Animais podem ser enganados com ilusão de óptica?

Assim como a maioria das pessoas pela Internet afora, eu adoro vídeo de gatinhos. Tudo bem que na maioria das vezes eu penso "que delicia deve ser assadinho, com molho e arroz branco…". Ainda assim, são divertidos, legais e podemos aprender muito com eles em termos de Ciência (sim, eu sei que você só compartilha o vídeo por ser fofuxo, pouco se lixando pra Ciência).

Assim, quando eu vejo um vídeo, eu olho muito mais que "Puxa que maneiro" e já mudo pra próxima postagem (no mais das vezes, idiota). Aqui é Ciência, e é Ciência que vocês terão. E lugar de conhecimento é no LIVRO DOS PORQUÊS.

O vídeo que vi foi esse aqui:

Por que este gato idiota está agindo assim? Por causa do processo evolutivo que gerou nosso próprio cérebro. Mas, de princípio, o que o bichano estava vendo? Pelo vídeo, era um monte de círculos impressos numa folha de papel. Vamos dar uma olhadinha?


Não é uma GIF animada!

Sendo um *.jpg, essa bagaça aí está imóvel. Seu cérebro zuado é que está criando o "movimento". Isso já começa pelo fato que como seus olhos estarem sempre "varrendo o local", pois só enxergamos bem num único ponto, mesmo. Aliás, eu já falei várias vezes sobre isso, mas reconheço que com tantos artigos fica difícil acompanhar todos eles.

Bem, os olhos são formados por células cones e bastonetes. Células cone agem como fotorreceptores, isto é, elas reconhecem a luz que chega na retina e transformam em informações para o cérebro. Seu melhor funcionamento se dá em ambientes bem iluminados. Tais células se tornam mais esparsas do centro da retina para a sua borda, ou seja, quanto mais na borda da retina, menos células capazes de processar informação luminosa. Já as células bastonetes são células que apenas determinam o nível de luminosidade, mas não são tão especializadas quanto as células-cone. Assim, as bastonetes são, majoritariamente, encontradas mais para as bordas da retina, e são responsáveis pela visão periférica. Como vocês devem ter notado algum dia, a visão periférica é capaz de detectar intensidades de luz e movimento, mas não possuem a nitidez da sua visão central.

Como fora da posição central não conseguimos ver detalhes, os olhos ficam se movendo para captar o máximo de detalhes possível, com diversos fragmentos da imagem total, e tudo isso é montado no seu cérebro como uma imagem única.

E é aí que acontecem as ilusões e truques de mágica!

Como o cérebro fica muito tempo (vários milésimos de segundos) sem receber informação completa, ele preenche as lacunas do jeito mais vagabundo possível. Como ao mudar a posição dos olhos, muda-se o ponto de referência, a figura parece se mover e o cérebro burrão pensa que o treco está realmente se mexendo. Quer um exemplo?

Coloque o seu dedo, um lápis ou qualquer objeto cilíndrico e comprido apontado para cima, a um palmo de seu nariz. Feche um dos olhos e observe. Ok? Agora, rapidamente, feche este olho e abra o outro (não se faça de engraçadinho!). Repita o procedimento e você terá a impressão que seu dedo se mexe, por causa do referencial.

O caso acima é o que acontece. Os foco central dos olhos se mexe, o que muda o ponto de referência e, assim, os círculos parecem se mover, e esta porcaria gelatinosa que você tem dentro da cabeça acha que estão realmente se mexendo e você fica "Uéééé?".

A pesquisa em ilusões de óptica em animais não começou agora. Abbott Handerson Thayer nasceu em Boston, em 12 de agosto de 1849. Era artista, naturalista e professor. Adorava pintar retratos, animais e paisagens, mas o bom mesmo dele era sua pesquisa científica. Thayer estudou sobre camuflagem em animais, cocluindo um trabalho que acabou se tornando um livro: Concealing Coloration in the Animal Kingdom: An Exposition of the Laws of Disguise Through Color and Pattern; Being a Summary of Abbott H. Thayer’s Disclosures, um título que toma quase que o livro todo, e você poderá dar uma olhadinha AQUI.

O trabalho de Thayer já seria o máximo se levássemos em conta todas as suas observações, mas ele não ficou só nisso. Thayer apresentou uma proposta para o Departamento de Guerra. Nessa época, os soldados usavam um uniforme cáqui, que é muito legal para você que está lutando em meio à savana africana, mas chama um pouquinho de atenção em outros lugares. Entenderam o motivo do leão ser da cor que é? Sua coloração o faz mesclar-se com o ambiente e dá para chegar atrás de alguma zebra listradinha e feliz, que chama mais a atenção do que se estivesse com uma placa de neon escrito ALMOCE NO JOE. JOE SOU EU.

Thayer e seu trabalho analisando as camuflagens dos animais influenciou até mesmo a pintura de navios de guerra dos Estados Unidos! Mas o que isso tem a ver com o vídeo do gatinho? A rigor, não muita coisa, mas de uma forma tem a ver sim, já que ele fala sobre como os animais enxergam. Mas podemos abordar o caso específico do vídeo? Claro que sim!

As pessoas repassaram este vídeo, mas não sabem do que se trata. É uma pesquisa que estabelece a primeira evidência de que os gatos experimentam ilusões de ópticas tais quais os humanos.

Rasmus Baath, Takeharu Seno e Akiyoshi Kitaoka, famoso por suas ilusões de óptica, estudam se animais poderiam ter essa maluquice cognitiva. Até agora, ninguém sabia se tinham ou não, e eu até acho que demoraram para fazer testes assim. De qualquer forma, os gatos podem, sim, ver movimentos ilusórios como os da imagem acima, e isso é evidenciado como o gatinho contente tenta perseguir o movimento das "cobrinhas". Fazendo outros testes com gatos de outras pessoas, as respostas foram que 29% dos entrevistados responderam que o seus gatos reagiram à ilusão. Os outros 71% deviam ter olhado praquilo e perguntado: "Cadê meu almoço, escravo?".

Você pode ler o artigo dos cientistas AQUI, e nos dão um vislumbre para entender como o nosso tão zuado cérebro foi angariando mais e mais funções, sem perder os bugs de milênios, já que esses bugs não nos impediram de sobreviver. Pelo contrário. Detectar o mínimo de movimento perto de você é a diferença de ficar igual a um mané, pronto para virar almoço de alguém, e ralar peito dali o mais rápido possível e sobreviver mais um dia.

Um comentário em “Animais podem ser enganados com ilusão de óptica?

  1. Legendas do vídeo:
    Dono: “The zoeira has been planted!”
    Gato: “What kind of sorcery is this?”
    Dono: “The zoeira has exploded! Terrorists win!”

    Imagino que o gato que não se iludiu deve ter pensado:
    ” This only can be zoeira!”

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