O caso do astrônomo que viu um OVNI, mas era uma nave espacial

Muitos de vocês devem imaginar que grandes descobertas científicas no campo da Astronomia é feita em imensos laboratórios, telescópios avançadíssimos ou com um monte de Zé Mané que nem sabe geografia de Ensino Fundamental e critica a “ciência gringa” enquanto faz o seu trabalho (cof… cof…) com os dados do Hubble. Você estaria certo, exceto pela última parte, mas não é só isso. Alguns astrônomos amadores já descobriram cometas e até uma galáxia. Legal, né? Imagine quando eu disser para você que um astrônomo amador estava de boas fazendo suas observações até que viu um OVNI.

Mas como assim? Bom, se é um objeto, se ele voa (ou “voa”) e não se consegue identificar, é um OVNI, pois não? Era um batedor de Nosso Senhor Ashtar Sheran? Aliens voltando para saber quantas andam as pirâmides? Quidiabéissu?

O caso aconteceu em 3 de setembro de 2002. William Kwong Yu Yeung nasceu em Hong Kong em 1960. Ele já tinha descoberto vários asteroides e até mesmo um cometa periódico do nosso Sistema Solar (o 172P/Yeung), mas naquela noite de setembro ele viu algo esquisito. Era um objeto, claro, só que Yeung acreditava ser mais um asteroide nunca visto em uma órbita rápida em torno da Terra. Mas era bem estranho: tinha apenas 15 metros de comprimento e girava uma vez a cada minuto, e foi visto perto da constelação de Peixes. Yeung batizou com o nome J002E3.

O troço era tão esquisito que Yeung quis porque quis saber que bagaça era aquela. Aliens? Pode ser que sim ou pode ser que não (a tendência é o “pode ser que não”). Os astrônomos do Minor Planet Center rapidamente perceberam que o J002E3 não era um asteroide. Sua órbita incomum suspeitava que fosse de fato feita por… alguém? Então eram aliens, mesmo… Ou será que tinha dedinho de seres humanos ali?

Os cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) em Pasadena, resolveram ver qual é daquele troço. Pesquisas automatizadas de asteroides deram uma olhada naquilo e concordaram que não era um asteroide, reforçando que tinha que ter sido feito por alguém, o problema é que não correspondia a nenhuma espaçonave recém-lançada. Então, começaram a rastrear a trajetória do objeto, descobrindo que o safadinho voador havia sido capturado em abril de 2002 na órbita da Terra a partir de uma órbita ao redor do Sol semelhante à da Terra. Plotando os dados nos computadores, os pesquisadores determinaram que o objeto parecia ter entrado em sua órbita circundante ao Sol depois de originalmente ter escapado da órbita terrestre em fevereiro de 1971.

Péra, 1971? Sim, 1971!

Outros pesquisadores entraram na brincadeira, que estava para lá de divertida (eles juram que era pela ciência, mas pensem que maneiro desvendar este tipo de mistério!). examinando a órbita, confirmaram que o J002E3 apresentava uma órbita caótica, circulando a Terra uma vez a cada 48 dias, chegando tão perto de nosso planeta quanto a Lua e variando até duas distâncias lunares. A órbita era irregular e estava constantemente mudando por causa das perturbações gravitacionais geradas pelo Sol e pela Lua.

Cientistas da Universidade do Arizona e do MIT observaram a superfície do asteroide-que-não-é-asteroide e fizeram uma análise espectroscópica, por meio da análise da luz refletida pelo Yu J002E3.

Um espectroscópio se baseia no fato que quanto a luz interage com um corpo, ela reflete parte de sua energia e absorve outra. Substâncias absorver partes do espectro da luz branca, refletindo apenas “trechos” deste espectro. Sabemos que a luz branca tem um espectro como este aqui:

Mas se um feixe de luz passar por uma nuvem de hidrogênio, o gás absorve determinadas linhas espectrais e o que sai do outro lado é algo como isso aqui:

Apesar da luz parecer ser branca, pelo espectrógrafo vemos que tem “linhas” faltando. São trechos de comprimento de onda que são absorvidas pelo hidrogênio. embaixo, são as emanações eletromagnéticas absorvidas por comprimento de onda, e isso é característico de cada substância. Não existem duas substâncias diferentes com as mesmas linhas de absorção.

A mesma técnica pode ser usada se a luz bate na superfície de um corpo e é refletida. Se a sua camisa é verde, ela não é verde. Acontece que a luz branca bate na sua camisa e ela reflete apenas a cor verde, absorvendo as demais. Se você iluminá-la com luz vermelha, ela parecerá mais próxima à cor preta, pois estará absorvendo quase tudo.

Com isso, o ensaio de espectroscopia se baseia em observar a luz que passa através (ou é refletida) por uma substância, ver quais linhas espectrais foram absorvidas e jogar no computador para comparação com uma enorme tabela feita com os dados de substâncias com linhas espectrais conhecidas.

Ao analisar a luz refletida pelo J002E3, os pesquisadores ficaram extremamente surpresos: aquilo era coberto de tinta; mas não era uma tinta qualquer. Era uma tinta branca, feita de dióxido de titânio (TiO2). E eles só conheciam uma coisa pintado com este tipo de tinta: corpos de foguetes! Tá bom para vocês? Não? Pois bem, não só eram tintas usadas em corpos de foguetes, mas tinham traços característicos das tintas usadas em foguetes das missões Apollo.

Tinham dito 1971? Agora as coisas estavam fazendo sentido!

O Saturno V foi uma das maiores e mais maravilhosas máquinas já construídas pelo Homem. Ele voou pela primeira vez em 9 de novembro de 1967, na missão Apollo 4. Este monstro da engenharia e esforço tecnológico não foi construído integralmente pela NASA. Ele SEQUER foi construído pela NASA. NASA não constrói nada. Ela é uma agência que administra recurso, cria as especificações, organiza a licitação e reverte a verba para a empresa que ganhar. Enquanto tem gente tendo ataque de piti com a SpaceX por ser uma empresa privada, o Saturno V foi construído por três empresas diferentes: Boeing, North American Aviation e Douglas Aircraft Company. Tudo isso independentemente. O projeto era tão secreto que um não sabia o que o outro estava fazendo. Sim, um pesadelo logístico para que tudo funcionasse em conjunto. Os trabalhos eram coordenados pela IBM (SURPRESAAAAAAAAAAA! Outra empresa privada).

O enorme Saturno V foi o responsável de levar o Homem à Lua e colocar a Estação Espacial Skylab em órbita ao redor da Terra. Foram 18 foguetes Saturno V completos construídos; apenas 13 foram lançados. O foguetão tinha três estágios, cada estágio construído pelas empresas supracitadas. O primeiro estágio era chamado S-IC e o segundo estágio foi batizado de S-II, ambos tendo cinco motores usando hidrogênio e oxigênio líquidos como combustível, mas as semelhanças acabavam aí.

O S-IC possuía massa (ah, vou falar “pesava”, mesmo. Tô nem aí) 131 toneladas. Achou muito? Mas isso é ele vazio. Cheio, pesava 2.300 toneladas. Pense numa caixa d’água de mil litros cheia. Pense em 2.300 delas enfiadas num cilindro de 42 metros de altura e 10 metros de diâmetro. Os 5 motores tinham como configuração um central, maior e mais robusto, e 4 em volta dele que se moviam para direcionar o foguete e dar a sua trajetória. Errou um milímetro, já era, ainda mais a 2.300 m/s (sim, ele “andava” 2,3 km em um simples segundo).

O S-II mas tinha cerca de 24 metros de altura e 10 metros de diâmetro, pesando 36 toneladas vazio e 480 toneladas completamente abastecido. Enquanto o primeiro estágio acelerou por 168 segundos, indo até a altitude de 67 km, o S-II funcionou por 367 segundos, indo até uma altura de cerca de 1500 km, com a estúpida velocidade de 24,9 MIL km/h!

Tanto o S-IC como o S-II caíram de volta à Terra, mas tinha o terceiro estágio. Ele era chamado de S-IVB. Este estágio não caía de volta à Terra simplesmente porque era ele quem levava os astronautas à Lua. Ele tinha 17,81 metros de altura e 6,60 metros de diâmetro, utilizando tetróxido de nitrogênio e metil-hidrazina coo combustível. Acredite, você não quer ficar próximo a hidrazina se ela estiver de mau-humor.

Claro, você vai perguntar como um módulo tão pequeno com muito menos combustível daria conta de levar os astronautas até a Lua e voltar. A resposta é muito simples: Não é que ele voltava. Não voltava. Tudo começa com uma questão simples e uma enorme dor de cabeça: o foguete precisa de grande empuxo para sair da gravidade terrestre e vencer a resistência do ar. O problema é que quanto mais aumenta o volume, mais aumenta a massa e muito maior é a força-peso sobre o conjunto. Logo, é preciso maior quantidade de combustível. mais combustível implica em mais massa, e isso foi um problema na hora de escolher o combustível, que tinha que ser leve e eficiente.

Em contrapartida, o terceiro estágio não tinha este problema porque ele só era ativado já no Espaço e depois do empurrão gravitacional que a Terra deu. Para vir da Lua pra cá não havia este problema. Ao chegar na Lua, ele se abria, liberando o módulo água e o módulo de comando. O S-IVB era deixado para trás, ao sabor da gravidade lunar. Os astronautas faziam o que tinham que fazer, voltavam pro módulo de comando e este que voltava pra Terra. Pouca massa e com o foguete que tinha aceleração crescente. Espaço não tem resistência do ar, lembrem-se.

Alguns dos S-IVB  ficavam à deriva, mas era incerto. No caso, um deles foi o corpo avistado por Yeung.

O J002E3 então era um S-IVB, ok, beleza, na paz do Senhor. Mas qual deles era? Os estágios S-IVB das missões Apollo de 13 a 17 caíram intencionalmente na superfície lunar para criar terremotos artificiais, de forma que cientistas pudessem testar os instrumentos sísmicos colocados por pousos anteriores. Nas Apollo numeradas de 8 a 12, os S-IVB foram intencionalmente colocados em órbitas heliocêntricas; logo, qualquer uma dessas missões poderia ser o J002E3.

Uma análise mais aprofundada do J002E3 sugeriu que ele deixou a órbita da Terra pela primeira vez em 1969, estreitando as coisas entre Apollo 9 e 12. Mas, hey! A data da tinta é 1971. Então, a resposta mais aceitável seria: Apollo 14. Mas ele não deveria ter caído na Lua? Se não tivesse caído, cientistas aqui na Terra teriam percebido.

Então, a hipótese mais provável que que o J002E3 é o S-IVB da Apollo 12, que ao contrário da Apollo 14 não colidiu com a Lua. A tripulação o abandonou em 15 de novembro de 1969, quando estava quase sem combustível. Uma vez que os astronautas estavam em segurança, os controladores de solo ligaram o motor do S-IVB. Só que algo deu errado, e a queima durou mais tempo que o previsto, e em vez de circundar o Sol, o S-IVB entrou em uma órbita quase estável ao redor da Terra e da Lua.

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Claro, o S-IVB acabou desaparecendo dos sensores e ninguém mais deu pela conta, mas o mais provável é que ele orbitou o Sol por 31 anos até ser capturado novamente pela gravidade da Terra em 2002, tendo sido observado por Yeung.

Às vezes, uma simples observação conta muito para a nossa história em termos de aventura e exploração espacial. A sorte que esses astrônomos amadores não são os mesmos que ficam no Twitter rezando para que algo dê errado, porque a exploração atual está principalmente nas mãos da iniciativa privada e de outros países, enquanto usam dados de satélites de outros países construídos por empresas privadas.


PS. A mula aqui subiu o texto com uma parte capenga, o que deu um sentido errado em algumas partes. Sorte que o Marcelo me avisou. Obrigado Marcelo.

Lembrem-se: revisem duplamente seus textos antes de postar, para não passarem vergonha.

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