
Existe uma máxima não escrita no mundo da arqueologia: cave fundo o suficiente e você vai encontrar merda. Literalmente. Mas raramente essa merda vira manchete internacional, é avaliada como “tão insubstituível quanto as Joias da Coroa” e acaba exposta num museu com toda a pompa que normalmente reservamos para relíquias sagradas e tesouros perdidos. Esta é a história do Coprólito do Lloyds Bank, possivelmente o cocô mais famoso da história ocidental; e não, não estou falando do sistema financeiro em 2008.
Ah, e quando falei “essa merda”, não é ofensa ou xingamento, é exatamente o que um coprólito é.
Coprólitos são basicamente cocôs fossilizados de humanos ou animais; sim, o tipo de coisa que faz as crianças darem risadinhas nos museus, mas que os cientistas adoram bisbilhotar como detetives de banheiro pré-histórico. O nome vem do grego “copros” (que significa fezes, sem rodeios) e “litos” (pedra), então é tipo “pedras de cocô”. Eles geralmente se formam quando o excremento seca rapidinho em lugares super secos, como desertos, e vira uma relíquia dura como rocha.
Esses “tesouros” podem ser antiquíssimos, datando de até o Período Cambriano (uns 540 milhões de anos atrás, quando a vida na Terra ainda estava decidindo se virava peixe ou dinossauro). Ao analisá-los, os especialistas descobrem um monte de fofocas sobre o “artista” original: o que comia (tipo sementes, ossos ou até pedaços de plantas exóticas, incluindo pólen que revela flores antigas por perto, fibras de vegetais mastigados, grãos de amido de raízes ou tubérculos, e fragmentos ósseos que mostram se era fã de churrasco pré-histórico), seus hábitos diários (era carnívoro voraz ou vegetariano preguiçoso?), o ambiente onde vivia (florestas úmidas ou savanas quentes?), sua posição na cadeia alimentar (predador top ou lanche de alguém maior?), se tinha parasitas ou doenças chatinhas (como ovos de parasitas que indicam vermes indesejados na barriga, traços moleculares de microrganismos tipo protozoários, bactérias ou vírus que podiam causar uma baita dor de barriga eterna, imagina um T-Rex com vermes na barriga ou uma gripe dino-vírus!), e até pistas sobre como as espécies se espalharam pelo planeta.
Ah, e em casos mais sinistros, eles podem conter proteínas humanas que apontam para canibalismo, tipo, “opa, esse aí comeu o vizinho da caverna”. Tem coprólitos famosos, como os de dinossauros que mostram que eles devoravam tudo o que viam pela frente, provando que até os gigantes pré-históricos não escapavam de uma indigestão épica ou de um menu questionável.
Entenderam até aí? ótimo! Vamos ao verdadeiro assunto.
Em 1972, enquanto escavavam o que viria a se tornar uma filial do Lloyds Bank na Pavement Street, em York, norte da Inglaterra, a equipe do York Archaeological Trust estava fazendo seu trabalho habitual: desenterrando os restos da antiga Jórvík, o próspero assentamento viking que existiu ali no século IX. Entre fragmentos de cerâmica, pedaços de madeira preservada e outros artefatos cotidianos da vida nórdica medieval, os arqueólogos encontraram algo… digamos, inusitado. Um objeto marrom-acinzentado, sólido como pedra, medindo impressionantes 20 centímetros de comprimento por 5 de largura. Não era um pedaço de madeira fossilizada. Não era uma ferramenta estranhamente orgânica. Era, senhoras e senhores, o resultado fossilizado de uma visita viking ao que eles chamavam de “necessário”.
Mas este não é qualquer coprólito. Este é possivelmente o maior exemplar de paleofezes humanas já encontrado no planeta, um recordista mundial que nenhum viking imaginaria que estabeleceria. Imagine só: você acorda numa manhã fria do século IX, come seu pão e carne (voltaremos a isso), vai ao buraco que passa por banheiro, faz o que precisa fazer, e 1.200 anos depois seu momento mais íntimo está sob holofotes num museu, sendo admirado por milhares de turistas anualmente.

Isso saiu de alguém. Frise-se!
O destino dessa obra-prima escatológica é uma saga por si só. Depois da descoberta, o coprólito passou por análises detalhadas que revelaram mais sobre a vida viking do que muitos documentos escritos conseguiriam. As camadas que o envolviam eram úmidas e turfosas, uma espécie de cápsula do tempo natural que preservou não apenas o espécime em questão, mas também madeiras, tecidos e couro do período. Ao contrário de outros coprólitos que se preservam por desidratação (basicamente virando múmias intestinais), este passou por mineralização, transformando-se em pedra através de processos químicos que fariam qualquer alquimista medieval babar de inveja.
E o que as análises revelaram sobre o proprietário original deste legado? Bem, prepare-se para uma aula de paleopatologia gastronômica. Nosso viking anônimo subsistia basicamente de carne e pão, uma dieta proteica que faria qualquer influenciador fitness moderno ter orgulho, exceto pelo pequeno detalhe de que havia evidências de que outras pessoas na mesma Jórvík tinham acesso a frutas, alho-poró, frutos do mar e nozes. Então ou nosso protagonista tinha uma dieta extremamente restrita por escolha, ou era incrivelmente teimoso em suas preferências alimentares. “Vegetais? Nunca ouvi falar”, ele deve ter pensado, enquanto mastigava mais um pedaço de carne.
Mas a descoberta mais perturbadora (e aqui é onde a história deixa de ser engraçada e vira episódio de House MD – Medieval Doctor) foram as centenas – CENTENAS! – de ovos parasitários encontrados no espécime. Especificamente, ovos de maw-worms (vermes intestinais) e whipworms (os vermes do chicote, que têm esse nome charmoso porque parecem pequenos chicotes, não porque açoitam suas entranhas, embora provavelmente causem essa sensação). Este pobre viking estava absolutamente infestado de parasitas intestinais. Imagina só o desconforto: a vida já sendo dura no século IX (você tinha que se preocupar com invasões, invernos brutais, higiene questionável) e ainda por cima suas tripas eram um AirBnB para centenas de vermes. Não é de se admirar que o resultado final fosse tão… substancial.
A verdadeira celebridade, porém, chegou em 1991, quando Andrew Jones, um paleoscatologista (sim, essa profissão existe e alguém precisava fazê-la) do York Archaeological Trust, foi encarregado de avaliar o coprólito para fins de seguro. Jones, numa tacada de marketing involuntário que deve estar pendurada na parede de todas as agências de publicidade do Reino Unido, declarou à imprensa internacional: “Esta é a peça de excremento mais empolgante que já vi… À sua maneira, é tão insubstituível quanto as Joias da Coroa.” A frase virou manchete do Wall Street Journal (pdf) e transformou nosso humilde coprólito numa celebridade global instantânea.
Inicialmente, o espécime foi exibido no Archaeological Resource Centre, um centro educacional administrado pelo York Archaeological Trust. Ali, gerações de estudantes e turistas puderam contemplar a prova definitiva de que a história da humanidade é, literalmente, construída sobre camadas de experiências humanas muito, muito humanas. Mas em 2003, o destino pregou uma peça cruel: durante uma demonstração a um grupo de visitantes, alguém deixou o coprólito cair. O insubstituível tesouro escatológico se partiu em três pedaços. Imagine o silêncio constrangido que deve ter tomado conta da sala. “Acabei de quebrar um cocô de mil anos” não é exatamente algo que você quer adicionar ao seu currículo.
Felizmente, esforços de reconstituição foram empreendidos (e aqui fico imaginando o conservador de museu tendo que explicar em seu relatório anual: “Gastamos X libras colando de volta um cocô viking”), e desde 2008 o Coprólito do Lloyds Bank encontrou seu lar permanente no Jorvik Viking Centre, o museu dedicado à história viking de York construído literalmente sobre as escavações originais de Coppergate, onde a cidade nórdica foi redescoberta.
Hoje, visitantes do mundo inteiro fazem fila para tirar selfies com o que é, objetivamente falando, merda antiga. E há algo profundamente humano e estranhamente comovente nisso. Porque no final das contas, o Coprólito do Lloyds Bank nos lembra que história não é apenas sobre reis, batalhas e grandes monumentos. É também sobre pessoas comuns vivendo vidas comuns, comendo suas refeições, sofrendo com seus parasitas intestinais, e deixando para trás, literalmente, evidências de sua existência. Que essas evidências acabem numa vitrine de museu sendo comparadas às Joias da Coroa? Bem, isso é apenas a cereja no topo do bolo. Ou seria melhor dizer: o milho no meio do… bem, você entendeu.
