O milagre colorido da Taça de Licurgo

Havia artistas de mão extraordinária nas oficinas da Roma Antiga. Seus artesãos faziam joias, esculpiam figuras minuciosas e davam ao vidro uma delicadeza que ainda hoje prende o olhar. Algumas dessas peças chegaram até nós e permitem acompanhar, nos detalhes, a paciência e o domínio dos materiais de quem as criou. Uma delas é a Taça de Licurgo.

Guardada no Museu Britânico, as figuras e videiras esculpidas nesta maravilha da tecnologia antiga formam uma trama delicada em torno do recipiente, como uma renda esculpida em vidro. O trabalho já bastaria para admirar seus criadores. Mas a peça tem outra característica que faz seu esplendor mudar conforme a luz.

Iluminada pela frente, a taça de Licurgo parece verde-jade. Com uma fonte de luz atrás, ganha um vermelho-rubi. O efeito está no próprio vidro e foi produzido há mais de 1.600 anos. Entender sua origem exigiu análises químicas e microscópios capazes de enxergar partículas minúsculas. Reproduzi-lo trouxe outro desafio: descobrir como preparar a receita. A investigação passou até por uma impressora 3D, antes de voltar aos fornos de fabricação de vidro.

Feita no século IV, a taça pertence à família dos vidros diatretos, também chamados de cage cups. São peças em que a decoração fica parcialmente separada da parede do recipiente, ligada a ela por pequenas pontes de vidro. Não era exatamente um serviço para mãos trêmulas. No relevo aparece Licurgo, rei da Trácia, enredado em videiras.

Na mitologia, Licurgo perseguiu Dionísio, o deus do vinho, e seus seguidores. A decoração mostra seu castigo, com a participação de Ambrosia, transformada em videira. Comprar briga com uma divindade já costuma terminar mal; com o deus do vinho, a vingança veio com acompanhamento de uvas.

Entretanto, a biografia do objeto também tem lacunas. Não se sabe ao certo onde foi fabricado nem onde foi encontrado, e sua trajetória moderna aparece documentada no século XIX. A taça passou pela coleção Rothschild e foi comprada pelo Museu Britânico em 1958. A borda e o pé metálicos são acréscimos posteriores, de prata dourada. Seu uso original continua em discussão: recipiente para beber, peça de exibição ou até uma espécie de lamparina estão entre as possibilidades.

A mudança de cor tem nome: dicroísmo. Quando a iluminação vem do lado de quem observa, predomina a luz espalhada de volta pelo vidro, e a taça parece esverdeada. Quando a fonte fica atrás, vemos a luz que conseguiu atravessá-lo, e surge o vermelho. O vidro continua sendo o mesmo; muda o caminho que a luz faz até os nossos olhos.

As investigações avançaram depois da chegada da peça ao museu. No fim dos anos 1950 e durante a década de 1960, análises identificaram pequenas quantidades de ouro e prata, e pesquisadores já suspeitavam de partículas metálicas dispersas no vidro. Robert Brill, do Museu do Vidro da Corning, participou dessa etapa. Também houve experiências capazes de produzir vidro de coloração semelhante. Portanto, a tentativa de repetir o efeito começou bem antes das pesquisas atuais.

Uma evidência decisiva veio em 1990. David Barber e Ian Freestone publicaram o exame de um fragmento por microscopia eletrônica de transmissão. Encontraram partículas metálicas com dimensões da ordem de dezenas de nanômetros, frequentemente entre 50 e 100. Para ter uma ideia da escala, seria preciso alinhar cerca de mil partículas de 70 nanômetros para cobrir a largura de um fio de cabelo de 70 micrômetros.

Essas partículas contêm uma liga de prata e ouro, com cobre também identificado nas análises. A luz faz os elétrons do metal oscilarem coletivamente, fenômeno conhecido como ressonância plasmônica. Conforme o tamanho e a composição das partículas, e o meio em que estão mergulhadas, certas faixas de cor são absorvidas ou espalhadas com mais intensidade. Pense numa portaria que encaminha cada grupo para uma saída: a luz que atravessa o vidro chega mais avermelhada; a que retorna ao observador pode parecer verde. A analogia ajuda, mas o serviço é feito por elétrons, sem lista VIP.

Já se conhecia, portanto, a origem física do efeito. Restava uma pergunta de oficina: como obter de propósito uma distribuição de partículas capaz de produzir aquelas cores? A resposta de janeiro de 2020 foi parcial e curiosa: reproduzir o efeito em plástico, usando uma impressora 3D. Lars Kool e Floris Dekker dividiram a primeira autoria, com Vittorio Saggiomo como autor correspondente. A equipe reuniu pesquisadores da Universidade de Wageningen, nos Países Baixos, e da instituição alemã BAM. O resultado aproximava as cores, mas não recuperava a receita do vidro romano.

Saggiomo é químico (com ele a oração e a paz!), mestre em Química Orgânica pela Universidade Federico II de Nápoles, onde concluiu o curso em 2007. Fez doutorado em Kiel, na Alemanha, e pós-doutorado em química de sistemas em Groningen, antes de chegar a Wageningen em 2013. Hoje é professor associado do grupo de BioNanoTecnologia, com pesquisas em impressão 3D, microfabricação e tecnologias abertas. Um currículo que ajuda a explicar o encontro entre nanopartículas e um copo romano.

A equipe trabalhou com nanopartículas de prata estabilizadas por um polímero e depois incorporadas a outro plástico, o álcool polivinílico, conhecido pela sigla PVA. A estabilização era importante para manter as partículas em condições adequadas: prata demais se agrupando ou partículas com características erradas significavam perder o resultado desejado. O material foi transformado em filamento e usado numa impressora comum, dessas que depositam plástico derretido em camadas.

O primeiro copinho apresentava tons esverdeados na luz refletida e alaranjados na transmitida. Com a adição de um material contendo nanopartículas de ouro, o vermelho ficou mais próximo ao da taça antiga, embora as cores ainda fossem menos vivas. A iluminação e a espessura das paredes também influenciavam a aparência. Era uma demonstração engenhosa de que se podia repetir o efeito com ferramentas modernas, sem recuperar a receita do vidro romano.

Sobrava a pergunta da receita: como fazer isso em vidro de verdade? Foi esse o desafio enfrentado pelo trabalho independente da Universidade de Sheffield. Lisa Hollands e Caroline Jackson, especialista em vidro antigo, investigaram como produzir novamente um vidro com comportamento semelhante ao da taça. Um resumo assinado por elas e John Parker, intitulado “Reproducing the colours of the Lycurgus Cup”, já havia sido publicado em 2025.

Hollands fez mestrado e doutorado em Sheffield, com uma trajetória dedicada à ciência e à tecnologia do vidro. Antes de voltar à universidade, trabalhou na indústria, investigando problemas de fabricação em materiais que iam de vidro plano e garrafas a composições especiais. Hoje lidera o Laboratório Quarrell na Escola de Engenharia Química, de Materiais e Biológica. É o tipo de experiência que conta quando a receita parece correta no papel, mas o forno insiste em discordar.

No resumo de 2025, o grupo relatava ter partido de estudos anteriores e do conhecimento sobre a fabricação romana, variando matérias-primas e condições de fusão. O primeiro resultado satisfatório apareceu na véspera da abertura de uma exposição, depois de quatro meses de tentativas. Até na ciência dos materiais existe entrega no último minuto.

O trabalho de Sheffield avançou para novos testes de fabricação, que envolveram vidro fundido a mais de mil graus e o crescimento de nanocristais contendo ouro e prata durante o resfriamento. A questão central é fazer os metais assumirem a forma, o tamanho e a distribuição certos dentro do vidro. Colocar ouro e prata na mistura, por si só, não entrega uma Taça de Licurgo ao fim do expediente.

O comportamento do forno ajuda a entender a dificuldade. Na avaliação de Ian Freestone, mudar a posição do vidro já alterava a cor obtida. Isso sugere uma fabricação muito sensível às condições locais de aquecimento e resfriamento. Para os artesãos romanos, conseguir um resultado tão marcante pode ter combinado habilidade, experiência e uma boa dose de sorte. Ainda não sabemos quanto de cada ingrediente entrou nessa conta.

Também continua em aberto como os metais foram introduzidos na matéria-prima antiga. Impurezas nas fontes de metal e contaminações no processo estão entre as hipóteses discutidas. O resultado extraordinário não prova que os artesãos conhecessem as nanopartículas, nem autoriza concluir que tudo tenha sido um acidente. Eles podiam reconhecer e aproveitar um bom vidro sem dispor da explicação que hoje aparece nos livros de física.

O projeto de Sheffield ganhou ainda uma continuação artística: uma escultura de Elliot Walker que explora o mesmo efeito óptico, com apresentação anunciada para novembro de 2026 no Festival of the Mind. É uma maneira apropriada de devolver o resultado ao lugar de onde a pergunta partiu: um objeto que dá vontade de observar, mudar a luz e olhar outra vez.

A história fica mais interessante quando cada descoberta ocupa seu lugar. As análises revelaram os ingredientes; a microscopia mostrou as partículas; a impressão 3D reproduziu o efeito em plástico; e as experiências com vidro ajudam a reconstruir as condições de fabricação.

A taça deixou de ser um truque sem explicação, mas continua sendo uma demonstração espantosa de habilidade. Os romanos não precisavam conhecer a palavra “plasmônica” para fazer um copo que ainda hoje rende assunto. Bastava acertar o vidro. O difícil, como os laboratórios descobriram, é esse “bastava”. Mas uma coisa é certa: os romanos deram muita sorte, ou teríamos muitas “taças de Licurgo” por aí.

Pelo menos, ainda não se achou mais nenhuma. Vai que um dia…


Fontes (em ordem de data de publicação):

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