A conquista do Pólo Norte e os problemas de acreditar sem provas

Li um artigo de John Tierney para o The New York Times em sua coluna Findings sobre a suposta conquista do Pólo Norte por Frederick A. Cook e Robert E. Peary. O artigo era intitulado “A Clash of Polar Frauds and Those Who Believe”, que em uma tradução séria seria vertido para “Um choque de fraudes polares e aqueles que acreditam”, onde o Terra teve a delicadeza de alterar para “Chegada ao Pólo Norte em 1909 foi maior fraude da Ciência“. Claro que não perderei meu tempo com tradutores e suas manchetes bombásticas, já que eles precisam chamar a atenção e, bem, sabemos como brasileiro adora mudar títulos e o cinema é uma prova maravilhosa disso.

O artigo versa sobre como os dois exploradores arrancaram uma grana de alguns patrocinadores – o The New York Times (vamos abreviar para NYT) era patrocinador de Robert Peary, e aposto que ainda deve guardar rancor até hoje – sem que tivessem realizado absolutamente nada. O artigo menciona que isso foi “uma grande fraude na ciência”, mas que a tradução retardada do Terra traduziu como “uma grande fraude da ciência”. Aliás, é um artigo interessante, ainda mais que ele exprime algo que nós, difusores do pensamento científico, tanto adoramos: provas e evidências. E foi justamente isso que os dois pseudo-exploradores não apresentaram.

Tudo começa há 100 anos, quando Cook e Peary retornaram do Ártico, cada um com uma história sobre ter conquistado o Pólo Norte. Nenhum deles forneceu qualquer prova sólida ou testemunha de prova, ambos contaram histórias com grandes lacunas. Eles não conseguiram sequer explicar convincentemente como planejaram suas rotas através do gelo polar. Apesar disso, cada explorador atraiu uma leva de apoiadores e nenhuma prova de contradição nos anos seguintes foi o bastante para dissuadir essas pessoas de sua crença.

É de ficar espantado como as pessoas podem acreditar em qualquer coisa que falam, sem exigir provas, evidências ou qualquer mínima coisa que sustente argumentos; de preferência um relato sem nenhum tipo de contradição ou absurdo. O artigo de Tierney deixa claro que de princípio a onda de “aplausos”, digamos assim,começou principalmente por causa dos jornais (hohoho), loucos por um furo de reportagem; eu fico imaginando como o mundo seria chato sem estas manchetes bombásticas, prontas para atrair qualquer pára-quedista de notícias que ficam gravitando por aí, e olhe que não existia o Google naquela época, mas pessoas idiotas sim. Por sinal, recomendo o outro artigo de Thierney: How Dr. Cook Scooped The Times.

Cook contou sua aventura ao jornal The New York Herald (que também deve ter algum vestígio de indigestão ao se lembrar do episódio), e este dedicou sua primeira página inteira à notícia: “Combatendo a fome e o gelo, o corajoso explorador alcança seu grande objetivo”. Fantástico, não? Dias depois, Peary informou sua conquista ao NYT, que ajudou a patrocinar a expedição. O NYT saudou seu triunfo, anunciou que “o mundo aceita sua palavra sem sombra de hesitação” e citou Peary denunciando Cook como uma fraude que “simplesmente entregou ao público um ouro de tolos”, mesmo porque nunca vi um adversário falar bem do outro, a não ser quando miraculosamente se tornam aliados. A política é um exemplo mais do que perfeito disso, apesar de não ser pretérito.

A onda de acusações mútuas começou, e ambos prometeram fornecer provas. Você forneceu alguma? Nem eles. Nenhum dos dois tinha em sua companhia um oficial de navegação e eles entendiam tanto disso como eu entendo de de tricô e bordado, se bem que eu seio que se usam linhas, o que me faz ter um conhecimento superior relativo.

Eu não vou repetir toda a reportagem de Tierney, basta vocês lerem que tá tudo lá (pode ser aquela tradução tosca do Terra, mesmo). Então, o ponto que eu quero chegar é: Afinal de contas, como as pessoas podem acreditar em qualquer bobagem que lhes contem? O nosso mundo de façanhas é fantástico, concordo. Há 20 anos eu jamais me imaginaria falando com pessoas do outro lado do mundo, sem gastar um centavo além da Banda Larga (banda larga? Ninguém sequer sonharia com isso há 20 anos!). Video-conferência? Ver uma pessoa a milhares de quilômetros de mim através de numa tela? Coisa de ficção científica. Escrever um texto e ele estar disposto instantaneamente a qualquer pessoa no mundo? Impossível! Pegar um aparelhinho de 10 cm de comprimento, no meio da rua, e ligar para qualquer um, sem fios nem nada, só em Jornada nas Estrelas. Se recuarmos no tempo veremos coisas tão assombrosas quanto as Grandes Pirâmides e pensar que aquilo foi erigido por homens comuns, sem os recursos tecnológicos de hoje. Um feito incrível!

Entretanto, as pirâmides ainda estão lá, no Egito. Eu posso tocá-las, ler suas inscrições, entrar naquele ambiente claustrofóbico e respirar o ar parado de lá de dentro. Não é uma fraude, eu posso vê-la e admirá-la. Quando vejo um frasco de penicilina e sei que ela foi a responsável por salvar milhões de vidas, desde que foi inventada, sinto orgulho de ver o desenvolvimento humano. Quando analisamos o DNA, desenvolvemos ligas metálicas, desvendamos o modo de como as espécies surgiram, enviamos seres humanos à Lua, observamos estrelas distantes de nós, mas tão distantes que suas luzes demoram milhares de anos para chegar até nossos olhos, temos a certeza que o mundo é realmente maravilhoso, e o Louis Armstrong não me deixa mentir. Só que para tudo isso ser conseguido, não ficamos unicamente batendo palmas, nós investigamos, examinamos as evidências demonstradas, estudamos as provas, tentamos repetir o processo e , depois de tudo isso, temos a certeza da veracidade. Isso é fazer Ciência, é ampliar o horizonte de nossas mentes.

Não podemos simplesmente aceitar qualquer coisa porque nos convém. O NYT aceitou a palavra de Peary unicamente por acusar Cook de estar mentindo, devido ao fato deste ser patrocinado por um jornal rival. O Herald aceitou o de Cook, para mostrar que Peary, o explorador “do concorrente”, estava errado. Uma briga de vaidades e interesse comercial pura e simples. Não havia nada de científico aí. Não houve revisão de pares, não houve um escrutínio sério, não houve NADA! O que houve foi aceitar piamente a palavra de alguém que afirmou, sem nenhuma prova, numa falácia estupenda do tipo “acredite em mim, eu jamais mentiria”. Isso lhes lembra alguma coisa? Leiam os comentários quando tentam nos refutar. Quantas vezes apareceram aqui pessoas dizendo que o primo do cunhado da lavadeira de um cara que estudou até a quinta série disse que a Evolução não existe e, por isso, devemos aceitar, pois foi tudo obra de um deus que não tinha muito o que fazer para criar tudo de repente. E numa criação para lá de porca, dada as diversas barbeiragens existentes, que seriam impossíveis de terem acontecido se fossem feitas por alguém perfeito.

Sim, o ceticismo é importante. Fé, o ato de acreditar em qualquer coisa sem provas, simplesmente porque queremos acreditar, é algo fora de propósito. Quando afirmamos algo aqui, embasamos com provas, bibliografias, evidências. Elas podem estar erradas? Claro que podem! Não somos donos da verdade. Mas enquanto não provarem que estamos errados, enquanto não trouxerem as provas que tanto pedimos, enquanto ficarem no blábláblá, usando livros que justifiquem a si mesmos como prova incontestável, apresentando erros grotescos em seu conteúdo, permaneceremos em nossas posições, mesmo que achem que isso é arrogância. Arrogância é alegar que a outra pessoa está erada sem prova nenhuma, sem ao menos querer provar que estamos errados. Mas como vai querer provar a veracidade de algo sabendo que não há provas? Em que ficamos? Fé? A mesma fé quie poderemos usar para “provar” qualquer coisa? Muito bem, não foi nem Cook nem Peary quem primeiro chegou no Pólo Norte. Fui EU! Aceitem isso, afinal eu jamais mentiria, certo? É como alegar “Odin não existe porque Ganesh é o verdadeiro Deus”. Uau, que exemplo de retórica. Eu digo que não foi nem Odin, Ganesh, Krishna, Hórus e nem o carpinteiro desempregado. O verdadeiro Deus sou Eu. Ajoelhem-se perante mim, mortais!

Alegar qualquer coisa a qualquer tempo, sem provas, é muito fácil. Você pode experimentar, claro. Mas eu aceitarei suas verdades “incontestáveis” sem prova, da mesma forma que você terá que aceitar as minhas provas “incontestáveis” sem provas, mesmo que elas lhe contradigam. Que tal?

Cook, Peary e tantos outros enganadores espalhados por aí são um perfeito exemplo do que não devemos seguir. Até mesmo maus exemplos podem servir para algo bom. Servem para mostrar o que não devemos ser, e como não devemos agir. Na Ciência não há lugar para alegações vazias, apelos à autoridade, frases soltas coletadas nos Googles da vida. Ciência séria se faz com investigação acurada, exame de tudo que pode servir de evidência, de modo que possa ser admitida como prova. ISSO é Ciência; o resto não passa de charlatanismo barato.

Um comentário em “A conquista do Pólo Norte e os problemas de acreditar sem provas

  1. Estou decepcionado.
    Ainda não apareceu nenhum tosco, para dizer que a ciência é coisa do homens, e cheia de fraudes, que por isso devemos adorar as lendas da Era do Ferro? Ou que a Evolução, o pouso na Lua e a teoria do Big Bang são fraudes?
    Talvez os toscos estejam estudando, ou mais possivelmente, passaram a viver como tribos nômades, no deserto. :roll:

    De qualquer modo, esse caso é um bom exemplo do poder da mídia/capital, sobre o imaginário das pessoas, e da necessidade do peer review.
    Apesar do título com “fraude” e “ciência”, acho que a parte de “acreditar sem provas” (alguém pensou em “fé”?) é mais importante, afinal, como o autor disse, qual a importância desse “feito”, para o conhecimento científico? Talvez signifique algo, para os românticos, que acreditam em intrépidos aventureiros, mas para a ciência, é um nada.

    “Com nossas faculdades racionais silenciadas, às vezes, evidências indesejadas não chegam a ser registradas, ou usamos uma lógica admirável para contornar os fatos.”(do artigo do Terra)
    Espero que, um dia, os crias entendam que sofrem disso.

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