Cientistas estudam o soninho da Dona Aranha

Não é todo dia que vemos o alvorecer e a chegada de um prêmio IgNobel. É sempre uma satisfação ver a História ser escrita quando pesquisas com um quê de bizarras sendo descortinadas na nossa frente. Como exemplo, podemos citar cientistas que passam dias e noites filmando aranhas em pratos de plástico para descobrir se elas dormem. É, pois, é! É o que universidades financiam, enquanto os chefes ainda marcam reunião às 8h. O pior é que o resultado mostrou que as aranhas dormem melhor do que muita gente que você conhece. Bem… dormem melhor que eu, posso garantir isso. Deve ser os boletos. Continuar lendo “Cientistas estudam o soninho da Dona Aranha” →

O coral branquinho que apelou para o colorido

Nas profundas profundezas, ocorre um tipo de tragédia que acontece em câmera lenta e que quase ninguém vê com o drama que merece: o branqueamento dos corais. Quando a água esquenta além do que o bicho aguenta, ele expulsa as microalgas que moram em seus tecidos e que lhe fornecem a maior parte da energia. Sem elas, o coral fica branco como um fantasma e passa fome. Muitas vezes morre, soterrado por algas oportunistas que aparecem para o velório e ficam com o imóvel.

Recuperar-se disso é possível, mas lento. Os sobreviventes dependem de algumas algas remanescentes que se multipliquem, ou de captar as que flutuam pela água e pelos sedimentos, em quantidades minúsculas. Tudo isso leva meses. Para um coral em crise, é como esperar o Bolsa Família chegar de pombo-correio. Pois, bem, cientistas acabam de descrever um atalho tão simples que quase soa como piada: encostar o coral doente num saudável. Continuar lendo “O coral branquinho que apelou para o colorido” →

O Navio de Teseu das abelhas

Biólogos são criaturas fascinantes. Eles passam mais de um século tentando responder uma pergunta que parece simples: onde termina um organismo e começa uma sociedade? Parece até algo que aquela inutilidade chamada Filosofia diria, mas biólogos realmente levam a sério e a pergunta é direta e precisa, não alguma bobagem metafísica. Em 1910, William Morton Wheeler olhou para um formigueiro e viu operárias e rainha funcionando como tecidos diferentes de um mesmo corpo. A ideia de “superorganismo” pegou. A colmeia, nessa leitura, deixa de ser um grupo de insetos e vira um único bicho com milhares de células aladas e o sistema reprodutivo entregue a uma única fêmea.

Pois bem: se a colmeia é um organismo, ela tem ciclo de vida, nasce, cresce, se reproduz e morre, certo? Errado, ou pelo menos esse “certo” nunca foi consenso. Uma revisão científica recém-publicada resolve atacar a questão de frente e propõe que boa parte da literatura sobre abelhas melíferas trocou pais por filhos e passou décadas medindo o ciclo de vida de uma entidade que, em essência, estava de cabeça para baixo. Continuar lendo “O Navio de Teseu das abelhas” →

A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto

Eu fui numa feira de antiguidades uma vez (obrigado, óbvio. Eu sou apenas o marido e sou que nem criança: vou para onde me levam). Eu não entendo como alguém pode gostar de coisa velha (exceto na hora de comprar celular, cortinas etc), daí fica-se um tempão olhando aquilo, principalmente sabendo que é ótimo na loja, mas ninguém vai comprar aquelas monstruosidades. É um imenso tempo perdido e, claro, você vai ler o primeiro parênteses e entender como fui parar lá.

Inexoravelmente (eu sempre busco alguma forma de colocar “inexoravelmente” num texto, e quase nunca consigo) você vai encontrar aquele item de péssimo gosto que ninguém quer: o bicho empalhado torto, de olho esbugalhado, que alguns compram por causa de altas concentrações de álcool no sangue e visando fazer rir o vizinho também altamente alcoolizado. Então, por mero e ridículo capricho do Destino (que eu acho que TAMBÉM estava alcoolizado), alguém tira a sorte grande. Continuar lendo “A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto” →

A vida secreta e barulhenta dos répteis

Passamos décadas acreditando numa fábula reconfortante: a de que répteis são bichos de poucas palavras, quase monges zen do reino animal, gastando a vida entre um banho de sol e outro sem fazer alarde. Aves cantam para tudo quanto é lado, mamíferos latem, rosnam e berram por qualquer motivo (inclusive nenhum), mas cobra, lagarto, jacaré e tartaruga sempre ficaram no papel de figurantes silenciosos, quase um cenário reptiliano estático. Pois bem, essa imagem serena está desmoronando mais rápido do que uma resolução de ano novo. Continuar lendo “A vida secreta e barulhenta dos répteis” →

Cocô providencial causou explosão de vida na Terra

Há coisas que a humanidade prefere não discutir à mesa do jantar, e o topo dessa lista é ocupado, invariavelmente, por aquilo que sai do corpo depois que a comida termina sua jornada. Trocamos de assunto, torcemos o nariz, e seguimos em frente falando de coisas semelhantes: eleições; no final das contas, ambos acabam sendo a mesma coisa, com a diferença que o cocô propriamente dito é um mero detalhe biológico sem maiores consequências, já que ele não faz leis, não promulga leis e nem te faz conviver com outros iguais a ele.

A Ciência, com seu talento peculiar para nos constranger, acaba de sugerir o contrário: sem excremento, você provavelmente não estaria aqui lendo isto, nem eu escrevendo, nem praticamente nada com sistema nervoso central estaria fazendo o que quer que seja em lugar nenhum do planeta. Sim, o mundo tá aqui do jeito que conhecemos por causa de uma tempestade de merda. Literalmente!

E sim, farei todo tipo de piada deprimente, depressiva, deplorável e digna do melhor da pior Quinta Série! Continuar lendo “Cocô providencial causou explosão de vida na Terra” →

O dinossauro nanico que explica os grandes predadores

Se você pensa que o Brasil só exporta bicho grande, indesejado e fedido como nossa política tributária, revise seus conceitos. Aqui tem dinossauro, e não estou falando de um monte de velharia na política. O Rio Grande do Sul, que já vinha acumulando currículo respeitável como celeiro de arcossauros triássicos (basta lembrar que ali nasceram os primeiros dinossauros conhecidos do planeta, os Staurikosaurus e companhia), acaba de somar mais um nome à lista.

Dessa vez, o fóssil não é um monstro de sete metros pronto para estrelar documentário com trilha sonora épica. É um bichinho do tamanho de um jacaré pequeno, com ossos contados nos dedos de uma mão, e ainda assim capaz de reorganizar um pedaço inteiro da árvore genealógica que separa, ou melhor, que une, crocodilos e dinossauros.

Sim, até dinossauro no Brasil acaba sendo chinfrim. Continuar lendo “O dinossauro nanico que explica os grandes predadores” →

O Zoológico da Masmorra

O Reiuno Unido recebe cerca de 37 a 38 milhões de turistas internacionais por ano.Claro, quem passa por Londres não deixa de passar pela Torre de Londres, e muitos que passaram por Londres no passado iam parar na Torre, mas contra a vontade. Acontece que a Torre tem um quê de pitoresco que as pessoas normalmente não sabem. Há uma pergunta que os guias turísticos da Torre de Londres deum modo geral não fazem, mas que merece ser feita: o que você faria se soubesse que, por mais de seiscentos anos, aquele complexo de pedra e terror que serviu de prisão, palácio e depósito das joias da Coroa também funcionou como zoológico?

A resposta correta é perguntar se os animais tinham celas melhores que os presos humanos. A resposta provável é que sim. Continuar lendo “O Zoológico da Masmorra” →

O crocodilão maligno que sonhava com hominídeos

Quando pensamos na evolução humana, costumamos imaginar nossos ancestrais enfrentando desafios grandiosos: aprender a caminhar sobre duas pernas, fabricar ferramentas, dominar o fogo e, eventualmente, dar origem a uma espécie capaz de construir arranha-céus, sondas espaciais e aplicativos para entregar hambúrgueres em quinze minutos. O que raramente aparece nessas narrativas é que, durante boa parte dessa jornada, nossos antepassados também precisavam lidar com um problema bastante básico: evitar ser devorados.

A pré-história costuma ser romantizada como uma aventura heroica rumo ao progresso. Mas a realidade provavelmente parecia menos um documentário inspirador e mais um episódio permanente de sobrevivência extrema. Há cerca de três milhões de anos, na região da atual Etiópia, os ancestrais humanos viviam em um ambiente onde beber água exigia a mesma cautela que hoje alguém teria ao abrir um e-mail com o assunto “urgente” enviado pelo chefe às seis da tarde de uma sexta-feira. Continuar lendo “O crocodilão maligno que sonhava com hominídeos” →

O Vale das Baleias Mortas

A humanidade tem um talento quase artístico para acreditar que já conhece o próprio planeta. Afinal, já fotografamos buracos negros, enviamos sondas para além dos limites do Sistema Solar e colocamos satélites suficientes em órbita para que uma geladeira consiga reclamar da velocidade da internet. É fácil imaginar que os grandes mistérios geográficos ficaram para trás, enterrados em alguma época em que exploradores navegavam usando mapas desenhados por pessoas que claramente estavam improvisando.

Mas a Terra adora destruir nossa confiança. Continuar lendo “O Vale das Baleias Mortas” →