha entre 5.000 e 6.000 homens, o que exigia uma logística de abastecimento monumental.

Os suprimentos vinham da Itália, da Gália e da própria Helvécia, eram consolidados em Eburodunum, o porto romano na ponta sul do lago, a atual Yverdon-les-Bains, e dali seguiam em barcos rumo ao norte pelo que os romanos chamavam de Lacus Eburodunensis. Em algum ponto desse corredor, algo deu muito errado.

Quanto ao que exatamente deu errado, os arqueólogos têm uma teoria elegante. O padrão de dispersão dos objetos sugere que a carga foi espalhada na entrada do Canal de Thielle, que conecta o lago Neuchâtel ao lago Biel. A hipótese mais aceita é uma rajada de vento forte e inesperada, o tipo de acidente climático que, num momento, transforma um trajeto de rotina em uma catástrofe logística. Pfyffer, com o otimismo de quem passa os dias mergulhando em história, prefere imaginar que a tripulação escapou. Talvez, aliviados pelo peso da carga, os marinheiros e soldados romanos tenham conseguido salvar o barco. É uma narrativa reconfortante, e coerente com a elegância romana de sempre encontrar um jeito de transformar o desastre em sobrevivência.

A escavação tomou o caráter de uma operação de resgate. A primeira missão de campo, de 10 a 22 de março de 2025, estabeleceu uma grade de trabalho dividida em quadrados de quatro metros e recuperou cerca de 150 objetos, inaugurando os protocolos de conservação do museu Laténium, em Hauterive. A segunda missão, em março de 2026, foi ao núcleo do sítio e completou o trabalho, elevando o total para aproximadamente 1.200 peças resgatadas. Todas precisam ser mantidas em água desmineralizada, à temperatura próxima à do lago, antes de qualquer intervenção, em um processo lento e meticuloso que antecede a exibição pública.

Dois milênios depois, o Lacus Eburodunensis devolveu à Suíça, e ao mundo, um pedaço intacto de Roma que a própria Roma nunca conseguiu preservar tão bem. Porque, em Roma, os pratos eram usados, as espadas eram gastas e as rodas quebravam. Aqui, no fundo lodoso, tudo ficou exatamente como saiu da olaria e da forja. A História, com seu senso de humor peculiar, escolheu um lago suíço para guardar o Império Romano em estado de fábrica.


Fonte: mãe da criança

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