A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto

Eu fui numa feira de antiguidades uma vez (obrigado, óbvio. Eu sou apenas o marido e sou que nem criança: vou para onde me levam). Eu não entendo como alguém pode gostar de coisa velha (exceto na hora de comprar celular, cortinas etc), daí fica-se um tempão olhando aquilo, principalmente sabendo que é ótimo na loja, mas ninguém vai comprar aquelas monstruosidades. É um imenso tempo perdido e, claro, você vai ler o primeiro parênteses e entender como fui parar lá.

Inexoravelmente (eu sempre busco alguma forma de colocar “inexoravelmente” num texto, e quase nunca consigo) você vai encontrar aquele item de péssimo gosto que ninguém quer: o bicho empalhado torto, de olho esbugalhado, que alguns compram por causa de altas concentrações de álcool no sangue e visando fazer rir o vizinho também altamente alcoolizado. Então, por mero e ridículo capricho do Destino (que eu acho que TAMBÉM estava alcoolizado), alguém tira a sorte grande.

Imaginem que um Zé Ruela vai num brechó desses, vê uma cabeça empalhada de “raposa”, acha excelente ideia e leva pra casa porque… sim. Um troço parecendo ter saído de um desenho animado, com olhos de plástico esbugalhados e um sorriso torto que parecia saído de um desenho feito por alguém tendo uma convulsão, foi comprado por cerca de 50 libras numa feira de antiguidades britânica, motivo confesso: fazia rir. Ninguém ali suspeitava que estava rindo, literalmente, na cara de uma espécie extinta há quase um século.

Não se sabe com detalhes como o troço foi parar num leilão da Auctioneum, em Bristol, catalogado com o mesmo desdém taxonômico de sempre: “cabeça de raposa, século XIX”. O taxidermista e negociante de relíquias James Cranfield, especializado em colecionar cabeças de raposa esquisitas justamente para mostrar a diversidade (involuntária) da taxidermia amadora, topou com o anúncio rolando um site de leilões e sentiu aquele arrepio de detetive de Baker Street diante de uma pista mal disfarçada.

A cabeça era grande demais (coloque aqui o meme “that’s what she said”), o formato estranho demais, para ser só mais um cachorro de fazenda empalhado com pressa. Então, Cranfield fez o que qualquer bom investigador faria: contou dentes, e eu mesmo não acredito que eu escrevi “qualquer bom investigador faria”. Eu estou muito poético e otimista hoje.

Raposas e cães têm seis incisivos superiores entre os caninos, e aquele bicho tinha oito! E só um grupo de animais no planeta exibe essa contagem peculiar: os marsupiais carnívoros, entre eles o tilacino, o extinto tigre-da-Tasmânia, morto oficialmente como espécie em 1936, quando o último exemplar conhecido expirou sozinho num zoológico de Hobart, vítima de um extermínio colonial tão eficiente quanto desnecessário, movido a caça recompensada e ao pânico infundado de fazendeiros que o acusavam de comer ovelhas que provavelmente morriam por outros motivos.

Cranfield não foi o único a notar a incoerência dentária. Um segundo negociante chegou à mesma conclusão de forma independente, e os dois entraram numa disputa de lances que durou vários minutos até Cranfield arrematar o lote no valor de 62 mil libras (ou 429,5 mil reais) só para ter aquela cabeça esquisita; é um daqueles raros momentos em que a ganância humana e a ciência genuína caminham exatamente na mesma direção, sem uma saber da outra.


Vem com papai!

Depois de arrematar a peça, e de vender parte da própria coleção e do estoque da loja só para cobrir o rombo no bolso, Cranfield fez o óbvio: levou a cabeça para tomografia e raio-X, porque comprar um crânio pelo preço de um carro usado só com base em contagem de dentes exige, no mínimo, uma segunda opinião. O exame confirmou: crânio de tilacino praticamente intacto por dentro da pele mal curtida por fora, um daqueles casos em que a embalagem falha espetacularmente em vender o produto.

O resultado é hoje classificado como um dos espécimes mais importantes já vendidos em leilão nessa categoria, existem apenas 756 exemplares conhecidos de tilacino no mundo, e só 101 são peças de taxidermia completas, a maioria trancada em museus e coleções institucionais. Ter uma cabeça montada inteira circulando fora desse circuito é tão raro quanto achar uma primeira edição autografada numa banca de sebo.

A peça já entrará no banco internacional de espécimes de tilacino, e cientistas, inclusive da Colossal Biosciences (a mesma empresa que promete trazer de volta mamutes-lanosos e dodôs, com todo o debate ético que isso já carrega), vão coletar amostras de DNA, ainda que ninguém espere ali uma revolução genética: o material deve, no máximo, ampliar um pouco o catálogo conhecido da diversidade da espécie.

Quanto aos olhos de plástico ridículos e à testa deformada de tão mal empalhada, Cranfield decidiu não mexer em nada. Como ele mesmo resumiu, tentar consertar aquilo agora seria como passar maquiagem numa múmia: o resultado nunca vai ficar bonito, só menos honesto (e vai tirar o valor da bagaça).

E talvez seja essa a moral mais elegante de toda a história: você pode ser feio e desconjuntado, mas alguém pode se fascinar pela sua feiúra e comprá-la caro para decorar a estante. Só não sei se era bem essa a mensagem que eu estava pensando, agora já era. Acabou o texto!


Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!

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