Pesquisadores indianos descobrem mais coisinhas interessantes em Marte

Durante décadas, a imagem popular de Marte foi a de um deserto vermelho, parado e silencioso, uma sala de espera cósmica onde nada acontece além de poeira e de Matt Damon plantando batatas. Só que planetas, mesmo os que parecem mortos, têm clima, e clima é sempre mais agitado do que a aparência sugere.

É disso que trata um estudo recente liderado por cientistas da Índia, em parceria com universidades dos Emirados Árabes Unidos. É tipo uma mistura de dança do ventre estilo dancinha de Bollywood, pegando o melhor deles: no caso, a matemática. Pensa só a zona que ficaria passinho de Bollywood com dança do ventre (mandem o vídeo pro meu inbox).

O dr. Syed Aftab Haider é um renomado cientista indiano, Professor Sênior e Cientista Honorário da Divisão de Ciências Planetárias no Physical Research Laboratory (PRL) em Ahmedabad, Índia. Sim, eu peguei do site deles, mas o cara é foda, mesmo (não liguem pro site padrão anos 90). Haider dedica mais de duas décadas à modelagem da atmosfera marciana, e agora divide a pesquisa com Siddhi Y. Shah e Gayatri J. Sharma, também do PRL, e com Dimitra Atri, da New York University Abu Dhabi, e Tariq Majeed, da American University of Sharjah. Não, não vai ter link pra eles. Estou com dor nas costas e me deu preguiça (sim, sério)

Os pesquisadores acompanharam o humor térmico de Marte em duas de suas maiores cicatrizes: as bacias de impacto de Hellas e Argyre. Mapearam como a temperatura da superfície muda com as estações, com a hora do dia, com a latitude e com ondas atmosféricas gigantes que dão a volta no planeta. O resultado desmente a fama de monotonia do vizinho.

Os dados vieram da sonda Hope, dos Emirados Árabes Unidos (o gentílico é qual? emiradoarabunadense? Não precisam me informar), lançada em julho de 2020 e em órbita marciana desde fevereiro de 2021. A bordo está o EMIRS (eu vi o que vocês fizeram), um espectrômetro infravermelho feito para medir temperatura e acompanhar poeira, vapor d’água e gelo na atmosfera baixa e média. A Hope segue uma órbita elíptica, entre 20 mil e 43 mil quilômetros, com um giro de cerca de 55 horas, e por isso enxerga grandes pedaços do planeta em horários locais diferentes.

É como um fotógrafo que não se contenta em visitar o mesmo lugar sempre às três da tarde. Em um trabalho anterior, medições do EMIRS já tinham sido comparadas com as dos rovers Curiosity e Perseverance; neste estudo, o contraste principal é com o Mars Climate Database.

Hellas e Argyre ficam no hemisfério sul. Hellas, centrada por volta de 42°S e 70°E, é um buraco de cerca de sete quilômetros de profundidade e mais de dois mil quilômetros de diâmetro, um dos pontos mais baixos do planeta. É o tipo de lugar que dá à atmosfera um relevo pelo qual tropeçar.

As temperaturas de superfície observadas foram de uns –123 °C a quase 22 °C, uma variação de cerca de 145 °C. Em médias sazonais, o verão pode chegar perto de 27 °C e o inverno, a cerca de –113 °C. Para comparar, é como sair de um freezer industrial e entrar num dia de primavera, só que sem casaco e sem ar para respirar. Parte disso vem do ritmo das estações: a órbita de Marte é bem elíptica, e o verão no sul chega com o planeta mais perto do Sol.

A estação, porém, não explica tudo. Os pesquisadores viram que o comportamento térmico nas duas bacias não é ditado apenas pelo calendário, e é aí que entram as ondas zonais. Imagine a temperatura ao longo de um círculo de latitude como uma ondulação, e conte quantas cristas ela tem ao redor do planeta. Em Argyre domina o padrão de onda 1, uma crista só. Em Hellas, mais temperamental, aparecem os padrões de onda 2 e onda 3, conforme a estação.

Haider e sua galera da pesada atribuem a diferença à profundidade enorme e à topografia peculiar de cada bacia, que moldam a circulação do ar como pedras moldam um rio. A equipe também confrontou as observações com as previsões do Mars Climate Database, uma das ferramentas mais usadas por quem modela o clima marciano; o modelo acompanha o padrão geral, mas costuma ficar cerca de 10 °C mais frio do que o EMIRS.

No fim, a lição é simples e meio humilhante: Marte não é um cenário estático de ficção científica, é um planeta com atmosfera tênue, mas com um temperamento complexo, que inspira, expira e muda de humor entre uma cratera e outra. E tudo isso foi mapeado por uma sonda dos Emirados com análise liderada na Índia, enquanto a gente ainda briga para acertar a previsão do tempo da semana que vem na Terra.

A pesquisa foi publicada no periódico Current Science.


PS. Traci Charles: cientista da NASA e dançarina de dança do Ventre

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.