Como o comportamento materno é influenciado por alterações no cérebro

Mexer com coisas fundamentais de nossa psique pode ser sinal de problemas à vista. Lidar com nossas emoções é sempre complicado e quando temos a mais profunda dessas emoções analisadas pelas lentes frias da pesquisa científica, acabamos sendo acusados de desumanizar nossos comportamentos. O amor materno é, como todos os nossos sentimentos, reflexo de bilhões de anos de evolução biológica. De uma maneira seca, nos limitamos a dizer que não passam de descargas elétricas causadas por reações químicas no cérebro. Uma recente pesquisa estabelece, contudo, novas variáveis no jogo: o odor.

Harry Harlow estudou os processos comportamentais do amor do filho pela mãe. Um processo onde o toque era o principal fator que ajudava os macaquinhos rhesus a explorar o ambiente e não se sentirem deprimidos, com medo da própria sombra. O dr. Adi Mizrahi — do Centro para Ciência do Cérebro Edmond e Lily Safra, na Universidade Hebraica de Jerusalém — estuda como as mudanças neurais associadas com a integração de odores e sons são sujeitas à capacidade de uma mãe em reconhecer e responder às chamadas de socorro de seus filhotes. Em outras palavras, não basta apenas ouvir o chamado do filhote, o odor exalado é também peça fundamental no processo de informação.

O dr. Mizrahi e seus colaboradores examinaram se o córtex auditivo primário, a região do cérebro que está envolvida no reconhecimento dos sons. Ele pode servir como uma região de processamento inicial para a integração dos odores das crias, tratando-se de um lugar conhecido de plasticidade neuronal, isto é, sofre alterações estruturais e funcionais em resposta a estímulos sensoriais do ambiente.

Meu córtex cerebral está doendo. Não entendi nada!

Esqueça aquela baboseira que seu cérebro é único e imutável. As sinapses são formadas à medida que você aprende mais coisas. Sinapses são responsáveis pelo tráfego da informação. Quando você tem uma rua muito movimentada, o pessoal da Engenharia de Trânsito remaneja sinais de forma que quanto maior o fluxo de veículos, melhor seja o tráfego; e,sim, eu sei que nem sempre isso acontece, mas seu cérebro demorou bilhões de anos para atingir este estágio de desenvolvimento, enquanto os manés da CET-RIO mal saíram das fraldas.

Agora pense que você tem uma estrada hipermovimentada. O governo determina que o melhor é que a estrada comporte maior fluxo de veículos, não raro aumentando sua largura. Quando a estrada passa dentro de uma montanha, fica complicado, mas quando a estrada não tem nada em volta a não ser terreno vazio, basta duplicar as pistas. É mais ou menos isso o que acontece com o córtex auditivo primário. Ele é plástico, isto é, consegue mudar seu formato quando há grande transporte de informações.

Até agora, sabia-se que as mudanças cerebrais aconteciam e isso influenciava no comportamento materno; o que não se sabia era a profundidade dessa alteração. Estudos feitos em camundongos mostram que pistas olfativas e auditivas têm um papel importante na comunicação entre uma mãe e seus filhotes. Nada mais simples do que concluir que isso pode ser a base de processamento entre mães e filhotes de mamíferos. O estudo foi publicado no periódico Neuron.

O estudo baseou-se em usar ratos que ainda não tinham interagido com seus filhotes. Assim, o que parece tudo igual para nós, mas efetivamente não o é para os animais foi descartado. Estas mamães ratinhas ficaram com ratinhos-filhotes de ratas que tinha estabelecido um laço físico com eles através da amamentação. Examinaram, então, o cortex auditivo deles e modelaram os resultados. Só os odores foram responsáveis or estabelecer mudanças sérias no comportamentos das mamães verdadeiras, mas não nas mães de aluguel. As mães lactantes foram as mais sensíveis aos sons filhote. A integração auditivo-olfativo apareceu em mães lactantes logo após terem dado à luz e teve um efeito particularmente forte na detecção de chamadas de socorro filhote.

Isso sugere que ao nascer, o cheiro e ruído produzido pelos filhotes fica arquivado no cérebro da mãe (verdadeira). A mãe de aluguel não tinha esta "programação" prévia e não respondeu satisfatoriamente mediante os pedidos de socorro do filhote. Esses processos ajudam a explicar como as mudanças em redes do neocórtex facilitam a detecção eficiente de filhotes e cuidar para que estes não estejam em perigo.

Isso pode soar medonho, dado o reducionismo de uma das mais sublimes emoções. Entretanto, a Natureza é o que é. Foi este processo que desencadeou melhores tratos dos filhotes, impedindo que nossas mães nos jogassem fora como se fôssemos um saco de lixo. Elas nos reconhecem como seus filhos e traçam um laço muito forte, assim como nossa resposta é satisfatória para ela. Somos criados e recompensamos com aquele sorrisinho lindo, o qual as faz se derreter (isso até a hora de verem o que deixamos de "presente" nas fraldas).

Entendendo como se processa essa relação, entendemos como algumas mães não desenvolvem estes laços afetivos. Seja por não serem mães da criança em questão, seja por alguma anomalia na constituição de seus cérebros. Isso em nada desmerece todo o zelo, cuidado e amor que elas nos têm oferecido ao longo dos anos, assim como tê-las por perto nos faz nos sentir em paz e seguros. A lua não deixa de ser bonita à noite mesmo que saibamos que é um pedaço de rocha em queda livre e o Sol é uma grande fornalha nuclear pronto para nos aniquilar enquanto estamos na praia.

Você já telefonou para a sua mãe hoje?

Um comentário em “Como o comportamento materno é influenciado por alterações no cérebro

  1. Engraçado que eu não consigo achar que a descoberta dos “mecanismos associados ao afeto” reduzem ou desumanizam os sentimentos. Se for válido para todos os mamíferos, acho que abre possibilidades interessantes… Poderíamos por exemplo verificar a presença (ou não) da alteração e relacioná-la com casos de depressão pós-parto.

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