O misterioso sacrifício em massa peruano

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Matírio. Um sofrimento sem propósito, na maioria das vezes (pra não dizer quase sempre). Grupos religiosos clamam para si que mártires jamais fariam a burrada de se submeter a sofrimentos por livre e espontânea vontade se não houvesse um propósito maior. Isso até tem um certo grau de fundamento, EXCETO se não prestarmos atenção aos detalhes. Não é uma questão de "fulano se matou em honra ao seu deus, logo seu deus existe". Fulaninho se matou (ou se deixou matar) por dois motivos: 1) É idiota; 2) Ele acreditava que estava honrando seu deus. Há vários exemplos na história da humanidade e um dos que mais gosto são os kamikases, que montavam no avião cheio de explosivos e se atiravam nos navios americanos, crentes que eram o vento sagrado (a tradução de "kamikase"), honrando o deus-vivo: o Imperador.

Pessoas matando e morrendo em nome de seus(s) deus(es) não é novidade e não começou com os seguidores do Jim Jones ou o tosco do Justino Mártir. Isso foi evidenciado em muitas culturas, como os arqueólogos que descobriram um sítio arqueológico com restos do que seria um ritual de sacrifício que data da época pré-inca. E o que se vê lá é aterrador.

A descoberta foi feita no sítio arqueológico de Sillustani em Huaca Las Ventanas, na região andina ao sul de Puno no Peru, mais especificamente pirâmide de Sicán, capital do povo Lambayeque. O local era governado pelo rei Sicán, demonstrando que dar seu próprio nome ao local onde você manda e desmanda não é coisa moderna. Sicán, el-Rei, governou o local entre os séculos XI e XII. A pirâmide em questão tem cerca de 15 metros de lado em sua base, perfazendo uma área de… ah, você sabe calcular a área de um quadrado. Ou não sabe?

No local, foram encontrados os restos de 44 crianças — muito provavelmente foram sacrificadas há cerca de 600-700 anos! — entre bebês e crianças de 3 anos, de ambos os sexos, cujos corpos não parecem ter sido jogados numa vala comum, de qualquer jeito. Com eles estavam adultos, contendo inúmeras pessoas sacrificadas (praticamente, mais de uma centena delas), cujos corpos estavam bem arrumadinhos, como mostra a imagem abaixo.

Como podem ver, os defuntos não foram jogados que nem se joga lixo fora. Há uma sistematização, onde eles são colocados aos pares e seus rostos estão virados para o leste, para onde o sol nasce, indicando veneração, estando alocados em algo semelhante a cestos, em torno de uma torre, embora alguns deles estejam sem cabeça. Os túmulos são simples, mas foram encontradas folhas de ouro como parte de suas roupas e restos de cerâmica. No peito de cada um dos bebês tinha uma pedra de material vulcânico, além de oferendas para animais, tais como vasos de cerâmica, pratos e restos de comida.

A pesquisa foi conduzida pelo dr. Haagen Klaus, bioarqueólogo do Departamento de Ciências Comportamentais da Universidade do Vale de Utah. Segundo Klaus, os sicán não eram belicistas e fica um pouco nebuloso o motivo de ter um sacrifício em larga escala como este. Klaus esclarece que a referida cultura era profundamente comercial, o que ajudou a construir um império que, em seu pico por volta do ano 1000, estendeu a milhares de quilômetros através do que é agora o Equador e o Peru.

De acordo com o José Pinilla, co-diretor do Museu Nacional de Sicán, não há, contudo, um padrão para a colocação dos restos mortais naquele buracão. Segundo ele, "há um alto grau de variação na posição dos corpos, sejam despejados com braços e pernas abertas, cuidadosamente dobrados ou em posições bem flexionadas". Um deles teve a questionável homenagem de ser enterrado próximo a uma fábrica de cerveja (que o antigo povo obtinha a partir do milho e eu é que não gostaria de provar aquele troço). Mesmo porque, tal bebida era usada em cerimônias fúnebres, o que não mudou muito em relação aos de hoje em dia, apesar de ser por outros motivos.

Ainda não foi esclarecido do motivo de tal onda de sacrifícios. Mas isso abre uma observação no conceito de estudo das religiões, onde vemos que mortes, sofrimento e martírio não são exclusivos de nenhuma religião. No tocante a esses sacrifícios, muitos eram feitos com o consentimento da pessoa, e se o ato de entregar-se para a morte é prova que o deus inerente a esta religião é verdadeiro, posto que ninguém ia se matar por uma mentira, então, a religião do povo de Sicán estava certa também, e seu deus realmente existe e é soberano, a despeito do que outras religiões digam.


Fonte: National Geographic

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Sobre André Carvalho

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