O efeito borboleta do aquecimento global

As borboletas monarca não são como todas as demais. Eu nem as acho muito bonitas. Entretanto, elas possuem uma das maiores migrações anuais, saindo dos Estados unidos e indo para o México, a partir de agosto, voltando para o norte durante a primavera (estamos falando das estações do ano referentes ao hemisfério norte), tendo uma viagem tão longa para tão curta vida que a geração que parte do norte não é a mesma que volta do sul. Isso acontece por muitos anos, mas parece que eventos climáticos associados ao aquecimento global está interrompendo isso. Afinal, o que está acontecendo?

Bom, vamos falar sobre as Monarcas (Danaus plexippus). Elas possuem uma envergadura que pode chegar a cerca de 10 cm. A bem da verdade, elas nem são originárias dos EUA, sendo, portanto, uma espécie invasora. Acredita-se que elas sejam originárias da Austrália e Nova Zelândia, locais onde foram identificadas pela primeira vez nos idos de 1870. O que não se sabe direito é como elas foram parar na América do Norte. possivelmente algumas de suas larvas estavam em flores do gênero das asclépias, da família Apocynaceae. Alguns pesquisadores acham que como as Monarcas conseguem voar longas distâncias, elas conseguiram fazer todo o percurso a pé, digo, voando mesmo. Eu, sinceramente, duvido disso, posto que no meio do oceano não teria onde descansar ou se alimentar. Deixo isso a cargo dos borboletologistas (EU SEI!), já que não é este o assunto do artigo (quer dizer, é e não é).

O dr. James Hansen chefia o Instituto Goddard para Estudos Espaciais em Nova York e é Professor Adjunto de Ciências Ambientais na Universidade de Columbia. Ele publicou um artigo (em PDF, in English) em que relaciona o aquecimento global e a população das borboletas monarca. Isso não é (muita) novidade, já que a WWF já vem falando sobre isso desde o ano passado, mas sem muitos detalhes. Alguns políticos, por motivos óbvios, se negam a reconhecer isso, alegando que aquecimento global é tão fantasioso quando a Cinderela, enquanto processos industriais e queimadas indiscriminadas vai dando "boa noite" para o mundo.

Obviamente, terá gente dizendo que tudo isso é paranoia e que o aquecimento do globo não passa de crendice espalhada por alarmistas ou por gente que quer ganhar destaque na mídia. Isso té pode ter um certo fundo de verdade, mas os efeitos das elevações de temperatura são visíveis e, sim, o ser humano interfere no clima do planeta, onde o atual período geológico recebeu o nome Antropoceno por causa disso. A questão em debate é, portanto: até que ponto o Homem interfere no clima do planeta? Até onde vai nossa ação a ponto de alterar o planeta enquanto sistema? É difícil responder de modo amplo, mas podemos ver que desde que colocamos nossas patas no planeta, estamos alterando seu clima e um exemplo disso foi a agricultura, que teve forte impacto no clima ao longo desses milhares de anos.

Quando os padrões climáticos criam condições de seca, o aquecimento global intensificará esta seca, por causa do aumento da evaporação. Assim, diz o dr. Hansen, os incêndios serão mais frequentes e a queima aumentará mais ainda a temperatura, jogando no armais uma boa quantidade de dióxido de carbono, além da morte de plantas que não farão mais fotossíntese, removendo o CO2 da atmosfera. Observações confirmam que as ondas de calor e secas regionais se tornaram mais frequentes e intensas nos últimos 50 anos, as chuvas têm aumentado cerca de 20% (e não no lugar que deveria chover) e a magnífica e destruidora energia dos furacões só tende a aumentar

Lord Hayden, digo, Hansen argumenta que é muito importante saber se a seca e os incêndios no estado norte-americano do Texas pode ser atribuído ao aquecimento global. Segundo ele, os meios de comunicação têm permanecido em grande parte em silêncio este ano em possíveis conexões entre os eventos climáticos extremos possivelmente criados por causa da ação humana e que os cientistas deveriam chamar a atenção da população para este problema, coisa que eu acho que pouco adiantaria, já que a população média têm tanto interesse por ciência por jogo de críquete em alguma aldeia esquecida na Índia. É muito importante se levantar para discutir temas, mas isso só tem sentido se houver gente que esteja disposta para lhe ouvir e não aqueles que trocarão de canal porque está na hora da novela.

Ok, André. O que a bosta da borboleta tem a ver com isso? É aquele lance de ela bater as canelas e chover no Himalaia?

Mais ou menos. Borboletas não causam furacões, mas ilustram o quadro que acontecimentos fortuitos podem causar grandes impactos de forma que não possam ser previsto o que acontecerá. Não se sabe ao certo até onde irá o aquecimento global e nem como ou quanto os seres humanos agiram neste sistema. Mas é certo que agimos. Hansen demonstra que a população de borboletas monarcas vêm reduzindo ao longo do tempo. O destino delas está mais dependente das condições no México do que no Texas. Enquanto isso, a queima de combustíveis fósseis não para e carros ineficientes ainda estão na estrada poluindo e não há uma solução a pequeno prazo.

O artigo do dr. James Hansen demonstra o quanto isso afeta certos interesses econômicos, a ponto de atacarem cientistas que procuram falar a respeito, tentano ridicularizá-los ou atacando frontalmente. Os mesmos interesses que se valem de cientistas, nem que seja para tomarem uma aspirina quando estão com dor de cabeça.

Uma sugestão para conter a ação da poluição no clima seria o famoso Imposto de Carbono, que se baseia em arrecadar uma taxa sobre a produção, distribuição ou uso de combustíveis fósseis baseado em quanto carbono é emitido por sua combustão. O governo define um preço por tonelada de carbono, depois converte-o em um imposto sobre eletricidade, gás natural ou petróleo. Conhecendo o Brasil, não sei porque ainda não tem isso aqui, ainda mais quando cariocas pagam por uma taxa de iluminação pública, julgada como inconstitucional várias vezes. Mesmo porque, quando se afeta o interesse econômico, não é a Constituição que será empecilho. Muda-se a mesma. Agora, se o dinheiro arrecadado servirá para alguma coisa útil, é outra história.

Para quem se interessa pela matéria, recomendo a leitura do artigo do dr. Hansen.

Um comentário em “O efeito borboleta do aquecimento global

  1. Triste ler isso e depois ouvir elemento dizendo que o aquecimento global não existe e é um golpe das “elites dominantes”.

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