Mostrar o menino afogado era mesmo necessário?

A Síria já anda em clima de terror que nem Stephen King seria capaz de descrever. Isso não começou agora, mas está tomando dimensões cada vez piores, embora não tão alarmantes para alguém tomar uma atitude. A não ser que as ações da ONU e suas cartas bem sérias seja fazer algo. Na quarta-feira, as Interwebs ficou em polvorosa por causa da foto de um menino morto, junto com tantos outros refugiados que tentavam sair daquele Inferno na Terra chamado Síria. Uma imagem chocante, horrível, triste, desesperançada e impactante. Todos rangendo em lágrimas, rasgando a roupa e criticando a imprensa ou dando parabéns pela coragem.

Mas essa foto era mesmo necessária?

26 de janeiro de 2011 foi o dia que o bicho começou a pegar na Síria, aquele lugar em que 90% das pessoas que dizem se importar são incapazes de identificar num mapa mudo (MU-DO! Se você não sabe o que é isso, procura no Google). Tudo por causa de uma onda de protestos, que acarretou numa guerra civil. Esse tipo de guerra civil não é como o da Marvel que você vira a página e tudo está bem, você e seus amiguinhos vão comer um hambúrguer. Desde 1962 o país vive em Estado de Emergência e quando ruiu a URSS, muita coisa foi pro ralo. Paisecos como a Síria foram assoladas por ditadores mais sádicos e repressores. Isso foi indo… indo… até que a população, como César, disse “NÃO!”.

Aí começou a porradaria! Lá não tem esse negócio de boneco inflável ou de contratar perfis no Twitter para defender cada um dos lados. Metem logo as mãos nas armas e quem estiver no caminho se ferra lindamente. A população que não tem como se defender.

Em todo o mundo, houve uma mobilização social por meio de protestos e da mídia, exigindo liberdade de imprensa e garantia dos direitos humanos por meio de uma nova legislação. Não adiantou nada, como sempre acontece com mobilizações desse tipo. Com os protestos nas ruas, o governo Sírio enviou tropas do exército para as cidades “problemáticas” para sufocar a rebelião. Asrail, o Anjo da Morte teve trabalho triplicado.

Alguns soldados, num lampejo de sanidade, se recusaram a atirar contra a população revoltosa. Bashar al-Assad, o presidente daquele lugar esquecido, ordenou punição exemplar, e intensificou a ação do exército. Começou a fuga daquele lugar, pois há um tênue limite entre patriotismo e suicídio; mas existe. Começou a onda de refugiados. No dia 1º de junho de 2012, o ditador al-Assad declarou Estado de Guerra. A ONU mandou tropas para lá. Muito legal, mas tanto os rebeldes quanto o exército sírio os atacaram. Ninguém os quer por lá. Papa Chicão solicitou que as pessoas tomassem uma atitude e rezassem para um indiferente deus que aquilo encontre um fim, mesmo chefiando um exército, ainda que emprestado.

“Quantas divisões tem o Papa?”, uma frase ouvida desde os tempos de Stalin.

O Estado Islâmico, o equivalente muçulmano da Igreja de Westboro, não quer saber de ninguém e não poupa mulheres, crianças ou que diabo for. Fazendo divisa com Jordânia, Iraque, Turquia, Líbano e Israel, a Síria se situa no Oriente Médio (que nunca foi um dos lugares mais tranquilos) e mais parece um parece um barril de pólvora, sendo que os filhos de Davi estão bem de olho, já tendo mandado um avião militar sírio bater um papinho com Mohammed em pessoa em 2014 por invasão de espaço aéreo. Os sabras não brincam em serviço! Israel se lembra muito bem quando peitou Egito, Jordânia e Síria, mandando um ataque aéreo de presente para as tropas egípcias no Sinai, alegando que os 3 supra-citados iam começar uma guerra com eles. A URSS bem que viu uma oportunidade de estender seus tentáculos para o Oriente Médio e financiou as operações dos países árabes, fornecendo munição e equipamento. O problema é que o pessoal era tosco demais em termos de planejamento e tomaram uma coça nas colinas de Golan. O estoque de Apsaras nos céus de Allah esgotou rapidinho. Era a Guerra dos Seis Dias.

Não, Israel não tem a Síria em boa conta desde 1967. Aliás, desde antes, mas 1967 deixou os filhos de Abraão de pé atrás com os filhos de Ibrahim (apesar de Abraão e Ibrahim serem a mesma pessoa, mas disperso-me).

As pessoas vêm fugindo da Síria não é de hoje, mas agora o clima é cataclísmico. Mais de 350 mil refugiados atravessaram o Mar Mediterrâneo desde janeiro de 2015 em embarcações improvisadas e/ou impróprias para viajar. O medo é maior e a dúvida se vai morrer no mar vale mais que a certeza de ser atacado por qualquer uma das frentes que brigam pelo poder. Mais de 2700 pessoas já perderam suas vidas no Mediterrâneo ao tentar chegar na Europa, apesar dos elfos venerarem Ulmo, nele não confiam. O mar sempre cobra um preço alto.

Ao fugir da cidade de Kobani para a Grécia, Aylan não veria o raiar do dia. Assim como sua mãe, seu irmão e tantos outros, morreu afogado quando a embarcação naufragou.

Houve comoção. De um lado, pessoas chocadas achando que as fotos são fortes demais para serem publicadas. Do outro, gente dizendo que tem mais que publicar mesmo. Tenho algo a contar a vocês, mas é sobre um tempo muito antes. Década de 1940.

Quando as tropas aliadas e do Exército Vermelho passavam pelas cidades, as pessoas contavam os horrores que os alemães faziam com os prisioneiros. Ninguém acreditou. Quando chegaram num campo de concentração, daqueles bem barra pesada, os soldados ficaram tão chocados com o que viram que pegaram todos os oficiais alemães e os executaram. E olhem que a URSS nunca teve melindres no tratamento com prisioneiros, sendo que Gulags nunca foram diferentes de campos de concentração, pois é exatamente isso o que eram. E ninguém nos Gulags era tratado com carinho.


Campo Langenstein-Zwieberge. Porque não existiu apenas Auschwitz.

Na década de 1970, o sudeste asiático estava fervendo com uma guerra. Era a Guerra do Vietnã, que começou bem antes, mas vou me limitar a contar uma outra história, ou isso aqui vira um compêndio de guerras. Os EUA atacavam o Vietnã com napalm, que nada mais é que uma bomba incendiária. Trang Bang, além de ter um nome que mais parece estripulias sexuais, era um vilarejo como vários outros naquele lugarzinho que parece só ter arroz e mais nada.

No dia 8 de junho de 1972, o Inferno foi despejado por bombardeiros e tudo em volta começou a arder em chamas gigantescas. Napalm não é brincadeira de fósforos. Todos começaram a fugir, inclusive uma menina chamada Phan Thi Kim Phúc.


Eu amo o cheiro de napalm é o cacete!

Esta foto foi tirada pelo fotógrafo da Associated Press Huynh Cong Ut (mais conhecido como Nick Ut), tendo ganho o Prêmio Pulitzer de 1973. Ele disse que ficou chocado ao perceber que a menina estava banhada em napalm, mas não tinha pego fogo por pouco. Um foguinho por perto e já era. Ele foi até ela e a limpou. Muitos o condenaram por ele ter interferido, já que a função do jornalista é apenas documentar e não participar do que está ocorrendo.

Um que não teve um final feliz foi o fotógrafo Kevin Carter. Em março de 1993, ele foi pro Sudão registrar o que estava acontecendo naquele rincão em que tribos saem na porrada há séculos e hoje vive numa guerra civil (lembrou-se de algo?). Ele ralou peito pra lá num avião de suprimentos da ONU, uma entidade ingênua que acha que só dar comida resolve o problema. Enquanto os adultos estavam descarregando a comida, as crianças ficavam largadas. Daí ele viu esta cena e registrou-a para a posteridade:


E você aí reclamando às 10h30 que está com fome e quer almoçar.

Carter teve que chegar bem perto para tirar a foto e teve um dilema: interferir ou não interferir? Ele foi lá e deu um bicão no Zeca Urubu. Por essa foto, ele ganhou o Pulitzer de 1994, mas Carter não foi um herói. Foi criticado por uns por ter interferido no que estava acontecendo, e por outros porque demorou demais para chutar a ave. Ele entrou em franca depressão, alcoolismo, uso de drogas e acabou se matando em 27 de julho 1994.

Afinal, como no caso das fotos acima, o registro do menino afogado era realmente necessário? Deixem eu contar uma coisa para vocês. Sabem como todos esses veículos de informação se enxergam?

Tudo bem, é necessário que as pessoas vejam o que está acontecendo. O que REALMENTE está acontecendo. Mas não sejamos hipócritas. Jornais vivem de vender notícia para ter grande circulação e atrair anunciantes. Sites, blogs etc fazem a mesma coisa para gerar visitação e conseguirem patrocinadores. Só isso, nada mais. Quando a reportagem não é sua e você apenas retransmite, você está tão preocupado em informar as pessoas como a dona do boteco perto da sua casa está interessada em acabar com a fome no mundo, sendo ela a única fornecedora.

A verdade é que as pessoas não se importam. As redes sociais fervilham, mas isso aconteceu antes, vai acontecer de novo e os indignados são apenas para se mostrar melhores que os outros. Os mesmos que se mostraram chocados com a foto da criança afogada ontem é o mesmo que virarão a cara para uma criança de rua amanhã.

Então, continuem se indignando. Sabemos muito bem que isso não dura mais que uma semana.


Fontes:

 

5 comentários em “Mostrar o menino afogado era mesmo necessário?

  1. O mais engraçado sobre a teoria com tanta criança passando fome e tanto dinheiro gasto com sonda e etc., é que de mesmo forma a um gasto gigantesco para montar a estrutura, sem falar do “desperdício” de terreno nesses parques temáticos como, Disney e Beto Carreiro por exemplo. Todos esses de mimimi, que ainda não conheceram, morrem de vontade por ir sem se questionar o quanto seria interessante colocar essas mesmas crianças nesse espaço e alimentá-las.
    Quanto a foto do menino, acredito ser necessário documentar, mas o uso comercial sensacionalista é terrível, invasivo e cruel.

  2. O uso da imagem é ruim, gera comoção efêmera da massa, mas é melhor que comoção nenhuma, propaganda tem poder para mexer os pauzinhos a favor dos refugiados, vários canalhas em escritórios vão ver alguns cobres cair no bolso com isso, outras boas causas vão ficar ocultadas, mas ainda sim a causa dos refugiados barrados é imediata se ”chocar a opinião publica” e mover uma palha que seja pelos refugiados acho que vale.

  3. Por isto que gosto de ler tanto o The Independent… aquilo que é mídia.

    O resto é praticamente só “copiar-e-colar”.

    E esta briga dos sunitas x xiitas não vai acabar nunca.
    Ambos os lados estão sendo devidamente financiados: quando a balança pende para um lado, o outro é apoiado por estrangeiros e a balança volta ao equilíbrio de poder e morte.

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