LEVANTA-TE E ANDA: Fóssil ganha exoesqueleto para cientistas estudarem seus movimentos

Eu procuro sempre dar uma assuntada nos periódicos científicos, sites de universidades e institutos de pesquisa para saber o que anda rolando e trazer para vocês. Claro, para pesquisas internacionais. Universidade brasileira não faz divulgação científica. Talvez para ninguém saber da Ciência Salame. Eu desisti de pedir a pesquisador para me mandar seus papers para eu ler e divulgar. É a síndrome “é pro Fantástico?”, para depois reclamarem que jornaleiros publicaram tudo errado. Normalmente, eu posto coisas que estão recém-publicadas, na larga maioria das vezes antes dos veículos de informação e de “informação”, com informações certas e detalhes adicionais e alguma observação para elucidar pontos. Então, eu vi um artigo, digo, um vídeo compartilhado pela Reuters do dia 5 de fevereiro, mostrando que cientistas pegaram um fóssil e montaram num robô para saber como ele andava quando era vivo (o fóssil, não o robô). Ao pesquisar a respeito, vi que não era nada disso.

Sim, eu cheguei depois. Vários tinham veiculado, mais notadamente copiando a postagem da Reuters. Mas o que foi descoberto e qual era a pesquisa?

O Orobates pabsti pertencia ao gênero Orobates, mas isso você deduziu pelo nome, certo? Eles eram diadectídeos, isto é, anfíbios tetrápodes (quatro membros) que viveram no que hoje é a América do Norte e a Europa durante o final do período carbonífero e no início do Permiano, e na Ásia durante o final do Permiano (o período geológico compreendido na faixa de tempo entre 299 e 251 milhões anos antes de nós, macacada pelada). Lembram a catástrofe do Permiano, quando 95% da vida na Terra foi pra vala? Pois é, os Orobates não foram uma exceção. Mas as semelhanças dos orobastes com os diadectídeos termina por aí

Os orobastes foram os primeiros tetrápodes herbívoros e também os primeiros animais totalmente terrestres a atingir tamanhos grandes, caracterizado por um corpo e uma cauda longa, com pernas razoavelmente curtas e um crânio curto em comparação com os diadectídeos mais próximos. Isso indica que orobates era menos especializado em caminhadas longas em comparação com outros diadectídeos. Mas como era sua locomoção? Passado e futuro se encontram para escrever o presente aí.

O dr. John Nyakatura é biólogo evolucionário e tem seu próprio laboratório no Centro Hermann von Helmholtz de Engenharia Cultural no Instituto Central da Universidade Humboldt de Berlim. Querendo estudar o sistema de locomoção do O. pabsti, Nyakatura – que eu pensei que era cientista japa, mas vi que era clone do Ronaldo Gogoni – resolveu construir simulações no computador para estudar os vestígios fósseis nas rochas (aka, pegadas) e botou seu pessoal para construírem um robô. Para tanto, estudou como seria o movimento, e montou sobre esqueletos recriados do O. pabsti, porque usar o fóssil real daria dor de cabeça. A dor de cabeça começaria quando jogassem uma mesa no quengo dele. Assim foi construído o OroBOT.

Nyatatura-san percebeu, então que O. pabsti não era como os anfíbios. Ele era um amniota, ou seja, fazia parte do grupo de animais cujos embriões são rodeados por uma membrana amniótica, como mamíferos, répteis e as aves. Pela forma como ele andava, ele tinha um porte surpreendentemente eficiente, sugerindo um desenvolvimento mais avançado na locomoção. E, ao contrário dos anfíbios, os amniotas podem viver inteiramente em terra, enquanto os anfíbios passam boa parte da juventude na água. Isso é devido às membranas protetoras que cercam os embriões que permitem que os amniotas contornem um estágio de vida do tipo girino na água. Répteis e aves põe ovos, que são depositados em ninhos, enquanto os embriões dos mamíferos permanecem dentro da mãe. Girino pra que?

Voltando ao robô, o projeto do OroBOT ficou sob supervisão do dr. Kamilo Melo, um bioroboticista do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, cuja pesquisa consiste no desenvolvimento de robôs biologicamente inspirados.

Kamilo recriou o esqueleto da criatura e o usaram para restringir as possíveis amplitudes de movimento de braços e pernas, já que não faria sentido esperar que um proto-lagarto corresse mais que Yo Momma quando gritam “BOLO!”. Na simulação dinâmica que Kamilo e seu pessoal fizeram, pegaram todos os dados do esqueleto devidamente digitalizado, criando uma versão computacional, baseado num trabalho anterior de Nyakatura.

Assim, eles podiam analisar fatores como gravidade, atrito e equilíbrio, para realmente examinar como o animal poderia ter caminhado, traçando paralelo com os animais que temos hoje, como lagartos, lagartixas e salamandras. Por fim, juntaram tudo e fizeram o OroBOT. Eu achei o máximo. Espero que vendam uma versão na Ali Express.

A pesquisa, claro, continua. Ela foi publicada na Nature (não, nada de publicação aberta. Dane-se você. Eu jamais falarei para usar o Sci-hub se quiser ter acesso), e ainda há um bocado a se descobrir sobre o O. pabsti e seus contemporâneos. Ele morreu, mas alguns descendentes e primos sobreviveram, e são os que vemos hoje em dia.

Por fim, gostaria de deixar registrado minha falha de não ter publicado isso antes, quando a pesquisa saiu. Foi uma falha. Desculpem aí.

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