Confundiram um pedregulho voador com um míssil

No domingo (08/03) à tarde, enquanto boa parte da Europa estava tranquilamente de pantufas e ocupada arranjando um motivo para não entrar em guerra com o Irã, um objeto de alguns metros de diâmetro cruzou o céu. Geral ficou com o símbolo do cobre na mão, e se você acha que eu escrevi isso porque tenho medinho de escrever cu, errou redondamente, tão redondo quanto o seu cu. Quer dizer, acho que ele é assim, não sei, não me interessa.

O que me interessa mesmo é que um pedregulhão espacial, com bilhões de anos de estrada acumulados, muita milhagem a ponto de estar em sala VIP de Guarulhos (que merda, eu sei) e absolutamente nenhum interesse em geopolítica, decidiu que Koblenz, cidade simpática no estado alemão da Renânia-Palatinado, seria um destino razoável. O Cosmos, como de costume, não consultou ninguém.

Por volta das 14h55min do domingão, dia das muié, uma intensa bola de fogo cortou o céu europeu, deixando um rastro de fumaça e brilhando por aproximadamente seis segundos, tempo suficiente para ser avistada por moradores da Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo e Holanda, e ainda mais do que suficiente para os tuiteiros entrarem em colapso nervoso coletivo. Moradores descreveram o fenômeno como um “objeto voador brilhante com um breve rastro de fogo”.

Carolin Liefke, vice-diretora da Casa da Astronomia em Heidelberg, disse ter avistado o corpo celeste por acaso e descreveu a experiência com o entusiasmo típico dos alemães que falam com a satisfação de quem pinta uma parede, senta e vê a tinta secar: “Foi um belo espetáculo luminoso. Foi possível observá-lo durante vários segundos.” Cientistas, às vezes, têm esse dom de fazer o extraordinário soar como uma tarde qualquer.

Um fragmento do meteoro (se está “voando” pelo Espaço, é asteroide, se entra na atmosfera da Terra é meteoro. Caiu no chão, é meteorito) acertou o telhado de uma casa, deixando um buraco do tamanho de uma bola de futebol em um dos cômodos. Não houve feridos. Benjamin Marx, chefe da operação do Corpo de Bombeiros local, confirmou que havia pessoas no edifício, mas não dentro desse cômodo específico. O Universo, portanto, além de pontual, foi misericordioso. Os bombeiros de Koblenz também descartaram qualquer perigo de substâncias radioativas ou químicas após examinarem o fragmento. Uma pedra de bilhões de anos, sem agenda política, sem ogiva, sem nota diplomática prévia.

Aqui é onde a história ganha o seu sabor mais peculiar. Relatos surtados nas redes sociais no momento do ocorrido descreviam “medo” com um possível míssil iraniano, em meio à Guerra no Oriente Médio. Sim: uma pedrona espacial em queda livre, obedecendo a São Newton há mais de trezentos anos, foi imediatamente recrutada pelo imaginário coletivo para integrar um conflito armado contemporâneo. Em Stade, na Baixa Saxônia, a polícia chegou a receber relatos de uma possível queda de peças de aeronaves, enviou um grande contingente, acionou um helicóptero naval e drones, e não encontrou absolutamente nada.

Aqui o “míssil”:

A ESA, a Agência Espacial Europeia, logo descartou qualquer possibilidade de ameaça artificial (aka míssil ou qualquer outra coisa que faz Kabum intencionalmente), e sua equipe de Defesa Planetária foi acionada para estimar o tamanho do objeto, calculado em alguns metros de diâmetro. Defesa Planetária soa como algo saído de um filme dos anos 1990, mas é um serviço real e, pelo jeito, bastante necessário para lembrar às pessoas que nem todo clarão no céu é culpa de Teerã. Objetos desse tamanho atingem a Terra com uma frequência de uma vez a cada poucas semanas, o que significa que a Terra está sendo constantemente visitada por detritos cósmicos e que, na maioria das vezes, ninguém percebe, porque caem no oceano ou em lugares desabitados, longe das redes sociais.

Especialistas lembram que esses fragmentos têm origem principalmente no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter e podem carregar bilhões de anos de história, sendo restos da própria formação do Sistema Solar. Quatro bilhões de anos viajando pelo Espaço para acabar num quarto qualquer em Koblenz e ser confundido com um ataque, para depois verem que não é nada disso e causar frustração geral.

Na Alemanha, o último impacto significativo havia ocorrido em abril de 2023, quando vários fragmentos de um meteorito caíram em Elmshorn, e o maior deles, pesando 3,7 quilos, foi considerado o maior fragmento encontrado no país em cerca de 100 anos. Três anos depois, o cosmos voltou, desta vez com menos cerimônia e mais dano estrutural. Não há moral aqui, apenas física, um telhado danificado e a certeza reconfortante de que, enquanto os humanos debatem quem vai atacar quem, o Universo segue seu próprio calendário, que não inclui feriados, cessar-fogo nem notificações de imprensa.


Fonte: DW

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