
Os Teóricos da Educação passam a vida inteirinha tentando entender o sentido daquela coisa que muitos chamam de “magistério” eu chamo de “sofrimento”. Há décadas (séculos?) estão teorizando e se reunindo e pensando e debatendo o que significa ensinar em seu mais amplo significado; mas isso porque não conheceram Mrs. Sydney-Browning e sua forma de lidar com flatulências, eflúvios anais e crianças peidorreiras criando uma espécie de “Cantinho do Peidinho”.
Candy Sydney-Browning é uma professora do segundo ano de 36 anos, que leciona na Geórgia (o estado norte-americano, não o país). Pelo visto, seus alunos andam tendo problemas e desajustes com a fisiologia, mas Mrs. Sydney-Browning não é qualquer uma! Não, senhor! Ela resolveu o problema em três frases e um metro quadrado de carpete; e teve uma ideia tão simples que chega a doer no orgulho de quem gastou anos discutindo Pedagogia em congressos com crachá plastificado: um canto da sala reservado, oficialmente, para peidar.
Ela reservou um cantinho da sala e chamou de Gas Station, que fica difícil e traduzir poque, em português seria “Posto de Gasolina”, mas em inglês o trocadilho é óbvio. Eu preferi chamar de Cantinho do Peidinho, o lugar específico para onde os alunos vão, e é registrada como “área dos ventos fortes”. Como boa e zelosa mestra, Mrs. Sydney-Browning disponibilizou sprays de aromatizador de ar por perto.
A tal “Gas Station” (porque toda inovação precisa de um nome pomposo, mesmo quando envolve gases provenientes do interior de corpos não necessariamente em decomposição, mas que cheiram como se estivessem) nasceu de um problema muito mais chato do que flatulência: o tempo de aula desperdiçado. A professora notou que os alunos viviam pedindo para ir ao banheiro, o que, convenhamos, é o equivalente escolar de um pop-up de propaganda no meio do vídeo que você estava assistindo. Comofas?
Solução idealizada: banheiro coletivo antes da aula, todo mundo vai, ninguém interrompe depois. Só que existe um detalhe biológico que nenhum planejamento pedagógico havia previsto até então: crianças peidam. E, ao contrário dos adultos, que passaram a vida adulta aperfeiçoando a arte de fingir que não foi ninguém, crianças pequenas são de uma sinceridade devastadora sobre o próprio intestino.
Assim nasceu o canto sagrado: quem sentir o chamado da natureza se levanta, caminha discretamente até o local designado, resolve o assunto, e volta para o tapete sem precisar erguer a mão pedindo licença para se retirar (o que, convenhamos, é um nível de dignidade que a maioria dos adultos em reuniões de trabalho ainda não conquistou). Orgulhosa do seu feito, Mrs. Sydney-not_Sweeney-Browning postou orgulhosa o seu feito, o que prova que toda professorinha é de uma ingenuidade só!
A Internet, fiel ao seu papel histórico de transformar qualquer gesto de bom senso em debate filosófico, dividiu-se imediatamente. De um lado, aplausos: finalmente alguém normalizando uma função corporal tão universal quanto respirar, e livrando uma geração inteira do trauma silencioso que tantos adultos ainda carregam. Do outro lado, o pânico habitual: “e o resto da turma continua concentrada enquanto alguém está peidando no canto???”; pergunta, aliás, que diz muito mais sobre a capacidade de atenção dos adultos do que sobre a das crianças.
Teve gente confessando, nos comentários, que manda o próprio marido para um canto da casa depois do jantar, só percebendo tarde demais que estava fazendo tudo errado sem sequer uma placa de sinalização. Professores de outras escolas, contagiados pelo espírito, revelaram já ter armários e cantos equivalentes em turmas de ensino fundamental e médio, o que sugere que essa não é uma epidemia isolada, é praticamente um movimento de infraestrutura sanitária informal se espalhando pelo país inteiro, uma espécie de rede clandestina do bom senso.
Nem todo mundo comprou a ideia sem ressalvas, claro. Alguém ponderou que uma criança que frequenta o canto com regularidade suspeita pode virar alvo de piadas, o que é uma preocupação legítima (a crueldade infantil não tira férias). Outros duvidaram que os colegas seriam maduros o bastante para não fazer escândalo ao ver alguém atravessar a sala rumo ao destino óbvio.
Crianças… de segundo ano… maduras…
A resposta da professora a isso é, de longe, a parte mais inteligente da história: ela transformou o hábito em rotina exatamente para roubar da cena toda a graça. Porque, como qualquer um que já testemunhou o interesse morrer diante da repetição, sabe: nada mata uma piada mais rápido do que ela virar procedimento padrão. Quanto menos espanto o adulto demonstra, menos motivo a criança tem para caçoar.
Há, escondida nesse episódio digno de manchete de tabloide, uma lição de gestão de sala de aula que muito coordenador pedagógico engravatado ainda não aprendeu em nenhum curso de pós-graduação: às vezes, a forma mais eficiente de acabar com o circo é parar de montar a tenda. A professora não resolveu a flatulência infantil, ninguém resolve isso (culpem Darwin!), não é má vontade. O que ela resolveu foi o escândalo em torno dela.
E se isso não é uma metáfora perfeita sobre boa parte dos problemas que a humanidade insiste em tratar como catástrofe quando bastaria tratá-los como… bom, como um peido, eu não sei o que é.
