Caranguejo sem-vergonha agora tem adversário a altura: um polvo faminto

Toda invasão biológica tem um roteiro parecido: uma espécie pega uma carona indevida (geralmente na água de lastro de um navio, o Uber clandestino dos ecossistemas), desembarca num lugar onde ninguém a esperava, descobre um buffet livre de comida sem predadores à vista e começa a se multiplicar como se tivesse lido o manual de “Como Arruinar uma Economia Pesqueira em Três Passos Fáceis”.

No litoral do nordeste da Itália, esse papel está sendo interpretado com particular entusiasmo por um crustáceo americano de pinças afiadas, e a resposta que os italianos encontraram para lidar com ele é tão elegante quanto inusitada: soltar milhares de polvos bebês no mar e torcer para que cresçam com fome.

A história começa no Delta do Pó, uma vasta área de foz do rio Pó na Itália, localizada entre as províncias de Ferrara e Rovigo, no mar Adriático; é uma região que responde por boa parte da produção europeia de mexilhões e amêijoas, e que nos últimos anos vem sendo dizimada por um visitante indesejado. O caranguejo-azul (Callinectes sapidus), nativo da costa atlântica da América do Norte, chegou ao Mediterrâneo décadas atrás, provavelmente como clandestino em porões de navios. Por muito tempo, sua presença foi discreta; depois, as águas esquentaram, o clima mudou de humor e o bicho decidiu que aquele hotel improvisado merecia virar residência fixa, com direito a explosão demográfica. Hoje, estima-se que existam cerca de 200 milhões desses caranguejos só na Itália, segundo a associação de produtores rurais Coldiretti, e os prejuízos na região da Emilia-Romagna já passam de 17 milhões de euros desde 2022.

Para bancar a ofensiva biológica contra esse invasor, a Universidade de Bolonha colocou à frente do projeto o técnico em aquicultura Antonio Casalini, pesquisador do Departamento de Ciências Médicas Veterinárias (DIMEVET) da instituição, com trabalhos publicados sobre reprodução de enguias e ecologia de espécies aquáticas. Quem quiser bisbilhotar a sua produção acadêmica, checa lá o perfil dele no ResearchGate.

Muito bem, por que um polvo? Porque, ao contrário de armadilhas, venenos ou campanhas de “coma caranguejo-azul, salve a economia” (que também existem, diga-se), o polvo-comum (Octopus vulgaris) já é nativo do Adriático e tem um currículo invejável como caçador de crustáceos. A lógica é simples: em vez de importar mais um bicho exótico para resolver o problema de outro bicho exótico (erro clássico de quem já assistiu a qualquer documentário sobre sapos-cururu na Austrália), a equipe está reforçando a população de um predador que já pertence àquele ecossistema, só que em número insuficiente para dar conta do recado.

O projeto, batizado de “Octo-Blu” e financiado pela região da Emilia-Romagna desde o ano passado, funciona como uma maternidade marinha de alta tecnologia: os pesquisadores criam larvas de polvo em tanques num laboratório na cidade portuária de Cesenatico e, quando estão prontas, embarcam-nas aos milhares num barco de pesca rumo a recifes artificiais de cimento e argila, construídos especialmente para servir de toca aos recém-chegados.

Desde junho, mais de 130 mil paralarvas (filhotinhos de polvo, medindo poucos milímetros) já foram soltas no mar, com a meta de dobrar esse número até o fim de agosto. Um polvo adulto de um quilo, para se ter ideia da voracidade que se espera dele, é capaz de devorar até quatro caranguejos-azuis de porte médio por dia.

Nem tudo, porém, é tentáculo e vitória. O polvo-comum prefere fundos rochosos, e não as águas rasas, arenosas e mornas das lagoas onde o caranguejo-azul mais causa estragos, o que limita bastante seu alcance justamente onde a praga é pior. Os próprios pesquisadores admitem essa limitação, e por isso já cogitam reforços: robalos e enguias, que têm gosto especial por ovos de crustáceo, entram como plano B (ou plano complementar, para ser justo com os polvos). O maior desafio de todos, aliás, nem é biológico, é aritmético: uma única fêmea de caranguejo-azul pode produzir milhões de ovos, o que torna qualquer estratégia de contenção uma corrida contra uma capacidade reprodutiva quase absurda.

Ainda assim, se o modelo funcionar e for replicado em outros trechos da costa, o projeto pode ajudar a conter, ainda que parcialmente, o avanço do caranguejo-azul e seus efeitos sobre o ecossistema marinho do Adriático. Não é a solução definitiva, mas é um bom lembrete de que, às vezes, a melhor tecnologia contra uma invasão biológica não vem de laboratório nenhum: já estava lá, nadando por perto, esperando um empurrãozinho.


Fonte: Time dos Japa, digo, Japan Times

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