Seja responsável e mantenha seu filho burro!

Em qualquer reunião com pedagogos eu tenho desgosto. É uma dor que corrói a alma, e eu não posso me livrar dela. Numa reunião hoje, eu vi soltarem a seguinte pérola "O senhor tem um projeto de ensinar computação aos alunos. Acho que eles são muito novos pra mexer com computador".

E esta toupeira se diz educadora, e você, profissional que ENTENDE da sua disciplina, é uma besta.

Eu fui xingado porque queria ensinar engenharia para crianças. Eu acho que todos os pais deveriam fazer de seus filhos pequenos cientistas. Montei uma minifeira de ciências e os pais adoraram, eles mesmos explicavam aos filhos como uma alavanca, uma roldana e uma engrenagem funcionam. Os alunos da exposição complementaram as explicações. Foi algo lindo de se ver. Mas isso ofende a ralé paulofreireana.

Entidades como o Code.org desenvolvem programas para o ensino de programação para crianças (veja matéria do Meio Bit). O Imagina é um front-end para o Logo, uma linguagem de programação educacional. Com o Imagine, crianças podem usar um meio visual para fazer seus próprios programinhas, com um código muuuuuuuuuuuuuuuito difícil como "andar 15" ou "repetir(ação)". Só um Steve Wozniac conseguiria usá-lo.

Mas tudo isso é errado. Crianças não usam computadores. Eu até quase concordaria. Eu arrisco dizer que, hoje, elas usam pouco os computadores. Elas usam notebooks, tablets e smartphones. Sabem configurar máquinas digitais, filmadoras, baixam file, instalam aplicativos, discutem entre si se iPhone, Android ou Windows Phone é melhor e quase saem no tapa que nem verdadeiros fanboys. Elas são mais integradas com a tecnologia? Não, sempre foram! Nós fomos mais que nossos pais, mas estávamos limitados à tecnologia de nossa época. Falávamos do Odyssey e do Atari. Falávamos sobre qual revólver de espoleta era melhor e brincávamos de Super-Trunfo.

Estou falando de crianças do Fundamental 1!

A energúmena acha que as criancinhas nunca viram um computador na vida. mais fácil ELA não saber usar um pendrive direito, enquanto as crianças configuram e-mail e fazem de tudo para dar uma banda no administrador da Rede para poderem acessar sites que estão bloqueados. Às vezes, elas conseguem, mas não dura muito. De qualquer forma, a diversão está em buscar outras brechas.

Nós trabalhamos com símbolos e códigos o tempo todo. Na minha aula inaugural, eu mostro o significado da linguagem do mundo da Química. Programação precisa de pensamento ordenado, uso de lógica, encadeamento de informações. Isso, entretanto, é muito complicado de se entender, principalmente por gente que mal sabe usar outro navegador além do Internet Explorer. Se tirá-lo, não conseguirão usar a Internet.

As crianças de agora são diferentes das de antigamente? Não, são as mesmas crianças, mas que vivem num mundo diferente. Mas ainda as veem como criaturinhas burras, estúpidas e idiotas. No máximo, elas podem ser preguiçosas. Todos nós somos, mas temos estímulos que nos levam adiante (como as contas, faturas de cartão de crédito etc). Dizerem que crianças não deveria usar computadores é algo totalmente estúpido se elas JÁ USAM aquela porcaria. Eu até acho que poderia diminuir, mas quando eu mesmo dependo do PC/Tablet/Smartphone para conduzir minha vida, como dizer pros filhos "não, você não pode"? Ele pode sim, só precisa de maior vigilância e comprometimento dos pais. Claro, não é questão de "vou fazer meu filho inteligentíssimo. Darei um i9000 e uma internet de 1Gigabit/s e se vira aí, filhote. Só não atrapalhe a minha novela ou o jogo do meu time.

A ralé que defende que Ciência é ruim, como os seguidores daquelas baboseiras que atendem por Filosofia, Sociologia e outras merdas similares, acha que Ciência é ruim, estudar é ruim, tudo é ruim, pois não há reflexões. Grandes merdas! Acham que aprender Ciência, bases de engenharia e computação não melhorará a criança, como se ela ficasse mais burra assim.

Bem, se é assim, que seja: quero que meus filhos sejam burros dessa maneira.

7 comentários em “Seja responsável e mantenha seu filho burro!

  1. O negócio cara, é sempre fazer a mesma, o mesmo de sempre, sempre. Para que mudar? Para que tentar algo diferente e inovador? O sistema educacional é uma lenda de tão bom, e você ai tentando mudar, sei não hein

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  2. Excelente artigo.

    Me lembro que no final da década de 80, eu então com 13 anos, troquei minha bicicleta por um computador, (sem a aprovação de meus pais, foi a maior briga, hehehe…) e, em tempos de reserva de mercado, o chamado computador pessoal era algo muito diferente do que temos hoje, possuía apenas a linguagem de programação BASIC, e os programas eram salvos em fitas de música, utilizando um gravador.

    O tal computador era este: http://pt.wikipedia.org/wiki/CCE_MC-1000

    Com isso aprendi vários conceitos sozinho (com a ajuda do manual que acompanhava o tal computador) aprendi além da linguagem de programação, o que é memória ROM, RAM, variáveis, raciocínio lógico, etc.
    Resultado:
    No meu primeiro emprego como auxiliar de escritório, onde já existia PCs 386, comecei a criar programas para ajudar na organização e nas tarefas rotineiras, o que me levou a um tempo depois a trabalhar em uma das maiores empresas de desenvolvimento de software para determinado segmento no Paraná, onde trabalhei por mais de 8 anos, e essa empresa ainda hoje comercializa programas feitos por mim, e hoje, a 5 anos tenho minha própria empresa de software.
    Tudo isso aconteceu sem nenhum incentivo (pelo contrário).
    Meu objetivo aqui não é criticar meus pais pois até entendo (questão cultural/financeira), mas as vezes fico imaginando como seria se eu tivesse sido incentivado…
    Mas como eu sei que esse tipo de pensamento não leva a nada, agora chegou minha vez de incentivar meus filhos, e isso eu faço com todo o prazer, mesmo com o cenário atual da educação cada vez mais assustador.

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