O complexo fenômeno linguístico

A Informática Maldita do Cardoso
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Eu já disse nos textos anteriores que a língua é um fenômeno supercomplexo. Já disse que há, pelo menos, dois jeitos diferentes de se expressar linguisticamente – pela fala e pela escrita. Também já disse que há níveis de formalidade na fala e na escrita, salientando a questão da adequação. Vou falar mais sobre isso agora.

Na linguística, costumamos falar que a língua é um diassistema: um sistema de sistemas. Como assim, tia Bárbara? Eu explico. Cada "nível" linguístico de variação é um sistema em si, e todos juntos formam o fenômeno da linguagem.

Os níveis, na ordem em que a gente os "adquire" ao aprender a falar, são:

  • Nível diatópico: está relacionado ao local onde aprendemos a falar, ou seja, o dialeto, a variante regional. Todo mundo aprende o dialeto da região geográfica onde aprende a falar.
  • Nível diastrático: está relacionado ao estrato social em que estamos inseridos, ou seja, o tipo de contato social que temos quando aprendemos a falar. Todo mundo aprende a variante falada por seu grupo social.
  • Nível diafásico: está relacionado à situação interacional, ou seja, qual a variante adequada àquela situação de fala. Você não fala do mesmo jeito em casa e numa entrevista de emprego…
  • Nível diamésico: está relacionado a meios de comunicação a que temos acesso. Nem todo mundo apresenta essa variação porque nem todo mundo aprende a escrever, ou tem acesso a computadores, celulares etc.
  • Nível diacrônico: imagine que todos os níveis anteriores estão sujeitos a variações no tempo, que é o nível diacrônico. As línguas sempre mudam através do tempo, e isso implica em mudanças em todos os níveis. Quando olhamos uma língua, analisando os níveis anteriores, estamos analisando um momento sincrônico, ou seja, uma espécie de "fotografia" do estado da língua naquele momento, sendo que a língua é um processo contínuo no tempo com vários estados sucessivos. Podemos também analisar estados anteriores e comparar os estados (respectivamente, linguística diacrônica e comparada).

A nossa fala, então, ocorre em graus, um continuum em um plano de três dimensões, alternando entre formalidade/informalidade, escrita/fala, estrato alto/baixo.

Como diz o André, clica em nóis!

Desse modo, temos uma variante superformal, escrita e de alto estrato social que teria como exemplo a linguagem utilizada em uma carta para a presidenta* da república, e temos uma variante superinformal, falada e de baixo estrato social que teria como exemplo alguém conversando com sua bisavó analfabeta no interior do estado.

Faz parte do nosso conhecimento linguístico, ou seja, nossa gramática internalizada, conhecer essas nuances de variação e saber empregá-las corretamente. Nós não precisamos de treinamento formal (ou seja, escola) para saber reconhecer e usar os diferentes pontos no continuum linguístico. Na nossa sociedade nós precisamos de treinamento formal para aprender a diamesia, ou seja, a dominar técnicas de escrita e gêneros escritos (carta, e-mail, bilhetinhos, sms, wpp etc). Mas o resto a gente aprende na interação mesmo.


* "Presidenta" é uma palavra do português brasileiro, pelo menos desde Machado de Assis (leiam Memórias Póstumas de Brás Cubas, é um dos melhores livros já escritos ever!), reconhecida pelo VOLP (vocabulário ortográfico da língua portuguesa, da ABL), e empregada oficialmente pelo governo nos documentos e no programa de rádio Café com a Presidenta. Não me venha encher o saco e aceite, cabra!

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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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