Uma história sobre nossas memórias

Eu vejo os seres humanos como o conjunto de suas memórias. De todos os animais, os humanos somos os únicos que interagem com elas, que fazem esforço para relembrá-las, para nos fazer felizes de novo, sentirmos saudade etc. Nossas memórias são aquilo que realmente nos faz humanos. Por mais que seu cão se lembre de você após muito tempo fora, apenas nós fazemos esforço para nos lembrar dos risos que demos, das lágrimas que vertemos, das conquistas que conseguimos e assim por diante. Aprendemos, portanto, a valorizar estes momentos e procuramos eternizá-los e compartilhar com outras pessoas.

Isso que vemos logo acima são considerados como os primeiros registros hominídeos. Não parece ser muito para a maioria das pessoas. São apenas mãos de neandertais que deixaram esta "assinatura" na caverna de El Castillo, na Espanha[1]. Para antropólogos, é o primeiro registro de pessoas que quiseram deixar a sua marca para serem lembradas… e elas são! Mesmo depois de milhares de anos, vemos que ali que homens, mulheres e crianças assinaram seu primeiro documento para a posteridade, acenando com mãos invisíveis para um futuro que elas jamais imaginaram. São apenas mãos, mas elas nos contam uma história.

O mural acima é de Hatshepsut, a rainha egípcia que é tida como o único "faraó mulher" da história, se bem que o termo “faraó” é recente. Ela foi tão importante que mereceu um registro numa sociedade que não admitia rainhas governantes, tendo que ser apenas regentes até seus filhos do sexo masculino pudessem subir ao trono. Cleópatra só subiu ao trono do Egito depois de uma guerra civil contra seu irmão Ptolomeu, apoiada por Caio Júlio César, quando este estava prestes a assumir Roma como seu primeiro ditador, para depois ser chamado imperador. Nesse mural, Hatshepsut está lá, com sua memória escrita por milhares de anos, e sua memória ainda será lembrada por muitos de nós.

Vejam essas fotos. São fotos de pessoas que se conheceram, que se casaram, tiveram filhos e iniciaram uma história. Parte dessa história é contada nessas fotos, esmaecidas com o tempo, pois têm mais de 50 anos (algumas, nem tanto; outras bem mais que isso).

Essas fotos são momentos congelados no tempo. Não podemos viajar ao passado com um DeLorean; o fazemos através de nossas lembranças e de lembranças registradas por algum modo. Hoje, estas lembranças são gravadas em apetrechos como estes.

São CD, DVD, cartões de memória, pendrives, discos rígidos etc. salvo alguns fotógrafos mais especializados, não conheço ninguém que compre filme fotográfico mais. Todos queremos máquinas digitais e/ou filmadoras. As filmadoras até são mais dinâmicas, pois gravam uma sequência de momentos, dando mais vida ao que estava acontecendo na hora e desde as Super 8 são usadas (mais cedo, até). Não é o caso de simplesmente fazer uma pose, bater a foto e ir embora. O vídeo registra com muito mais naturalidade, mas temos um problema aí. Já joguei vários CD fora. A promessa que tal mídia duraria 100 anos não passou de promessa. Com o DVD é a mesma coisa e o zipdrive sequer saiu de um nicho, sendo aposentado pouco depois. Nossas lembranças se perdem assim; o que antes era uma lembrança gravada em bits e bytes, agora esmaece e aos poucos vai se perdendo no etéreo mundo digital, onde basta um ímã para estragar tudo e apagar uma história de vida.

Eu nem me lembro mais da última vez que usei o DVD player de meu PC. Disquetes? Nem mesmo tenho leitor para eles, o que não faz muita diferença, pois qualquer câmera fotográfica de celular mediano de hoje tira fotos que ocupam mais de 1,44 MB. Posso passar um ímã igual ao que mantém a porta da minha geladeira bem fechada pelo meu pendrive que não acontece nada, mas fazê-lo num disquete ou numa fita k7 estaria condenando os dados lá a uma morte horrível.

Pensamos que substituímos as coisas e isso não é total mentira, mas não é segurança também. Muitos usavam o Megaupload para armazenar, não só filmes e músicas, mas vídeos pessoais, arquivos etc. Tudo isso foi pro limbo e ninguém pode recuperar isso jamais. A “nuvem”, assim como o bolo, é uma mentira. E eu nem toco no assunto de aqui no Brasil o acesso à Internet é uma verdadeira piada, onde depender totalmente de um serviço online não é algo muito inteligente, pois uma hora a empresa que cuida da sua internet irá falhar, e a mão esquelética de Murphy apontará o pior momento para isso acontecer.

Nossas memórias estão em perigo. O que será de nossa história pessoal? Talvez não seja algo de importância, dada a banalização de tudo. Antes colocava-se a melhor roupa para ir num retratista (chamamos hoje de “fotógrafo”) para um retrato em família. Hoje, um clique e seu tio barrigudo sem camisa com um espeto de churrasco na mão e um copão de cerveja na outra está imortalizado… mas não muito. A foto decorará algum Facebook da vida para ser compartilhado e esquecido. Não que eu ache aquelas longas e tediosas sessões, onde nossas tias mostravam seus imensos álbuns de fotos lhe mostrando quando da primeira vez que seu primo usou o peniquinho, algo maravilhoso. Mas havia o orgulho e o prazer de compartilhar os momentos; muitos deles escolhidos com esmero. Hoje, joga-se o link do “feice” (como eu odeio esta contração!) e pronto. Se bem que podia ser pior, como nos tempos do flogão. A banalização do momento fez as pessoas tirarem foto do próprio almoço, aplicarem algum filtro tosco e colocarem no Instagram. Houve até briga quando alguns serviços deixaram de suportá-lo e a legião de usuários ensandecidos começou a reclamar, como se suas vidas insossas dependessem disso.

Talvez, até dependam.

As imagens deixaram de ser o ato do humilde compartilhamento para a arrogância de dizer a todos que comeu em algum restaurante chique (ou não tão chique assim). Deixamos de nos socializar mostrando lugares exóticos, curiosos ou divertidos para nos refestelarmos em papaguear a todo mundo onde estamos, o que fazemos e onde estamos indo, por puro culto à personalidade. Sim, vocês estão sozinhos, companheiros. Não estão socializando com ninguém, pelo simples motivo que do outro lado a pessoa verá, dirá “OK”, era outra foto de gente compartilhando fotos insossas, enquanto ele mesmo espera que sua foto insossa suba para dizer a todos como sua foto é menos estragada que a dos demais, numa eterna competição. Porque, no final, ninguém está interessado no que você está assistindo, onde está comendo ou que música está ouvida. Você pensa que está causando inveja, estando num pedestal de autoimportância, achando que as pessoas o olham com reverência, enquanto que a pessoa ao seu lado está olhando pro topo da sua cabeça, pensando se foi uma boa ideia ter saído.

São inúmeras vozes falando a mesma coisa e nenhuma delas merece mais atenção que os 15 minutos previstos pelo Andy Wahrol. A bem da verdade, são 15 segundos, ainda mais num twitter da vida. Mal você postou que está na porta do cinema/restaurante/teatro/sauna gay, outro colocou que está num baile funk pancadão/mostra de arte moderna/visita do Papa/desfile do bloco das piranhas no carnaval.

Aquelas mãos na caverna da Espanha nos diz parte de nossa cultura, mas suas fotos apenas são poluição. As minhas também são, mas compartilho-as com amigos que as apreciam, mesmo as esmaecidas fotos em papel mostradas acima. São memórias que nem são minhas, pois muitos daqueles personagens eu não conheci. Eu herdei as memórias, assim como herdei meus genes. Eu as olho e procuro entender o que elas têm para me contar, assim como a foto do tio de churrasco com sua cervejinha. A foto de seu almoço só me diz uma coisa: aquele lindo peixe ao molho de camarão teve seu percurso bioquímico e virou cocô, para depois ser repudiado e esquecido. Afinal, é o que acontece com 90% de nossas lembranças.

14 comentários em “Uma história sobre nossas memórias

  1. “Nossas memórias estão em perigo. O que será de nossa história pessoal? Talvez não seja algo de importância, dada a banalização de tudo.”
    .
    Realmente o mundo está perdido. As pessoas não dão valor a algo que permitiu a nossa sobrevivência como espécie e que nos deu supremacia na escala evolutiva. Com isso, Desfragmenta-se a cultura com tendência a só piorar com a chegada da tecnologia, como mostra o artigo.
    Muito interessante essa visão de mundo.

  2. Ainda tenho esperança. Ainda existem pessoas que valorizam coisas boas. Infelizmente somos atacados pela boçalidade das informações ruins em tudo que é mídia. Vide programas policiais nas rádios e TVs.
    Mas existe muita gente trabalhando seriamente e discretamente. A quantidade de informações sérias na internet também tem aumentado. Iniciativas como a Wikipédia , buscadores como Google, textos e cursos multimídia gratuitos do iTunesU da Apple são fantásticos. Muitas universidades americanas oferecem cursos gratuitos via internet.
    Em Campinas tem um grupo de médicos voluntarios que sempre vai para os confins da Amazônia tratar de pessoas da região. Tem o centro medico Boldrini de tratamento de câncer que é referencia mundial.
    A febre dessa porcaria do feice e seu uso deturpado já está sendo comentada por muita gente. Isso já é um inicio de reação. Pessoalmente vejo isso na minha família exatamente como descrito por outros. A foto do almoço no instagram é clássica.
    A solução é trabalhar com afinco na educação , principalmente de crianças pequenas. Agindo na esfera de nossa atuação. Vão sempre existir imbecis, mas se conseguirmos educar algumas pessoas , estas por sua vez poderão continuar o trabalho.
    Da mesma forma que se acha funk no YouTube podemos achar música de orquestras e grandes instrumentistas.
    Precisamos prestar menos atenção nos fatos ruins para não nos contagiarmos.
    Daqui a muitos anos outros vão ver as memórias que deixamos sob outros olhos, tal como vemos todas as guerras da antigüidade. Só a cidade de Istambul , antiga Constantinopla , foi alvo de ataques de muitos impérios ao longo de milhares de anos. Para quem estava lá naquelas épocas deve ter sido um inferno. Tudo se transforma.

      1. @André,
        Mas as pessoas que geram as informações possuem o interesse.
        Já por elas vale a pena. Não é pouca gente não. Só que trabalham sem alarde, fazendo sua contribuição de formiguinha. E ainda existem outras que querem aprender e vão no embalo. Veja seu próprio site, quanta gente tem acesso à ele?

        Nesse nosso mundo moderno estamos acostumados a pensar em porcentagens, desprezando os números absolutos. Se um assunto interessa a apenas 1% das pessoas dá a impressão que ele não vale a pena ser tratado. Mas se esse 1% representar absolutamente muita gente, já vale a pena.

        Ao longo da humanidade sempre existiu gente ignorante. Imagine só na antiguidade quantos detinham conhecimento mais avançado em relação à população total. E isso não impediu que o conhecimento avançasse. É só esperar que o tempo e esforço das pessoas boas resolve.

        1. Veja seu próprio site, quanta gente tem acesso à ele?

          MUITO menos que o Bobagento ou o Kibeloco. Por isso eles podem viver do site, eu não. O mantenho, nem eu mesmo sei porque. Se eu pedir uma contribuição a quem acessa o Cet.net, garanto que não arrumarei nem pro café da manhã. Quanto VOCÊ estaria disposto a contribuir mensalmente?

          1. MUITO menos que o Bobagento ou o Kibeloco. Por isso eles podem viver do site, eu não

            Lastimável saber disso. Analisando sua competência e conhecimento para escrever seus artigos com análises textuais e o nível das informações que vc põe aqui, de modo que nem a galera do Science Blog consegue fazer, fica claro, mesmo que poucos em relação à aqueles, a presença de pessoas que almejam o saber científico. Pense nestes como incentivo ao seu trabalho aqui.

  3. A enorme divulgação de bobagens no dia a dia vai nos calejando e tirando nossas esperanças.
    Temos que criar resistência a esse tipo de tendência para vencer no dia a dia e até mesmo por questão de saúde. A amargura e depressão causam inúmeros malefícios.
    E o “hardy har har”, para quem lembra, é sempre um cara chato.

  4. André hoje em dia vejo esse exibicionismo tosco das pessoas e sinceramente acho uma grande babaquice. Tem gente que TUDO que faz vai logo postando em facebook e afins. Enfim achei esse texto muito interessante. Sobre manter o site, você deveria abrir um pedido para contribuições, até mesmo para ver qual seria a arrecadação. Você tem um relatório diário de quantos ips diferentes fazem visita ao ceticismo.net?

      1. @André, é uma pena, pois pouquíssimo sites possuem um conteúdo tão bom como o seu e dos mantenedores. Gosto de divulgar este site, pois sei que aqui sempre temos material de alto nível. Eu pagaria se houvesse como. Abração.

        1. @Lucio Candido,
          Assino embaixo. Também teria o maior prazer de contribuir se fosse possível, faz parte de minha rotina acessar o Ceticismo.net, é um dos pouquíssimos sites que oferece um conteúdo digno de atenção.

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