A Itália nos tempos do Cólera*

Por muitos séculos eles estão ali, em repouso. Anos e mais anos se passando. E eles ali, inertes, com seus segredos guardados. O mundo sempre foi um lugar difícil de viver, ainda mais quando recuamos no tempo. O tempo das pestes, das pragas e em que um simples corte no dedo podia ser fatal. Épocas em que o cólera era algo mortal (ok, ainda é) e levou várias pessoas à sepultura.

No cemitério da igreja Badia Pozzeveri, arqueólogos estudam os esqueletos que guardam uma história bizarra: como o cólera ceifou várias vidas no século XIX.

Essa igreja pertence à Arquidiocese de Lucca. Lucca é uma província da Toscana. A Toscana não é onde nasce gente tosca; gente tosca aparece em todos os lugares. A Toscana é a região da Itália Central, com menos de 4 milhões de habitantes, pouco maior que a metade da população da cidade do Rio de Janeiro, cuja capital é Florença, onde as artes floresciam.

Em Badia Pozzeveri, como toda igreja antiga que se preze, tem um cemitério só pra ela, e lá vários esqueletos foram encontrados, com alguns que remetem ao século 11! Entretanto, o que os pesquisadores estão interessados é nas ossadas do pessoal que viveu nos idos de 1850, quando houve um imenso surto de cólera.

A vida na Itália e no resto da Europa não é aquela coisinha linda de filmes de época, com gente de roupinha bufante. Era difícil, a maioria das pessoas morriam cedo, a taxa de mortalidade infantil era absurdamente elevada e o tratamento médico se baseava em paninho molhado e seja o que Deus quiser. Um dos grandes problemas era que, devido a um saneamento básico inexistente, as pessoas eram expostas ao cólera, uma doença causada pelo Vibrio cholerae, uma bactéria motherfucker que tem a grande distinção de ter forma de vírgula, multiplicar-se bem rapidamente no intestino, produz uma potente toxina e termina lhe dando de presente uma diarreia daquelas. Esta tristeza (não que qualquer morte seja bonita, mas morrer com diarreia não é nada agradável, perdendo rapidamente líquidos) é transmitida diretamente devido a dejetos fecais contaminando a água e se espalhando de maneira absurda.

Os primeiros países a serem atingidos pela cólera foram a Rússia e Polônia, então se espalhou ao longo do Danúbio. Os principais agentes de disseminação da doença foram os soldados dos exércitos russos e austríacos envolvidos nos motins de 1848, que estavam amontoados em condições precárias de habitação e condições sanitárias praticamente nulas. No início de 1848, a infecção bateu na porta do Império Austríaco incluindo Viena. No outono do mesmo ano, um navio zarpou de Hamburgo para chegar feliz, contente e infectado na Inglaterra. O dr. John Snow (que ao contrário da piadinha que você vai fazer, sabia muito sim) chegou a construir mapas de disseminação da doença em Londres.

O contágio se espalhou para grande parte da Bretanha. Em março de 1849, o contágio chegou a Paris e depois no resto da França. No verão daquele ano, ele chegou na Itália. Todos os países afetados foram capazes de contornar a epidemia dentro de alguns meses, basicamente queimando os corpos.

E isso por causa de falta de banheiros. Hoje nós temos e ainda preferem urinar e defecar na rua. Vocês sabem o adágio sobre aqueles que não estudam História, né?

Na Itália, as primeiras regiões a serem afetadas foi a Lombardia austríaca, Veneto,ao norte, e daí foi descendo. Se onde a vaca vai o boi vai atrás, onde os soldados iam, a cólera acompanhava.

O dr. Clark Spencer Larsen é professor da Faculdade de Antropologia da Universidade de Ó, Raios! Ohio, e estuda o que diabos aconteceu com aquela gente. Os restos mortais em Badia Pozzeveri estão entre os mais bem conservados, prontos para serem estudados. Isso foi graças ao medo do pessoal com relação à doença. Os corpos foram apressadamente enterrados e cobertos com cal, que endureceu, formando uma argamassa protetora ao redor dos corpos. Foi uma medida desesperada para conter a propagação da doença, que será útil para entendermos essa epidemia tão devastadora, já que além dos corpos, o antigo DNA das bactérias e outros organismos foram preservados (ou quase). Os pesquisadores encontraram outro DNA associado aos seres humanos, e tudo isto está sendo estudado para entender como aquilo aconteceu, de que forma e como hoje podemos criar métodos para conter esse tipo de epidemia.

Comparar o DNA do vbrião de ontem com o que temos hoje, podemos entender como as bactérias tem evoluído ao longo dos anos e criar métodos mais eficazes para combatê-la. Segundo a Organização Mundial de Saúde, houve mais de 100 mil casos em 2013. Em 2011, havia cerca de 600 mil casos de cólera em todo o mundo, e qualquer pista que ajude a diminuir esses números é mais do que bem-vinda.

* Eu tentei não fazer essa piada. DSCLP.


Fonte: Press Release da Universidade de Ó Raios! Ohio

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