As máquinas nos ensinam quando ensinamos às máquinas

Ensinar não é pra qualquer um. Por mais que você saiba a matéria, a questão é se você sabe transmiti-la, fazendo-a o mais compressível que puder. A ficção científica nos deu muitos exemplos de professores-robôs, mas isso está longe da realidade. Asimov nos deu exemplos de professores-robôs, mas estes eram apenas gravadores que replicavam a matéria. Bem, se é pra fazer isso, não se precisa estudar nem desenvolver nenhuma tecnologia própria. Pedagogos e professorzinho formado a 3 tapas em facurdadi de esquina fazem isso quando tentam ensinar algo que está nos livros, mas qualquer pergunta de modo não-previsto pelos livros, eles engasgam. Esse tipo de gente está para o Ensino, assim como operador de telemarketing está para um atendimento decente. Mas e se fosse o contrário? E se ao invés de ensinar, o robô estivesse aprendendo junto com  as crianças? É o que uma dupla de dois pesquisadores japoneses nascidos no Japão pesquisam.

Meu velho professor Gusmão, dos tempos da faculdade, nos ensinou que a gente só teria condições de ensinar algo se aprendêssemos primeiro. Primeiro, aprenderíamos a matéria, para depois aprender a aprender a ensinar. E isso se daria enquanto estivéssemos ensinando. Obviamente, soma-se a isso o fator "talento", pois, como em toda profissão, ou você serve para aquilo, ou não.

O o dr. Fumihide Tanaka é professor adjunto do Departamento de Tecnologias de Interação Inteligente, da Universidade de Tsukuba no Japão, juntamente com o dr. Shizuko Matsuzoe, que não é chique o suficiente para ter site próprio. Eles trabalham com robótica direcionada para o Ensino, mas não através de kits Mindstorms da Lego ou os Mobots da Barobo. Eles se debruçam sobre como usar um robô como professor, mas há problemas se apenas idealizarmos a figura de um professor como máquina de informações.

Tomemos dois exemplos. No primeiro caso, a "tia" que fica dando aula no Fundamental 1. Ela não é especialista naquilo que está ensinando, pois perdeu tempo de sua vida lendo textículos de Paulo Freire, Vygotsky e outros inúteis. Se a criança faz uma pergunta fora do que está nos livros didáticos, ela não sabe responder e muito dificilmente terá condições de ler mais e em profundidade para responder.

No segundo caso temos a escória que dá aula em cursinho, onde agradam sua plateia (o que deixa o dono do cursinho muito feliz) com musiquinhas e showzinhos para os retardadinhos conseguirem decorar a matéria. Aprendizado? Zero, mas quem disse que o Zé Ruela que se matricula em cursinho quer aprender algo? Nem os que estão em colégios de verdade querem.

Tanaka e Matsuzoe trabalham com universitários, mas estão longe de ser um grupo caipira do bairro da Liberdade. Eles acham, e eu concordo plenamente, que a melhor maneira de aprender algo é ensinar. Primeiramente, você não aprende tudo e normalmente um aluno sempre vai lhe surpreender com alguma pergunta tirada de onde o Sol não brilha (seja por vívido interesse em aprender, seja para poder testar o professor). Professores, de uma maneira geral, não são donos de todo o saber da Humanidade, já que nem todos podem ser como eu. Nós estudamos sempre (ou deveríamos), nos atualizamos, caçamos referências para esclarecer dúvidas de alunos ou mesmo para entendermos melhor o assunto, para que possamos ensiná-lo melhor. Ensinar não é ensinar a mesma coisa 300 vezes até o aluno aprender. Se ele não entendeu da primeira vez, não adianta repetir, qual papagaio, tudo da mesma maneira. Parece aquelas situações com telemarketing, onde o atendente diz a instrução (que aparece na tela do computador dele) e não sabe ensinar de outro jeito. Isso quando não há variação do problema.

— Pois, não. Clique no Menu Iniciar, digite CMD…
— Eu não uso Windows, uso Mac.
— Sim, mas o senhor tem que clicar no Menu Iniciar, digitar CMD…
— O senhor não está entendendo. Não existe Menu Iniciar em MacOSX. Mas, eu tenho Linux também…
— Ótimo, então o senhor clica no Menu Iniciar…
— SENHORA! NÃO TEM MENU INICIAR FORA DO WINDIOOOOOOOOWS!
— Então não podemos ajudar. TU TU TU TU TU TU…

Os pesquisadores abordaram o problçema de outra forma. Ao invés de ter um robô que ensinasse as crianças, eles colocaram um robô que estava aprendendo! Isso fez toda a diferença. Eles trabalharam com 19 crianças com idades entre 4 e 8 e um robô humanóide. As crianças participaram de um jogo de aprendizagem em que tiveram que desenhar a forma correspondente a palavras em inglês, como "círculo", "quadrado", "crescente" e "coração". O robô empregado agia hora como instrutor, ajudando as crianças a desenhar a figura correta, hora como se estivesse aprendendo, estimulando as crianças a ajudá-lo, corrigindo erros ou mesmo dizendo o que ele tinha que fazer quando ele simplesmente declarava não saber o que tinha que desenhar. Não muito diferente do que um certo camarada chamado Sócrates fazia há algum tempinho atrás.

Algo semelhante a isso é você ensinar… errado. Como por exemplo: "a água é sólida à temperatura ambiente, ceeeeeeeeeeeerto?", além de induzir a criança a dar uma resposta errada. fatalmente alguma terá a ideia certa e explicará para o outro. Crianças não são adultos, logo não possuem o defeito de guardar pra si o que sabe. Elas ficam felizes em ensinar. Mas, ok, parte disso é a arrogância de se dizer mais sabida, mas ao ponto que isso faz com que a outra saiba e procure saber mais, não vejo mal algum. Competitividade não é algo ruim, enquanto competitividade. Todos nós competimos de alguma forma todos os dias. Quando eu quero viajar mais confortavelmente, eu procuro chegar mais cedo para conseguir lugares melhores. Competimos por melhores cargos e salários ou mesmo por uma vaga de emprego. Competimos em concurso e no jogo de futebol. Privar a criança disso é privá-la de algo inerente aos seres humanos. E isso parte para outro tipo de ensinamento: os princípios éticos e morais de nossa sociedade, mas isso é outra história.

A ciência por trás disso é simples: ela permite que a criança se sinta mais no controle da situação e responsável por ensinar o robô, capacitando a criança e reforçando o valor da lição que eles estão passando agora, mas de tal forma que ele não se sente como uma experiência de aprendizagem. Isso soaria pros psicopedarretardados que então basta a criança fazer o que quer e o professor é o mediador blábláblá. O professor é figura ativa, só que a criança pensa que está no controle, quando não está. Qualquer coisa fora do esperado pelos professores que estão controlando o robô é descartado, de forma que a criança aprenda a parte que é importante, reforçando o aprendizado.

A pesquisa foi publicada no periódico Journal od Human-Robot Interaction, de onde você pode baixar o PDF inteiro, completo e total do artigo. Os pesquisadores apresentaram seu trabalho no 21º Simpósio Internacional de Comunicação Interativa de Robôs e Humanos, o Ro-Man 2012, na França.

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s