O fantasma da poliomielite que assombra médicos

Quando eu era menino, tinha um garoto em nossa vizinhança que tinha problemas nas pernas. Eu não sabia o que era. Muitas outras crianças se afastavam dele, mostrando que preconceitos existem em todas as eras e em todas elas, isso é um dos maiores crimes que se pode cometer. Depois, eu soube o que era. O menino sofria do bárbaro ataque de um vírus, o poliovírus, mostrando o quanto a Natureza se preocupa com a gente. Eu tinha aprendido no colégio que a pólio era combatida através de vacinação, mas parece que aquele menino não tinha sido vacinado.

A vacina que se emprega hoje é a que foi inventada pelo polonês (que na época do seu nascimento, sua terra natal era território da  União Soviética) naturalizado americano Albert Sabin, apesar da primeira vacina ter sido inventada por Jonas Salk. Tanto um como outro renunciaram às patentes de suas respectivas vacinas para que elas pudessem ter fácil acesso a um preço barato a todas as crianças.

A vacina criada por Salk emprega vírus mortos e é injetável. A vacina Sabin por outro lado, tem preferência porque é mais eficaz, já que usa vírus atenuados, é fácil de ser aplicada, pois basta duas gotas na língua, sendo menos traumática para crianças pequenas, é melhor conservável e, além de tudo, os vírus atenuados saem nas fezes, o que garante que lugares onde não há saneamento básico que preste (e no Brasil uma imensa quantidade de cidades estão neste estado deplorável de saneamento inexistente) possam servir de veículo para disseminação do vírus atenuado. Em outras palavras, cocô também te dá imunidade.

Desde 1962, a vacina Sabin garantiu a erradicação da doença no Brasil em 1990, o que prova que quando se quer, podemos fazer coisa que preste, só não sabendo informar a população, ainda mais quando você vai pesquisar paralisia flácida aguda no Portal Saúde, do Ministério da Saúde, e o resultado é digno de aplausos, já que saúde pública no Brasil é levada a sério.

Nesse ínterim, o Brasil, juntamente com a argentina e o Uruguai, está substituindo a vacina Sabin pela injetável, como está sendo feita no resto do mundo por causa da maior eficiência das modernas vacinas injetáveis, deixando o cocozinho protetor em segundo plano. Como a vacina injetável tem muito menor chance de fazer com a pessoa corra algum risco de efetivamente infectada (cuja taxa já é baixíssima, mas ninguém com um mínimo de raciocínio irá querer correr risco algum). E antes de continuar a ler  o texto, olhem pros seus filhos e agradeçam ao sociólogo que discutiu sobre as vicissitudes do Homem no campo, ao filósofo que discutiu as ideias de Heidegger e ao seu representante religioso preferido que ficou rezando muito para erradicar doenças como a poliomielite e a varíola.

Nesse meio tempo, os malditos anti-vaxxers, malucos que impedem que seus filhos sejam vacinados, foram os responsáveis por trazer o sarampo de volta. E nem falo do vagabundo do Andrew Wakefield que fez um "favor" à humanidade espalhando boato que vacinas causam autismo.

A Ciência Médica do século XXI está confortavelmente preparada pra mandar o amaldiçoado vírus para as profundas do Inferno. Então, alguém pode me dizer que cagaço é esse da Organização Mundial da Saúde para com a poliomielite? Vocês não sabem? Vou dizer.

O problema está em muitos países africanos (vocês sabem, daqueles que que se sequestram albinos para se fazer poções mágicas), Oriente Médio etc, com uma transmissão que começou lá pelas bandas do Paquistão, chegou até a República dos Camarões, chegou na Síria e o caldo entornou de vez. A OMS está com o dito cujo na mão e externa suas preocupações. O Governo Brasileiro diz que está tudo tranks, pois aqui se vacina, mas eu fico meio receoso, pois conheço o país onde moro.

A questão básica é que anda rolando uma guerra civil na Síria e o medo é que a revoada (sim, eu sei) de gente fugindo de lá às pressas pode carregar o vírus junto, já que a Síria não é um primor de país desenvolvido. O Brasil também não é, mas pelo menos temos cerca de 95% das crianças de zero a cinco anos já vacinadas. A Síria? Quá! Quá! E o medo é que a doença volte a aparecer na Europa.

Vamos ser sinceros, ninguém está realmente preocupado com os caboclos à solta nos rincões da África que ficam brigando tribo com tribo até hoje. O medo mesmo é que os branquelos europeus acabem contraindo a doença. Pobreza que se rale. O problema é que a África, assim como o Nordeste brasileiro, não é uma questão apenas de levar comida e remédios. Há toda uma ciência para se entender a África, onde tribos saem na porrada ainda hoje e líderes maníacos acham que mandam e desmandam, ficando com tudo o que é mandado pra lá, pois a fome e a miséria sempre foram uma importante força para controlar populações, desde os tempos de Roma.

Agora, a OMS dirige seus esforços para conter a transmissão da doença na Síria, antes que a coisa perca o controle, ainda mais naqueles cantões de deus-me-livre, onde saneamento básico basicamente não tem o básico e infra-estrutura lá se resume a alguma cabana no meio do nada, com um monte de médicos se perguntando se ir pra lá realmente foi uma boa ideia.

O The Lancet já tinha publicado um artigo sobre como o surto na Síria poderia logo se espalhar para a Europa, sendo que este artigo foi publicado em 2013, e parece que muito pouco está se fazendo, mas não. Até se faz muito, mas é lutar contra países totalmente destroçados socialmente por causa de uma guerra civil idiota, que lá pelas tantas nem se sabe direito porque está brigando. De repente, porque não tem PlayStation para jogar em rede.

Grupos internacionais, já não é de hoje, têm sérios problemas de acesso dos trabalhadores humanitários , acrescentando que tanto Assad e os rebeldes da oposição têm oferecido pouca cooperação . Agindo rapidamente , dizem as autoridades , continua a ser fundamental para conter a disseminação da pólio; mas a política e interesses particulares (e um deriva do outro) acaba sempre impedindo isso. Mas eu ainda tenho confiança que os profissionais de saúde darão um jeito nisso, só bastando deixá-los trabalhar. Porque, no final das contas:


Fonte: The Verge

5 comentários em “O fantasma da poliomielite que assombra médicos

    1. @Douglas RR, Se fosse criança,acho que preferiria tomar uma injeção na testa do que ter que encarar esse Zé Gotinha genérico da foto.Cabuloso,parece mesmo aqueles malucos da Ku Klux Klan.

  1. Excelente texto, André. Agora… a imagem no final foi seguramente a melhor conclusão que já vi por aqui em muito tempo. Um perfeito “resumo da ópera” sobre a eficácia e utilidade da ciência e da religião. :cool:

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