Bandidos, policiais e a insegurança que nos segura

O caos abraçou a frente da Catedral. O homem armado com um revólver mantinha uma mulher como refém nas escadarias. Outro homem chegou, um morador de rua. Ele queria salvá-la. O samaritano empurrou o meliante, este caiu, mas conseguiu usar a arma para acertar o samaritano, que caiu, tombou. 2 tiros tiraram-lhe a vida. A mulher escapou, mas a policia chegou, ciosa dos seus compromissos em proteger a população, e encheu o sequestrador de tiros.

Isso não é roteiro de um filme. Não é uma novela. É a vida real, e aconteceu hoje, em frente à Catedral da Sé, em São Paulo. Duas pessoas morreram. Um criminoso e um cidadão comum. Mais um dia violento, mais um início de final de semana problemático. Mais uma SEXTA INSANA!

Eu não vou tratar diretamente da notícia em si. Vocês poderão ler no G1 e na Folha. Só fico pensando se a ação da polícia tinha que ser mesmo com essa forma abrupta e agressiva. Alguns disseram que foram 18 tiros. O bandido também deu alguns, um camelô foi atingido e ninguém sabe por quem ainda. Só eu que vejo algo muito errado nisso?

Já não é de hoje que criticam as ações da polícia, como foi o caso daquele meganha zé ruela que invadiu a sala de aula para dar decisão em alunos. Será que não tinha ninguém na polícia com capacidade de segurar o cara, partir pra negociação ou qualquer atitude que visasse não gastar uma quantidade de balas absurdas dessa?

Muitos sugeriram o fim da Polícia Militar, deixando a Polícia Civil no lugar. Sabem quando isso vai acontecer? Nunca! Primeiro, vamos explicar o que é a Polícia Militar.

O conceito de estratégia, do grego strateegia, vem de algo que não tem nada a ver com o tema, e só escrevi isso para dar uma amenizada no texto. O conceito de Polícia Militar surgiu com a gendarmerie francesa, criada pelos franceses durante a Revolução Francesa. Portugal copiou isso na cara-de-pau. D. João criou então a Guarda Real de Polícia de Lisboa, 1801. O problema que alguns anos depois ele achou que Napoleão estava de frescura e furou o bloqueio intercontinental. O tampinha italiano (pois é, Napoleão não era francês, assim como Hitler não era alemão e Carmem Miranda não era brasileira). Napoleão correu com seu pessoal para Portugal e de de cara com uma placa "Portugal não correu, nem acovardou-se. Portugal mudou-se".

Dá pra parar com as gracinhas? Obrigado!

Bem, Dom João VI chegou aqui de malas e cuias. Tomou várias residências na mão grande e mandava afixar P.R. – iniciais de Príncipe Regente – nas portas das casas que ele queria para si e sua comitiva (claro, as melhores da cidade). Brasileiro já era HU3HU3BR e apelidou aquilo de Prédio Roubado (não, não é brincadeira!).

Como as pessoas não ficaram muito satisfeitas, era preciso botar ordem. Antes, a segurança era feita pelos dragões, os membros do exército. Assim, Dom João VI instituiu a versão brasileira da  Guarda portuguesa. Chamou-a de Divisão Militar da Guarda Real de Polícia do Rio de Janeiro, fundada em 13 de maio de 1809. Dessa Divisão veio o que hoje conhecemos a PMERJ – Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, a mais antiga força policial do Brasil ainda em atividade. É militar desde criancinha, já que foi montada com integrantes do exército e ainda mantém comportamento militar numa cidade em que até o Corpo de Bombeiros é Militar.

Veio D. Pedro I e II, a Missão. A Polícia Militar ainda estava lá e perdurou. Veio um golpe de Estado e começou uma Ditadura Militar (você pensou que aquela coisa linda do Marechal Deodoro era o quê, se não um golpe militar?). Veio outros presidentes, Ditadura Vargas, democracia, Ditadura, Sarney, Collor e chegamos na Dilma. A Polícia Militar ainda segue os mesmos padrões d’Antanho.

No Título V, Capítulo III, Art. 144 da Constituição federal vem:

A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos

I – polícia federal;
II – polícia rodoviária federal;
III – polícia ferroviária federal;
IV – polícias civis;
V – polícias militares e corpos de bombeiros militares.

Me interessam as polícias civil e militar.

§ 4º – Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares.

§ 5º – Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil.

§ 6º – As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as polícias civis, aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios.

Quando se fala em acabar com as Polícias Militares acaba-se esquecendo uma coisa: só por emenda constitucional, o que está sendo estudado. O problema é o caos que isso geraria. Para entender isso, é preciso entender qual o problema da polícia hoje, e é bem simples de entender e bem complicado de resolver: péssimo treinamento (eu ia dizer "inexistente", mas darei uma chance).

Os policiais vão para as ruas sem o menor treinamento que se possa julgar como aceitável. Dão uma arma, uniforme, munição e te vira aí, meu nêgo! Com um treinamento que prestasse, não era preciso fuzilar o bandido acima citado.

NOTA: eu não estou defendendo bandido. Eu não gosto de bandido. Pra mim, bandido tem mais. Entretanto, temos que convir que mundo real não é Battlefield, você não tem respawn, apesar de ter sempre um prestes a dizer que vai transar com a senhora sua mãe. Quando uma bala sai pelo cano, ela não vai pra além do horizonte. Não existe bala perdida, ela sempre encontra um lugarzinho pra se enfiar.

BREAK

Vamos analisar a cidade de Nova York. Estados Unidos. Mas antes, temos que entender como eles funcionam. Nos EUA o sistema de policiamento é gerido pelos condados, que envolvem uma mais cidades. Cada condado tem um Departamento de Polícia. Miami fica sob a proteção do Departamento de Polícia de Miami-Dade, mas como Nova York é uma cidade muito grande, ela tem seu próprio departamento de polícia, sem dividir com cidades próximas. Até aí tudo bem? Ótimo!

New York Police Department, NYPD, tem 34.500 policiais. Como eu sei? Bem, eles mesmos disseram. Posso confiar nos dados oficiais do site da NYPD, né? Big Apple é uma cidade muito populosa. O censo de 2013 aponta 8.405.837 habitantes.

Repetindo:

Nova York

  • 34.500 policiais
  • 8,4 milhões de habitantes

A população da cidade do Rio de Janeiro tem 6.320.446 habitantes. Dados oficieis do IBGE. Sobre o efetivo policial, bem… no site da PMERJ eu não encontrei essa informação, mas tem link logo de cara pro contra-cheque deles. Ah, mas eu sei que prenderam um suspeito de assalto a ônibus em Magé. De acordo com a Wikipédia, são 52.000 Policiais Militares (para o estado todo, já que a polícia é de controle do governo estadual). Já no G1, é dito que são cerca de 47.678 policiais para o estado todo. Há notícias (um tanto quanto exageradas na manchete) dizendo que diminuirá o efetivo policial no Rio de Janeiro (estado).

Mesmo que eu considere 50 mil policiais para todo o estado (não achei o efetivo para a cidade do Rio, mas não importa muito agora), só a CIDADE de Nova York, com 1/3 de habitantes que a CIDADE do Rio de Janeiro a mais, tem a metade de policiais do ESTADO do Rio de Janeiro todo. Conseguem divisar o problema? E isso não acontece só aqui, mas vamos deixar os outros estados de lado.

O mu treinamento já é errado, mas já temos problemas na seleção de pessoal, em que há fraudes no concurso. Sim, fraudes!. Fora os que chegam atrasados e pulam o muro para entrar no local do concurso. Se esses caras já fazem besteira ANTES de serem policiais efetivamente, alguma magia da Sininho os fará serem éticos?

Podem mesclar as duas polícias, podem mudar de nome, podem fazer o que quiserem. Para reestruturar essa tristeza toda demorará muito tempo, e isso não resultará em muito resultado. Muitos fazem o concurso pretendendo apenas uma coisa. Não o proteger e servir, mas ter uma arma e um distintivo, para poder fazer o que quiser. As corregedorias não tem como agir, pois o volume de investigação é excessivo, as maçãs podres infestam, a incompetência já começa com os secretários de segurança e a população à mercê de todos.

Não, eu não amo bandido, mas o camelô que foi atingido e morreu não era um bandido. Azarado, mas não bandido. E isso por que não temos estratégia, do grego… ah, você sabe! Certa vez, um ladrão furreca invadiu a casa de um dos vizinhos da minha rua. Chamaram a polícia. Veio uma viatura cm dois PM. Eles entraram na casa, deram a volta pelo quintal e cataram o sujeito (sim, porrada incluída). Enquanto eles estavam saindo, parou 3 viaturas da polícia. Saltaram 5 policiais de cada viatura, armados até os dentes, em que até os dois meganhas que chegaram primeiro se assustaram

"Ah, nós ouvimos no rádio e viemos dar uma mãozinha".

Enquanto isso, bandidos perigosos estavam em outro lugar, fazendo oque queriam, pois nenhum policial estava por perto, pois aqueles 15 resolveram ir atender chamado de invasor de domicílio, ficando longe de conflitos. Modifiquem o nome, funde-se uma nova polícia, e aqueles 15 ainda estarão lá. Não vejo jeito de isso melhorar, não.

5 comentários em “Bandidos, policiais e a insegurança que nos segura

  1. Um dado interessante sobre a corregedoria daqui do Rio de Janeiro: policias militares não podem investigar colegas de patente igual ou superior, é terminantemente proibido.

    Já fizeram matéria a esse respeito anos atrás, na época dos Tropa de Elite, e isso explica porque as investigações não terminam: não há independência, pois ou um amigo te investiga (que vai morrer na primeira operação policial) ou ele pratica a boa e velha procrastinação processual.

    Como os tribunais também são militares, fica tudo por isso mesmo. E como não tem julgamento eventuais exonerados retornam anos depois (com direito a todos os atrasados).

    Essa Pátria faz jus aos filhos da puta que possui.

  2. Esqueceu de falar que Napoleão chegou em Portugal com o exercito morrendo da fome, esfarrapados e moribundos. Tanto que os povão tiveram de ajuda-los, pois se não, iriam morrer. E D. João enfiou a cara igual esse cara aqui:

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