Vai, confia na tecnologia durante o percurso, vai

Eu adoro a Amazon e o Mercado Livre (Fuck You, Correios!). Um dos motivos é terem entregadores que… bem, que entregam a sua mercadoria. O problema é que ninguém mjais sabe dirigir. Já pode ver o Uber: o miserável fica rodando pela cidade mas se não tiver o GPS, ele não sabe por onde vai, como chega e sequer onde é. Daí pessoal desenvolve uma fé cega, quase religiosa, pelo GPS. Uma confiança que ultrapassa laços familiares, opiniões de especialistas e, aparentemente, o instinto básico de não dirigir para dentro de um estuário com maré subindo.

Sim, o idiota não viu a porra de UM ESTUÁRIO!

Foi exatamente essa devoção tecnológica que levou um motorista da Amazon, na noite de sábado (15/02), a conduzir sua van pela Broomway, uma trilha que corta os bancos de lama de Great Wakering, Essex, Inglaterra, em direção ao Estuário do Tâmisa, enquanto a maré avançava com a indiferença típica do oceano Atlântico para com as métricas de entrega da maior varejista do mundo.

O destino era a Ilha Foulness. Já o nome, convenhamos, deveria ter sido o primeiro sinal. “Foulness” em inglês pode ser traduzido, sem muita força, como “sujeira”, “podridão” ou simplesmente “aquilo que é mau e fedorento”. A ilha pertence ao Ministério da Defesa britânico, é operada pela empresa de segurança global QinetiQ e usada para testes de armas. Para acessá-la legalmente, existe uma rota oficial: pela barreira à esquerda do escritório de segurança da QinetiQ. O GPS, naturalmente, ignorou essa opção e mandou o motorista pela alternativa cênica, pelas lamas históricas, pelas águas que sobem. Porque o GPS é o GPS, e o GPS não negocia.

A Broomway tem quase 10 km de extensão, o que significa que o motorista percorreu uma distância generosa dentro da lama antes de concluir que algo TALVEZ estivesse errado. O caminho data de 600 anos, quando era demarcado por “brooms”, feixes de galhos e gravetos amarrados a postes que davam nome à rota. Esses marcos desapareceram ao longo dos séculos. O GPS, evidentemente, não foi atualizado com essa informação. Registros paroquiais locais atribuem à Broomway ao menos cem mortes por afogamento ao longo de sua história, e o cemitério da Igreja de Foulness guarda os restos de 66 vítimas identificadas. A última morte registrada data de 1919. O motorista da Amazon não conseguiu o indesejável recorde, mas tentou.

Imagens que circularam online mostram a van da Amazon encalhada em águas rasas após atolar na lama mole enquanto a maré começava a subir. O motorista conseguiu sair do veículo em segurança e alertou a Amazon, que providenciou a retirada da van com ajuda de um fazendeiro local.

Jeff Bezos deve ter ficado emocionado com a solução criativa de last-mile delivery. A Guarda Costeira de Southend, acionada na manhã de domingo, confirmou o resgate e declarou que sua prioridade foi garantir a segurança de todos os envolvidos e evitar danos ambientais, já que uma van cheia de pacotes afundando num estuário do Ministério da Defesa é exatamente o tipo de crise diplomática que ninguém quer.

A QinetiQ, que administra a área, deixa explícito em seu site que a Broomway “não é sinalizada nem mantida para veículos” e que “dirigir veículos motorizados ao longo de seu comprimento total constitui atividade ilegal.” Ilegal. Consta no site. O GPS, provavelmente, não tem conta naquele domínio.

Um porta-voz da Amazon confirmou à CNN que “o motorista está seguro e a van foi recuperada”, acrescentando que a empresa está “investigando” o incidente. Tradução corporativa livre: alguém em Seattle vai receber um e-mail com assunto “Incidente Aquático Essex” e uma planilha de ação corretiva que provavelmente vai incluir a linha “verificar se destino está submerso antes de confirmar rota”. A Amazon não comentou como uma ilha militar de acesso restrito estava cadastrada em seu sistema de entregas como destino válido, o que por si só já é uma pergunta que merece uma audiência no Parlamento britânico.

E para quem ainda acredita que isso foi um acidente isolado de um motorista distraído: guardas de segurança da QinetiQ confirmaram que aquele foi o segundo incidente do mesmo tipo naquela semana. Dois motoristas, em dias diferentes, mandados pelo GPS para o mesmo caminho de lama medieval rumo a uma ilha de testes de armas. Dois. Na mesma semana. O algoritmo estava determinado.

No fim, o pacote não foi entregue. A Ilha Foulness continua inacessível, cheia de armas, cercada de lama e de munição esquecida. A van da Amazon voltou molhada graças a um fazendeiro anônimo que provavelmente nunca imaginou que “resgatar veículo de empresa trilionária de pântano medieval” estaria no rol de suas obrigações matinais. E em algum servidor da empresa, um dado de GPS foi atualizado com a informação que todo mundo ao redor da Broomway já sabia há seiscentos anos: não é por aqui. Nunca foi.


Fonte: NDTV

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