Grandes Nomes da Ciência: Harry Harlow

15 de outubro... Ah, você já sabe
Pesquisadores melhoram a vida de cegos com o uso de smartphones

Dois arregalados olhos castanhos circulam pelo ambiente, aterrorizados. O medo chega até a garganta, mas nenhum som sai dela. Uma cabeça gira e vasculha todos os pontos do ambiente, até que uma porta desliza suavemente para cima. Silêncio. O ser monstruoso do outro lado da porta começa a se agitar; o movimento de suas garras e ruído horrível aterroriza o dono dos doces olhos castanhos, e este correrá em busca da única coisa que sua mente acha que garantirá a segurança: sua mãe. O macaquinho corre e se agarra a uma boneca feita de arame e com "pele" felpuda e é tudo isso que o coitado precisa para se sentir seguro.

Esta é a história do dr. Harry Harlow, que com dois bonecos de arame e alguns macacos rhesus estudou os mecanismos psicológicos do amor e do afeto.

Os sentimentos mais enigmáticos são o amor e o afeto, ainda mais por estarem entrelaçados, a ponto de considerarmos como sendo (quase) a mesma coisa. Por séculos, especulou-se a que ele era devido, se por causa de almas gêmeas, círculos cármicos, reencarnação ou outras manifestações pseudocientíficas.

O amor é algo tão sublime e belo que os cientistas tinham uma certa reserva em estudá-lo do ponto de vista científico. Como resumir tal sentimento em linhas de um artigo científico? Como estudá-lo? A resposta é muito simples: sem paixão alguma (o trocadilho é inevitável). Basta focar o que se quer estudar e executar experimentos, mas até meados da década de 1940, ninguém estudou o amor de forma experimental.

Harry Frederick Israel nasceu em 31 de outubro de 1905 em Fairfield, Iowa, o segundo mais novo de quatro irmãos. Ele se graduou em Psicologia pela Universidade de Stanford, doutorando-se em 1930. Após conseguir seu doutorado, ele muda seu nome para Harlow e aceita cátedra na Universidade de Wisconsin-Madison. Ele era bom com as palavras e conseguiu convencer a reitoria a construir um laboratório para estudar o comportamento de primatas. Foi um dos primeiros laboratórios do tipo no mundo todo.

Harlow era um sujeito… digamos, peculiar. Ele se casou com uma de suas alunas: Clara Mears em 1932 – com quem teve 2 filhos –, divorciou-se, casou-se meio que logo em seguida com Margaret Kuenne, em cujo enlace teve mais dois filhos (um menino e uma menina). Depois de um tempo, Harlow divorciou-se de Kuenne e casou de novo com Clara Mears e eu fico pensando qual era o problema dele com relação a decisões.

Bem, não foi em termos de relacionamento entre humanos que Harlow ficaria famoso. O foco do estudo dele era laços afetivos entre macacos, mais especificamente os da espécie rhesus (sim, aqueles mesmos que deram origem ao termo "Fator Rh").

Harlow estudava como se dava os laços afetivos e o que acontecia com os voluntários forçados (aka, cobaias) quando eram deixados em total isolamento. Para isso, Harlow pegou filhotes de rhesus recém-desmamados e os deixou em total isolamento por cerca de 2 anos. O que ele obteve foram animais perturbados e à beira da psicose. Em um artigo, Harlow escreveu:

No monkey has died during isolation. When initially removed from total social isolation, however, they usually go into a state of emotional shock, characterized by the autistic self-clutching and rocking illustrated in Figure 4 [abaixo]. One of six monkeys isolated for 3 months refused to eat after release and died 5 days later. The autopsy report attributed death to emotional anorexia. A second animal in the same group also refused to eat and would probably have died had we not been prepared to resort to forced feeding. This phenomenon of extreme emotional anorexia has not appeared in the 6- or 12- month groups.

Our data indicate that the debilitating effects of 3 months of social isolation are dramatic but reversible. If there is long-term social or intellectual damage, it eludes our measurements. Given the opportunity soon after release to associate with controls of the same age, these short-term isolates start slowly during the first week and then adapt and show the normal sequence of social behaviors. In human terms they are the children salvaged from the orphanage.

The performance of both the 3-month isolate group and their controls is indistinguishable from that of equal-aged monkeys tested in other experiments utilizing learning-set problems.

Harlow HF, Dodsworth RO, Harlow MK. Total social isolation in monkeys. Proc Natl Acad Sci U S A. 1965 disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC285801/pdf/pnas00159-0105.pdf. Acesso em out. 2011


TRADUÇÃO LIVRE

Nenhum macaco morreu durante o isolamento. Quando inicialmente removido do isolamento total, entretanto, eles usualmente indicaram um estado de choque emocional, caracterizado pelo autismo e catatonia [nessa época, não se sabia que a causa do autismo tem base genética], ilustrado na figura ao lado. Um dos macacos isolados por três meses se recusou a comer depois de liberto e morreu em 5 dias. A autópsia atribuiu o óbito a anorexia emocional. Os efeitos do isolamento total foram tão devastadores e debilitantes que concluímos que um isolamento completo de 12 meses não produziria nenhum prejuízo complementar. Essa conclusão mostrou-se falsa. 12 meses de isolamento quase obliteraram os animais socialmente

Nossos dados indicam que os efeitos debilitantes de 3 meses de isolamento social são dramáticos, mas reversíveis. Se houver danos a longo prazo, social ou intelectual, ele escapa às nossas medições. Dada a oportunidade logo após o lançamento para associar com controles da mesma idade, esses grupos isolados de curto prazo começa, lentamente  — durante a primeira semana e depois — a se adaptar e mostrar a sequência normal de comportamentos sociais. Em termos humanos, eles são os filhos recuperados de um orfanato.

O desempenho de ambos os grupos isolados por 3 meses e seus controles é indistinguível dos macacos de mesma idade testados em outros experimentos utilizando situações de problematização para aprendizagem.

Coloquei de acordo com a ABNT só para ficar mais chique, mas acho uma frescura desnecessária em se tratando de blogs. Vejam se não fica melhor assim: Fonte: Total social isolation in monkeys – PNAS.

Um monte de gente acha que isso é puro terrorismo psicológico, que Harlow não passava de um maníaco torturador. Só que isso não impede que a pesquisa continue, pois chegamos ao ponto que realmente interessa: o que é o amor?

John Bowlby desenvolveu uma teoria denominada Vinculação, a qual é definida pela necessidade de criar e manter relações de proximidade e afetividade com os outros. É a chamada Teoria do Apego, que descreve a dinâmica de relacionamentos de longo prazo entre os seres humanos. Seu princípio mais importante é que uma criança precisa desenvolver uma relação com pelo menos um cuidador primário para o desenvolvimento social e emocional a ocorrer normalmente. O problema é: como estudar isso em seres humanos de forma a realizar experimentos. Por isso os macacos rhesus de Harlow são tão importantes e se você tem melindres com certas coisas, sugiro que saia agora e vá ver desenhos do Meu Querido Pônei.

Harlow se perguntava se a natureza do amor estava no sentimento de proteção ou na fonte de comida. Em sua época, cientistas debatiam se a criança criava laços afetivos com a mãe porque ela servia de McDonald’s ou porque servia de leoa de chácara. Sendo assim, Harlow construiu duas "mães alternativas". Uma era apenas um boneco feito de arame e pedaço de madeira, com um bico de mamadeira que servia leite quando se precisava. A outra "mãe" era um boneco de arame também, só que revestida de uma manta felpuda e fofinha. Isso foi posto numa caixa, onde era solto um filhote de rhesus. Let the experiment begins!

O macaquinho reconheceu bem sua fonte de alimento e, sempre que estava com fome, ia em direção à sua "ama de leite" para se alimentar. Quando estava alimentado, ele se dirigia para a "mãe felpuda"; mesmo porque, ela era macia, quentinha e aconchegante. Mas, e se o filhote estivesse em situação de perigo? Harlow criou um monstrengo feio que doía, que tinha dentes pontudos, se sacudia e fazia um barulho horrível. Em suma: o pesadelo de qualquer criança materializado. No vídeo abaixo, vemos o próprio Harlow demonstrando o experimento:

Em todos os experimentos, o macaquinho corre para a mãe felpuda. Quando ele está sozinho, abandonado, ele fica encolhido num canto. Basta ter sua mãe fofinha que ele se sente seguro o bastante para explorar o ambiente, sem medo ou terror. Sua confiança é aumentada e ele passa a se sentir mais "dono da situação". A ama de leite é apenas um supermercado e ninguém dá muito valor ao mercadinho da esquina. É a própria Teoria do Apego ilustrada.

Ei, espere um instante! Este porco especista usou pobres macaquinhos indefesos! Este torturador sádico deixou-os com traumas severos e ganhou muita notoriedade com isso. Você acha que isso é certo?

Deixe-me pensar… Sim, acho! A visão restrita dos tolos que têm mania de defender animais — mas que não hesitam em pisar na primeira barata que encontrarem ou usam inseticidas para aniquilar com mosquitos — se baseia apenas nos macacos, mas não conseguem ver o quadro mais amplo: como nossas crianças são cuidadas.

Com a pesquisa de Harlow, muito sobre os cuidados com nossos filhos mudou. Vemos que eles dependem profundamente de contato físico, da presença de outros de sua espécie (adultos, é claro). Sendo a pele o maior órgão de nosso corpo, repleto de corpúsculos que traduzem as informações sensoriais do tato e as levam pro cérebro, ela é o principal órgão do corpo e peça de fundamental importância do desenvolvimento cognitivo. A isso alia-se a estabilidade emocional da criança. Deixá-las sozinhas deixou de ser uma opção. pais que fazem isso são, no mínimo, criminosos. O cuidado em creches, orfanatos, berçários etc. mudou graças às pesquisas de Harry Harlow.

Se eu acho que uma criança humana vale mais que todos os macaquinhos rhesus que serviram de cobaias para Harlow? A resposta é um sonoro SIM! Nenhum de vocês abandonaria seu filho numa casa em chamas para salvar o cachorrinho fofinho. A Seleção Natural nos programou para cuidarmos dos de nossa espécie e isso é visto em TODAS as espécies, mais ainda nas espécies que estabelecem vínculos sociais. Não reclame comigo, reclame com o mundo natural. Nem eu nem Darwin temos algo a ver com isso.

Quando um pai ou mãe brinca com seus filhos, rola com eles no tapete, abraça, afaga e beija seus filhos, é produzida neles muita serotonina, substância que ativa as zonas de prazer no cérebro. Sei que é triste saber que nossos sentimentos são puramente reações químicas e descargas elétricas no cérebro, mas ninguém precisa se focar que somos apenas uma imensa indústria química para nos sentirmos bem, sem precisar de injetarmos, inalarmos, fumarmos ou inserir em algum orifício substâncias que nos deem satisfação por algumas horas. Enquanto isso, aquela bobajada freudiana em que queremos transar com nossas mães é, tão somente, reflexo de uma mente perturbada. Reconhecemos em nossas mães uma aura protetora, mais do que self-service de leite (sem, os biscoitos).

Fico contente em haver cientistas como Harry Harlow, um dos Grandes Nomes da Ciência. Hoje, grupos idiotas de defesa animal jamais permitiria que ele fizesse experimentos assim, acarretando num atraso científico sobre como devemos cuidar de nossa própria prole. Deve ser por isso que eu vejo muita "madame" andando com um poodle no colo (um cachorro imprestável, ao meu ver) enquanto a criança é deixada a cargo da babá, pessoa que a criança reconhece como verdadeira mãe (canso de ver isso. Muitas vezes, despejam as crianças no colégio bem cedinho, antes da coitada acordar e só vão buscar já de noite, quando ela já dormiu).

Os olhos do dr. Harry Harlow se fecharam para o mundo em 6 de dezembro de 1981. Talvez um gênio perverso, talvez um maníaco. Possuinte do mesmo senso maníaco que fez de Andreas Vesalivs roubar cadáveres para poder estudar anatomia humana, desmistificando séculos de conhecimento errôneo, porque roubar defuntos não era ético. Descanse em paz, dr. Harlow, e obrigado por sua pesquisa, pois sabemos que o terror causado aos pobres animais não foi em vão.


PS. Você já brincou com seus filhos hoje?

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Sobre André Carvalho

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