
Na quarta-feira, dia de São João, 24 de junho de 2026, enquanto os venezuelanos assistiam ao chão se abrir sob seus pés, o governo brasileiro descobriu algo igualmente sísmico: a CazéTV estava anunciando casas de apostas durante a Copa do Mundo (coloquem vocês mesmos o gif do Pikachu Surpreso). A Secretaria Nacional do Consumidor, com a urgência de quem acabou de perceber que a água é molhada, abriu investigação contra o canal de Casimiro Miguel, que doravante será chamado de JovemTV porque sim, já que eu sou o dono desta bagaça. O foco da investigação é a publicidade irregular de bets nas transmissões do mundial.
O país todo parou para contemplar a gravidade da situação. As emissoras tradicionais, por sua vez, contemplaram a cena da plateia com a serenidade de quem sabe que o holofote não está apontado para elas.
Antes de explorar o teatro, convém registrar uns certos números. Em 2025, o Governo Federal arrecadou R$ 9,95 bilhões em impostos sobre apostas esportivas, segundo dados da própria Receita Federal. Só no primeiro trimestre de 2026, a cifra já chegava a R$ 3,4 bilhões, crescimento de 123% em relação ao mesmo período do ano anterior. As bets, portanto, não são exatamente uma descoberta recente das autoridades. São uma fonte de receita crescente, tributada, regulamentada por lei sancionada em 2023 e plenamente operacional desde janeiro de 2025. O Ministério da Fazenda chegou a propor aumentar a alíquota de 12% para 18% justamente porque o negócio estava indo muito bem, e não porque o seu João faz a sua fezinha no celular no busão indo e voltando casa-trabalho-casa. A investigação da Senacom não chegou junto com a regulamentação. Chegou no meio da Copa.
O problema específico com o JovemTV, segundo as autoridades, seria a forma da publicidade: narradores mencionando as plataformas durante as transmissões, estimulando apostas em eventos com baixa probabilidade de vitória. São críticas que merecem ser avaliadas, mas o que não merece crédito é a implicação de que a JovemTV seria um caso singular num ecossistema virgem. Um levantamento da empresa de inteligência de mídia (sim, eu sei que soa paradoxal) Tunad referente ao primeiro trimestre de 2026 revelou que dez plataformas de apostas investiram R$ 327,2 milhões em publicidade televisiva no período.
A TV Globo absorveu 59% desse valor. O SBT ficou com 22%. Bandeirantes, Record e ESPN dividiram o restante. A Globo e o SBT, convém lembrar, já têm planos para lançar suas próprias plataformas de apostas: a Globo em parceria com a MGM para operar a BetMGM, o SBT por meio da Todos Querem Jogar. A investigação, curiosamente, contemplou o único player que não tem planos de entrar no mercado diretamente.
VEM RUGINDO ELE, O PARÊNTESE
A BetMGM tem tudo a ver com o Leão-Não-Imposto-de-Renda: A Metro-Goldwyn-Mayer foi adquirida pela Amazon em 2022, mas antes disso já havia diversificado seus negócios para além do entretenimento. A MGM Resorts International, braço de hotéis e cassinos da marca, é quem opera a BetMGM em parceria com a Entain, empresa britânica de apostas.
VAI AJEITANDO A JUBA ELE, O PARÊNTESE
Há ainda a Caixa Econômica Federal, que o debate prefere tratar como espectadora. A instituição arrecadou R$ 11,6 bilhões só com loterias no primeiro semestre de 2025, repassa 47% do faturamento para programas sociais e opera com a bênção do mesmo Estado que investiga o concorrente digital. Loterias instantâneas, Mega-Sena, Quina, Lotofácil, raspadinhas disponíveis em qualquer banca de jornal do país: o jogo de azar gerido pelo governo federal com propaganda nas redes, nos pontos de venda e na televisão. A lógica pela qual isso seria estruturalmente diferente de uma cota anunciada na JovemTV nunca foi explicada de forma satisfatória. Provavelmente porque não existe.
Mas o problema real com as bets não está sendo discutido com a mesma energia que a investigação sobre o Casimiro. Pesquisas da UNIFESP estimam que cerca de 11 milhões de brasileiros já apresentam algum grau de comportamento problemático relacionado a apostas. Dados da Anbima indicam que quase metade dos apostadores com comportamento de risco está endividada e 52% continuam apostando na tentativa de recuperar perdas, o que não é uma estratégia conhecida por funcionar.
A busca por atendimento no SUS por vício em bets cresceu quase 140% em cinco anos. O atendimento, por seu turno, recebeu meros R$ 57 milhões das bets no período de um ano, o que equivale a 1,15% do total arrecadado pelo governo com o setor. Especialistas calculam que o gasto público real para tratar a dependência é 500 vezes maior que o valor repassado ao sistema de saúde.
A questão de fundo não é se Casimiro deveria ter sido mais comedido ao mencionar as bets. Talvez devesse, mas há um detalhe que a narrativa do humilde streamer enfrentando o establishment prefere não mencionar: a CazéTV não pertence mais a Casimiro Miguel no sentido em que a mitologia sugere. A LiveMode, empresa de entretenimento ao vivo com investidores institucionais e capital suficiente para disputar direitos de transmissão com emissoras tradicionais, adquiriu o canal, transformando o que nasceu como um jovem carismático falando para a câmera do quarto num ativo corporativo com estrutura profissional, equipe, contratos milionários e apetite de mercado compatível com o de qualquer grande grupo de mídia.
A briga entre a CazéTV e a Globo, portanto, não é bem Davi contra Golias. É Golias contra Golias, sendo que um deles ainda usa a camiseta do Davi para fins de simpatia pública, e o outro é a Globo, que dispensa apresentações mas não dispensa a fatia de 59% da verba publicitária das bets que está embolsando enquanto torce, em silêncio e com elegância, para que o regulador continue olhando para o lado errado.
Tendo isso em mente, devemos revisar tudo, já que a questão é por que o governo que regulamentou, taxou, recebe bilhões e planeja continuar expandindo o setor age com espanto performático quando alguém usa o produto que ele mesmo licenciou para anunciar como ele próprio anuncia. A resposta mais parcimoniosa não é incompetência regulatória. É calendário eleitoral. Investigar a Globo e o SBT às vésperas de uma eleição exige um cálculo de custo-benefício que poucas administrações estão dispostas a fazer, já que veículos de mídia tem o seu poder de manipulação das massas. Um poder que a LiveMode não tem…
Ainda.
Há um padrão aqui que os textos desta semana que a Lise classificou como “O Apocalipse Tecnológico”: grandes interesses econômicos coexistem pacificamente enquanto a fiscalização se concentra nos periféricos, numa imensa guerra de cachorro grande. As emissoras tradicionais recebem 81% da verba publicitária das bets, planejam operar suas próprias plataformas e aguardam o desfecho da investigação sobre o concorrente com a expressão de quem torce silenciosamente do camarote. O Estado arrecada, a Caixa joga, o Ministério da Fazenda quer aumentar a alíquota e o Ministério da Justiça investiga. É uma divisão de trabalho admirável. O que o Estado não fez ainda foi facilitar seu cassin… cof cof cof (cassinos são proibidos, também)… sua jogatina de papelzinho em algo online a um App Store de distância.
O vício em apostas é um problema real, mas vamos ser sinceros que ele existe em vários níveis. Diferente do tráfico de drogas que impõe Lei Marcial em morros e periferias, governando o local com mão de ferro subjugando a população. O maconheiro ajuda a manter este mundo criminoso funcionando e se não for a droga, em si, serão todas as ações (como água mineral, gás de cozinha, pagamento por “segurança”, Internet etc) num lugar em que o poder público não entra, transformando a favela num Estado dentro do Estado. Mas isso não acontece com as bets, que no máximo só ferra o sujeito e a família dele, mas não as pessoas que moram no mesmo bairro que ele.
O pensamento é lindo “vamos proteger o pobre de tentar não ser pobre”. Bem, boa sorte quando até rico quer ser milionário, milionário quer se bilionário e bilionário quer mandar em um país só seu. Essa Caça às Bruxas é simplesmente alguém clamando para Papai Estado proteger o seu próprio negócio, porque se efetivamente o governo estivesse preocupado com as pessoas, lhes daria condições de não tentar destruir a sua vida em prol de uma exigência mais digna. Governo nenhum se preocupa com pobre ou o restante da população e sim em como se manter no poder, e pra isso emissoras de difusão de rádio e TV se mostraram um dos melhores exércitos paramilitares, e ninguém quer perder este tipo de aliado.
Mas sim, eu acho que a CazéTV deveria ser investigada por promover coisas medonhas em seus canais, que é algo bem pior e nefasto que bets: jovens comentando Copa do Mundo.
Fontes

Por que não liberam os cassinos e o jogo do bicho? Será que eles são mais nocivos que as BETs?
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Pelos mesmos motivos.
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