Em defesa das ciências humanas

Olá amiguinhos e amiguinhas!

Acho que já comentei aqui antes que sou uma pessoa muito curiosa e sempre me interessei por ciência. Poucos sabem, mas quando eu tinha entre 9 e 14 anos eu queria estudar química quando crescesse (é sério, gente, juro). Eu passei boa parte da minha infância e adolescência lendo enciclopédias e livros didáticos de ciência.

Aí vocês devem estar pensando “mas o que aconteceu que ao invés de química ou biologia ou física ou medicina você acabou indo pra psicologia, depois letras e acabou na linguística? Bateu a cabeça?”. Então, foi quase isso mesmo. Acabou que eu era uma adolescente chata (desculpem a redundância) e com disciplina zero (tenho problemas com isso até hoje, mas a gente vai melhorando com o tempo). Eu tinha preguiça de ficar horas e horas fazendo exercícios de matemática, e me irritava com erros bobos que destroem com a bagaça toda, e cismei que não tinha vocação pra matemática. (outra coisa que aconteceu foi que com 15 anos eu mudei de escola, o currículo era bem diferente, e eu acabei ficando sem base pra entender coisas como logaritmo ou potenciação. Mas enfim, boa parte da culpa é preguiça mesmo.)

Se por um lado eu, provavelmente, nunca irei ganhar dinheiro nem reconhecimento pelo que eu faço, por outro lado eu acabo tendo uma visão bem abrangente da ciência, tendo uma grande admiração pelas hard sciences ao mesmo tempo em que meu trabalho está inserido nas humanidades (em parte, como eu já expliquei em outros textos, já que a linguística gerativa tem um pézinho nos estudos cognitivistas, e outro pézinho em ciências formais como a matemática [pois é]).

Então, eu queria defender aqui a importância das humanidades e o perigo (ao meu ver) do utilitarismo na ciência.

Muita gente critica o utilitarismo ao defender, por exemplo, a exploração espacial. O Cardoso tá sempre aí defendendo a Nasa, mostrando que, mesmo que não tenha efeito direto imediatamente, é legal a gente mandar sondas passearem em Plutão, isso desenvolve a ciência, pesquisa de materiais, de organização da informação, e conhecimento por si só nunca é demais.

O triste é que as mesmas pessoas que defendem a Nasa utilizam o argumento do utilitarismo para criticar as ciências humanas. Ah, pra que estudar como as pessoas se organizam em sociedade, ou comportamentos, ou opiniões, ou sei lá, isso é inútil, vamos gastar dinheiro em coisas realmente importantes como erradicar a fome na África!

Primeiro de tudo: por que não estudar humanidades? A gente não pode ter curiosidade sobre coisas que envolvem a nossa espécie? Só se for no âmbito biológico? A gente não pode querer saber mais sobre nós mesmos, como nos organizamos, como somos, o tal do “de onde eu vim, pra onde eu vou” etc etc? Não são perguntas válidas?

Eu acho que é válido sim. Eu acho que qualquer curiosidade é válida. Eu acho que não existe pergunta inútil. Até onde sei, o Carl Sagan concordaria comigo.

Segundo ponto: dá sim pra tirar efeitos práticos de estudos em ciências humanas.

Você usa conhecimentos sobre a humanidade/sociedade de diversas formas. Por exemplo, criando políticas públicas que podem melhorar a vida das pessoas. Se você conhece o comportamento de um grupo de risco, por exemplo, você pode pensar em maneiras de reduzir esse risco. Isso aconteceu quando a AIDS começou a se espalhar entre gays – estudando o comportamento e hábitos sexuais dos gays foram criadas políticas para reduzir o risco de contágio.

Outra crítica comum às humanidades são as pesquisas malfeitas, cheias de vieses e problemas metodológicos. Elas existem, fato. E não só nas humanidades, mas em qualquer área. Lembram do Wakefield (medicina/biologia), que tá aí causando mortes evitáveis por causa de ciência ruim?

A gente tem a impressão (que não é 100% errada) de que é mais fácil ser picareta em ciências humanas, por vários motivos. Mas acreditem, é uma minoria.

Estudar humanidades é difícil pra caralho. Acreditem em mim. São processos MUITO complexos, e é difícil você ter neutralidade e distanciamento* [Em todas as disciplinas de metodologia científica/ciclo básico de ciências humanas que já fiz, esse é o dilema número zero que sempre está presente: como estudar algo que é sobre nós mesmos sem interferir nisso, com neutralidade? Há várias saídas para isso. Na sociologia, por exemplo, isso se traduziu no trabalho de Durkheim e a teoria dos fatos sociais. Na psicologia, o trabalho de Skinner e outros behavioristas tentava buscar a objetividade no estudo do ser humano. e por aí vai…] quando se trata de um negócio que vai até nas suas orelhas. Por exemplo, eu estudo línguas. Já escrevi aqui antes sobre como é difícil definir o que é língua. Ou seja, minha área de estudo tem um escopo que é quase impossível de definir. E como língua tem diferentes possibilidades de definição, todas válidas, existem diferentes linguísticas, cada uma estudando um aspecto diferente, de um jeito diferente, e todos se complementam de certo modo.

Então, eu acho que dá sim pra defender o antropólogo que estudou os banheirões na Bahia. Como? Bom, começa que ele estudou um grupo social estigmatizado, em situação de risco, e pouco conhecido. Se a gente aprende alguma coisa sobre eles, dá pra pensar em jeitos de melhorar a situação dos caras, de tentar fazer eles serem menos estigmatizados, de minimizar os riscos (por exemplo, minimizar a incidência de DSTs). É uma maneira de tentar lutar contra preconceitos, dando visibilidade a um grupo social.

Eu tive uma matéria de antropologia na faculdade, nos idos de 2008, 2009. Eu lembro que a tradição antropológica vinha de duas escolas distintas: a escola francesa, por vezes denominada Etnografia, e a escola anglo-saxã que popularizou o termo Antropologia. São duas escolas complementares: os nomes já indicam que a escola francesa prioriza a diferença (e por isso dá destaque ao caráter étnico), enquanto a escola anglo-saxã destaca que no fundo somos todos humanos (anthropos). Sempre vai ter diferenças e igualdades. E isso é legal.

Estudar ciências humanas é difícil pra caralho, pouco reconhecido, muito criticado, mas é muito legal. Inclusive recomendo.


NOTA DE ANDRÉ: Eu não podia deixar de colocar a imagem abaixo, que eu considero MUITO legal

23 comentários em “Em defesa das ciências humanas

  1. O que pode estar fomentando o preconceito contra as humanas são os seguintes fatos :

    Quando idéias factualmente incorretas são propostas por profissionais de ciencias exatas ou biológicas, é fácil desmenti-las por meio de análises ou repetição dos experimentos. Como exemplo, temos a fosfoetanolamina que, embora sancionada pelo governo, foi cientificamente comprovada que não funciona. Ou o cigarro que, contra todo o lobby da indústria, foi comprovado aumentar as chances de cancer

    Quando profissionais de ciencias humanas propoem idéias factualmente incorretas ou que entram em conflito com fatos cientificamente comprovados, parece não haver grande interesse na academia de “frear” tais idéias. Como exemplo, tem-se :

    – Joo Ho Kim, dizendo que proteses são “eugenia”, ganhou o premio CAPES.
    – Frederic “Sedução dos Inocentes” Wertham, afirmando que gibis eram perigosos para a juventude
    – Teoria de genero, contrariando todas as diferenças biologicamente comprovadas entre o cérebro masculino e o feminino
    – Diversos “filósofos” e “cientistas políticos” no Brasil e seu preconceito contra pessoas brancas e de classe média.
    – Cientistas políticos no mundo todo apoiando os atos de violência dos terroristas muçulmanos.
    – A idéia absurda de “apropriação cultural”
    -Etc.

    A aceitação das idéias propostas por tais profissionais parece mais ligada ao proponente em si, do que ao seu embasamento lógico ou científico, o que é uma atitude bastante anticientífica.

    Concluindo, embora não haja nada de errado com a finalidade das ciências humanas , a forma como vem sendo conduzidas na academia acaba por fomentar tais preconceitos.

    Desculpe pelo textão, ficou maior do que eu pensava.

      1. Então, a gente até segue sim… Só que tem algumas hipóteses muito difíceis de provar empiricamente, por vários motivos (eu mesma trabalho com algumas meio complicadas…). Muita gente confunde “Falseabilidade” com “replicabilidade” (que é o maior problema na área, acho).

        Mas no geral o problema é que as universidades no Brasil não têm disciplinas de metodologia científica, a galera entra lá não sabendo nem escrever o próprio nome direito, quanto mais escrever projeto, bolar hipótese, bolar metodologia, aí dá em pesquisas mal feitas, mal ajambradas.

  2. Tudo bem, mas discordo quando você diz que as pesquisas mal feitas , a picaretagem, e porque não dizer, a loucura nas ciências humanas são casos raros, no Brasil então…

    1. A resposta aqui é a mesma pro cara ali de cima ^
      Galera não sabe fazer pesquisa… Não tem metodologia científica nas universidades/faculdade. Aí passa um monte de bobagem.
      Mas isso no Brasil. Lá fora normalmente as pesquisas são bem boas, mais ou menos no mesmo nível do STEM. (de vez em quando dá alguma merda, como um cara da ciência política que foi pego inventando dados – mas mesmo assim outros pesquisadores comprovaram de certo modo a hipótese do cara.)

  3. Eu tive que passar por algumas disciplinas de Humanidades quando estava terminando a Engenharia Civil (em razão de ser repetente, e de haver choques de horário entre as disciplinas obrigatórias e as disciplinas optativas que eu queria ter feito – eu sinto falta de três lindas, Estruturas de Concreto Pré-Moldado, Alvenaria Estrutural e Obras de Contenção, especialmente), e concordo com um adágio de um amigo meu: Se você quiser saber se a Universidade X presta, visite o Centro de Humanidades dela: em geral, é o lugar mais derrubado que há numa Universidade.

    Português Instrumental foi tão derrubado que assim que eu percebi que não precisaria fazer por ter créditos complementares suficientes, eu tranquei. Não me entra na cabeça até hoje a diferença entre Eu-Comunicante e Eu-Receptor, sendo que aquela boa máxima “Sou responsável pelo que eu falo, e não pelo que você entende” nem mesmo vale na vida profissional de muitas pessoas, especialmente Engenheiros Civis.

    Leitura e Produção de Textos Acadêmicos ainda me ajudou com meu Projeto de Graduação, pois me deu subsídios para organizar à monografia. Nada supera, entretanto, a Aula de Word para Engenheiros, ministrada pela Professora Tereza Denyse na disciplina Projeto de Graduação I, que me ensinou mais sobre textos organizados por meios eletrônicos do que qualquer outra coisa. LPTA se tornou dispensável quando a mesma Professora Denyse finalizou PG I. Ao final das contas, foram duas disciplinas com o mesmo assunto.

    Introdução à Sociologia para a Engenharia, apesar de eu ter achado quase que totalmente inútil, conseguiu ser surpreendente: conhecer e compreender às maluquices do Marx, do Durkheim, do Weber e cia. e ver que há alguma serventia no estudo das Ciências Humanas de fato me surpreendeu. São postulados como os deles que, combinados com Inferência Estatística, um dia nos darão parte da Psico-História que o Asimov teorizou.

    Só que o trabalho do baiano lá não ajuda muito nisso, não… Assim como muitos outros trabalhos, que de fato são sanguessugas de verbas públicas. Há uma parcela considerável de projetos de graduação que dissecam à prostituição e à homossexualidade, em detalhes exaustivamente repetidos. Não é incomum (e isso até vale para as Exatas, também) ver o mesmo trabalho ser apresentado várias vezes em simpósios distintos, mudando apenas um detalhe na metodologia ou nas conclusões.

    Males da ciência mal feita?

    P.S.: Perdão pelo Textão, Dr. André. Assim que eu estiver empregado, faço uma doação para lhe ajudar com a sua Ferrari, para compensar.

    1. Então… Ciência “salame” tá virando mainstream tanto nas humanidades quanto no STEM e no mundo todo. Mas aí o problema não tá na ciência em si, mas nos métodos de medida da produção científica. Como a gente é avaliado por quantidade e não qualidade de produção (isto é, artigos publicados, apresentações em congressos, defesas de bancas, essas coisas) a galera faz de tudo pra gerar o maior número de produtos possível com a pouca verba disponível. O resultado é vc apresentar a mesma coisa de mil jeitos diferentes. É uma merda, mas enquanto a métrica não mudar vai ser assim nas humanidades e no STEM.

          1. Err… Esse não sou eu. Me parece ser um trabalho de pedagogia, mas, foi apresentado num simpósio sobre biologia (salvo engano, não lembro bem dos detalhes do caso…

            Julguei isso como desperdício de verba pública, na ocasião. Não que não tenha seu valor, claro, mas, não merecia ser financiado (Minha opinião. Pode considerá-la idiota a vontade.).

            É legal, mas, tá mais para curiosidade do que para trabalho científico.

  4. Embora eu tenha minhas reservas negativas em relação às ciências humanas, não pude ignorar sua importância ao longo desses anos.
    Recomendo o livro As Palavras e as Coisas de Michel Foucault.

  5. Querem entender a loucura das ciencias humanas? Leiam a teoria do direito puro de Kelsen…Nao entenderam? Sem problemas, leiam o livro “Como entender Kelsen”.

    1. Quer entender mecânica newtoniana? Leia o Principia. Não entendeu? Não tem problema. Leia “como entender Newton” (ou qualquer livro didático de física)

      Agora, sinceramente, não entendi seu ponto.

  6. O estudo de ambientes organizacionais é um bom exemplo de como as Humanidades podem contribuir com a evolução tecnológica. As empresas são responsáveis por transformar as descobertas científicas em tecnologia, e então disponibilizá-las às massas. Sem empresas, nada de tecnologia.

    Para uma empresa ser competitiva, ela investe os tubos em P&D, mas investe ainda mais em Marketing e Design. Uma TV, um smartphone, um automóvel, até um medicamento!! E quem acha que esses investimentos são baseados em chutômetro, acha errado. Empresas como Apple, Sansung, Toyota, LG, GM, etc… etc… gastam bilhões de dólares em ações baseadas em pesquisas sobre comportamento humano.

    1. E tudo fica bem melhor quando o conhecimento (e “os fontes”) é LIVREMENTE compartilhado. Sem as patentes, “direitos” autorais e outras baboseiras e argumentos ridículos para “justificarem” as restrições.

  7. meus pêsames. se vc não tem curiosidade nenhuma sobre o mundo em que você vive eu não posso fazer nada, só alertar que você provavelmente não vai estar no lugar certo em uma universidade ou centro de pesquisa.

    mas cada um cada um, né, quem sou eu pra julgar?

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