Usando o Twitter para entender as pessoas. Ou tentar, ao menos

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O Twitter é algo interessante. Criado para ser um microblog em que você postaria coisas da sua vida em, no máximo, 140 caracteres, virou um sistema de compartilhamento de notícias e bate-papo. Mais o segundo do que o primeiro. De acordo com a empresa do passarinho, são 316 milhões de usuários ativos, porque, como sabemos, só em informática e tráfico de drogas que se tem usuários. São 500 milhões de tweets diários, isso desde anúncios da Presidência da República até gente fazendo o favor de informar o que acontece quando peida.

É um fluxo de informação (e desinformação) imenso. Será que daria para fazer algo legal com isso? Bem, pesquisadores analisaram cerca de 20 milhões de tweets, de forma que possam (tentar) entender um pouco mais sobre as pessoas em situações daquilo que chamam de “mundo real”.

David Serfass tem uma sorte danada. Não por ser doutorando em Psicologia da Universidade Florida Atlantic. A sorte dele é não estar se doutorando no Brasil, ou ele teria que parar sua pesquisa para ir dar aula em coleginho de subúrbio, com alunos tão preocupados com o que ele está falando quanto o que tem no interior de suas cavidades corporais.

Como David não mora no Brasil, ele pode fazer pesquisa séria… ou quase… ou sei lá… bem, pelo sim, pelo não, Serfass resolveu estudar as pessoas na imensa caixa de Skinner chamada “redes sociais”, assim, ele efetuou o primeiro estudo analisando grandes quantidades de dados de redes sociais, como o Twitter, por exemplo. Ao que se sabe, nenhuma pesquisa trabalhou com essa quantidade absurda de dados para estudar situações. E se ele estudou tweets do Twitter-BR, deve estar traumatizado até agora. Mas não parece ter sido o caso, já que Serfass e colaboradores analisaram mais de 20 milhões de tweets, para entender características psicológicas de situações do mundo real.

VINTE… MILHÕES… DE TWEETS.

Mas vagabundo não consegue nem entender o que o outro diz com apenas 140 caracteres, imaginem analisar 20 megatweets! E sim, lá fora também tem gente sem noção. E deve ter sido isso que fez David babar pelo canto da boca de satisfação, como um tubarão.

Serfass recebeu a colaboração do dr. Ryne Sherman, professor assistente da Universidade da Califórnia, o que é bem interessante, já que o bom doutor não exigiu ser o autor principal do trabalho publicado. Aliás, o trabalho foi publicado na PLoS ONE; mas o que diz esse trabalho?

Os pesquisadores estavam interessados em aprender sobre os tipos de situações e experiências pessoais ao longo de determinado tempo, bem como saber como gênero e densidade populacional podem afetar essas experiências pessoais. Isto é, como um belo grupo de pessoas pode afetar uma única pessoa em suas experiências particulares.

Mas, mais que isso, eles queriam saber se seria possível extrair automaticamente, e com precisão, dados relevantes registrados em cada  tweets. Não só isso, mas também saber se podemos aprender sobre a experiência de situações de outras pessoas de seus tweets. Com isso, Serfass e Sherman desenvolveram um método para extrair automaticamente informações significativas sobre a experiência de situações. Para tanto, reuniram 5.000 tweets e os ordenaram em oito dimensões fundamentais de situações, dimensões que eles ajudaram a descobrir na pesquisa anterior. Em seguida, eles usaram modelos computacionais para quantificar as palavras usadas nos tweets e montar agrupamentos psicológicos e lexicais distintos, tais como auto-referências, palavras positivas, palavras negativas, pronomes pessoais etc, para depois determinar quais as categorias de palavras tendiam a co-ocorrer com quais características psicológicas. Por exemplo, eles descobriram que as pessoas que estavam em situações caracterizadas por “dever” eram mais propensos a usar palavras como “trabalho”. Pessoas que estavam em situações caracterizadas pela adversidade eram mais propensos a usar palavrões.

O que essa pesquisa apresentou de concreto? Bem, pode-se considerar como sendo muito, ou podemos considerar como nada. A bem da verdade, a pesquisa foi um modo de mostrar que podemos usar uma nova abordagem para entender nossas próprias manias, idiossincrasias e, em última análise, a nós mesmos.

No final, somos aquilo que interage com as pessoas, e aquilo que dizemos é parte de nós mesmos. Entender como nos comunicamos é entender como somos, mesmo que seja em grandes grupos.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Realmente, sorte dele não estar no Brasil ou pesquisar sobre o que falamos por aqui. Achei o artigo interessante.

  • Colecistite

    O SUS também tem “usuários”. É quase um crime, hoje, se referir a “pacientes”

    Lia Souza respondeu:

    No transporte coletivo também são usuários…ao menos aqui no ‘suli’.

    Dih Borba respondeu:

    Aqui em Brasília, a palavra que mais corresponde à realidade do transporte coletivo é “sobreviventes”.