Morte chocante acompanhada de desfaçatez enterrada

A vida nos cantinhos de Nosso Senhor Hades é severa, às vezes chocante. Não melhor ou pior que isso temos a velha medicina tradicional (de qualquer nacionalidade), que é muito eficiente e salvou muita gente. 0,1% dos casos sobreviveram, mas é muita gente. Isso ficou comprovado por um certo rapaz de 28 anos que deu uma de Electro e tomou um choque daqueles, caindo duro. Por sorte, a família ajudou usando a velha Medicina Tradicional whatever.

Resultado: bem, eu preciso dizer?

Eletrizando os óbitos por meio da insânia popular, esta é a sua SEXTA INSANA!

O caso aconteceu em Pilibhit, uma cidadeca de Uttar Pradesh (que outro lugar vocês esperavam?). Pilibhit é um lugar incrivelmente minúsculo; deve ter alguém morando lá.. Pelo menos, uma pessoa eu tenho certeza que morava (notem o tempo verbal): Dataram, de 28 anos. Ele decidiu passar a manhã cortando bambu (vai, pergunta). Nada demais, exceto pelo detalhe de encostar o bambu numa linha de alta tensão. Resultado? Um choque elétrico daqueles que fariam até Zeus reconsiderar sua carreira de lançador de raios.

Em países normais, a cena seguinte envolveria ambulância, desfibrilador e médicos com cara de poucos amigos, gente gritando “CLEAR” e depois tendo uma imensa conta no hospital, u pode ir pra algum hospital público brasileiro e ficar na maca esperando a boa vontade de alguém.

Mas estamos falando de Índia, e a família de Dataram resolveu inovar: nada de hospital. Nada de atendimento. A solução brilhante foi transformá-lo num repolho humano enterrado até o pescoço, como se a areia fosse uma espécie de aspirador de choque elétrico. Percebam lógica genial: a eletricidade iria “sair” do corpo do coitado e ser absorvida pelo solo, como se a areia fosse uma tomada gigante.

Essa explicação científica patrocinada pelo WhatsApp tem o mesmo rigor que dizer que suco de limão cura câncer ou que o horóscopo explica sua dívida no cartão de crédito. Mas, como sempre, a realidade decidiu superar a ficção.

Pegaram o coitado do Dataram, semi-consciente, enfiaram na terra até o pescoço, cercado por vizinhos e parentes que o olham como se estivessem participando de um ritual xamânico aprendido no Tik Tok. Provavelmente havia alguém dizendo: “Calma, daqui a pouco a areia suga tudo. Vi num vídeo de um Influencer”. Tudo roteirizado por um roteirista cansado, sem orçamento e sem paciência, que resolveu misturar ciência com feitiçaria e entregar como se fosse Medicina Popular.

Mas a física, essa chatonilda sem senso de humor, não colabora com fantasias comunitárias. Choques elétricos não funcionam como dor de barriga curada com boldo. Queimaduras de 11 mil volts não se resolvem como mancha de gordura tirada com bicarbonato. A eletricidade não tem botão “reset” enterrando alguém no quintal. O resultado previsível? Dataram piorou. E quando, finalmente, os parentes tiveram aquele estalo de lucidez “ei, talvez o hospital seja uma ideia melhor do que o canteiro de areia”, já era tarde demais.

Morreu no caminho, transformando-se em mais uma estatística que confirma o óbvio: Darwin não tira férias. E como toda boa tragédia precisa de uma pitada de burocracia, eis o detalhe sórdido: se Dataram tivesse terras, a família receberia 500 mil rúpias de indenização, ou meio quilo de café. Mas como vivia na miséria, nada feito. Você é pobre, morre pobre e ainda descobre que até a morte tem classe social. Se a vida já era cruel, a pós-morte chega rindo com recibo em mãos. Mas, ao que se tem notícia, não cobraram da família pela conta de luz…

Ainda.

O dr. Manish Sharma, do Centro de Saúde, explicou que só a autópsia poderia confirmar a natureza exata das queimaduras, que estavam lá claramente a origem, mas tem os trâmites a serem seguidos. Um diagnóstico depois do paciente estar morto é sempre reconfortante. É como chamar o encanador depois que a casa já virou aquário.

No meio disso tudo, o que sobra é a moral mais amarga possível: em pleno século XXI, com Google no bolso e tutoriais no YouTube para absolutamente tudo, ainda há quem ache que a areia é hospital, se esquecendo que gatos a veem como privada. É pseudociência em versão hardcore, uma espécie de “homeopatia com colheres de pedreiro”. Pior: legitimada pela comunidade, que provavelmente já tinha feito isso antes com uma galinha gripada e achado que funcionou.

Claro, sempre tem quem tente defender: “Mas é tradição, é cultura local, é medicina popular”, normalmente dito por quem tem plano de saúde caro.

No fim, Dataram virou protagonista involuntário de um teatro do absurdo. A família aprendeuCitation Needed a lição mais dura: areia não cura nada além da própria burrice. E nós, espectadores desta tragicomédia, ficamos com a sensação de que a humanidade continua empenhada em cavar seu próprio buraco… às vezes literalmente.

Já as promessas do governo em dar uma casa e ajudar a família de Dataram? Bem, políticos estão muito ocupados consigo mesmo, e as esperanças também foram enterradas na areia.


Fonte: TOI

2 comentários em “Morte chocante acompanhada de desfaçatez enterrada

Deixar mensagem para Elise Cancelar resposta