
Acho que, na psique das pessoas, quando você fala “Estados Unidos”, todo mundo pensa na Estátua da Liberdade e na própria Nova York, um ícone de civilização ocidental. Eu posso assegurar que ninguém pensa em Pascagoula, Mississippi, quando se fala na Murica. O que as pessoas não sabem é que, em 1860 o prefeito de Nova York andava de ovo virado e resolveu transformar a maior metrópole americana num paraíso comercial sem compromisso com ninguém além do próprio lucro. E olha, quase deu certo.
Fernando Wood nasceu na Filadélfia em 14 de junho de 1812. Ele foi o tipo de político que justificaria a frase de Tom Clancy sobre a ficção precisar fazer sentido e a realidade não. O cara serviu como prefeito de Nova York em três mandatos não consecutivos e depois emendou 16 anos na Câmara dos Representantes, onde presidiu o poderoso Comitê de Meios e Recursos. Fernando (eu não traduzi o nome; é esse mesmo) enriqueceu transportando mercadorias para a Califórnia durante a corrida do ouro e especulando com imóveis, sendo tão habilidoso nas negociações que até o lendário Boss Tweed (que praticamente inventou a corrupção política profissional) admirava sua capacidade de sempre chegar primeiro aos melhores terrenos.
Nandinho era descrito simultaneamente como o homem mais bonito e o mais corrupto a ocupar a cadeira de prefeito (não necessariamente nessa ordem), o que é uma combinação fascinante de “qualidades”, além disso, era basicamente uma contradição ambulante: defendia causas progressistas como a preservação do Central Park, mas estava envolvido em corrupção até o pescoço.
Quando o governo estadual tentou assumir o controle da polícia metropolitana em 1857, sua resposta foi simplesmente criar sua própria força policial rival, resultando em batalhas literais entre policiais nos degraus da prefeitura. Durante a Guerra Civil, liderou os “Copperheads” (democratas pela paz) e propôs transformar Nova York numa cidade-estado independente chamada “Tri-insula”, e é aqui que nossa história começa.
A fratura cultural vinha se aprofundando havia séculos. De um lado, Nova York City, fundada pelos holandeses em 1624 como um entreposto comercial cosmopolita onde a diversidade era menos idealismo e mais necessidade pragmática. A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais não estava exatamente interessada em pureza étnica ou religiosa quando se tratava de fazer dinheiro. O resultado foi uma sociedade onde conviviam católicos irlandeses e portugueses, judeus sefarditas, luteranos escandinavos, quacres ingleses, africanos livres e escravizados, e até um fazendeiro muçulmano do Marrocos.
Há quem diga que os Ingleses inventaram o capitalismo moderno, mas os holandeses se tornaram mestres no jogo, e foi neste lugar onde Jan Aertsen Van der Bilt, um servo contratado, pôde se tornar o primeiro Vanderbilt, porque status social ali era questão de quanto você acumulava, não de quem eram seus antepassados. Holandeses eram muito mais pragmáticos que ingleses no tocante a dinheiro.
Por outro lado, espalhados pelo interior do estado de Nova York, estavam os descendentes dos puritanos da Nova Inglaterra. Aquele pessoal que, dois séculos antes, tinha decidido criar uma sociedade perfeita no meio da floresta e, para isso, achou necessário enforcar quacres, expulsar dissidentes e atacar indígenas (de novo, não necessariamente nesta ordem), como bem preza os ensinamentos do Príncipe da Paz, o Maravilhoso Conselheiro. Eu ouvi um “amém”?
Na segunda metade do século XIX, os herdeiros culturais dos puritanos ainda mantinham o mesmo fervor missionário, só que agora direcionado para projetos sociais utópicos. O interior de Nova York era o epicentro do “Burned-Over District”, um laboratório de experiências religiosas e sociais que gerou o Mormonismo, o Adventismo do Sétimo Dia e a comunidade Oneida (famosa pelo amor livre, o que é ironicamente libertino para descendentes de puritanos). Foi de lá que saiu o movimento sufragista em Seneca Falls e por onde passavam as rotas da Ferrovia Subterrânea que libertava escravos.
Dá para ver o problema, certo? De um lado, uma cidade comercial que tolerava praticamente tudo desde que fosse lucrativo. Do outro, uma região rural que queria consertar o mundo inteiro segundo princípios morais bem específicos. Nova York alinhava-se com o Partido Democrata pró-escravidão do Sul. O interior abraçava o novo Partido Republicano abolicionista de Lincoln. Era como forçar um bar que toca Funk Proibidão dividir o mesmo edifício com uma igreja evangélica linha-dura. Tecnicamente possível, mas ninguém ia ficar feliz.
As tensões explodiram em 1857 quando os Yankees do interior, usando suas maiorias legislativas, aprovaram leis restritivas sobre venda de bebidas alcoólicas e, mais grave, assumiram o controle da Polícia Metropolitana de Nova York, do porto e das principais obras públicas da cidade. Lembra quando eu falei que prefeito Wood criou a sua própria força policial rival? Quando a Polícia Metropolitana chegou para prender Wood por incitar motim, os policiais dele entraram em combate físico com os metropolitanos nos degraus da prefeitura. Era literalmente uma batalha campal entre duas forças policiais na mesma cidade. Se você acha que as tretas políticas contemporâneas são intensas, bem-vindo a 1857.
Quando Lincoln venceu em 1860 sem conquistar um único condado do estado de Nova York ou no Sul, Wood viu sua chance. O prefeito começou a realizar reuniões secretas de planejamento da secessão em sua mansão no que hoje é o Upper West Side. Os convidados eram ninguém menos que William Astor (magnata imobiliário), August Belmont (financista) e Samuel Tilden (peso-pesado do Partido Democrata). George Law, outro aliado poderoso, foi enviado a Washington para reunir apoio da delegação congressual da cidade. Enquanto isso, funcionários preocupados em Albany instruíram o superintendente da Polícia Metropolitana a espionar os planos do prefeito. Jornais oposicionistas começaram a receber vazamentos. Em dezembro de 1860, o plano estava completamente exposto.
No dia 10 de dezembro, o congressista Daniel Sickles fez um discurso inflamado no plenário da Câmara. “A secessão, embora possa começar no Sul, não terminará no Sul. Não há simpatia agora entre a cidade e o estado de Nova York”, declarou. E continuou: “Quando esta União não existir mais, não consentiremos em permanecer o apêndice submisso de uma província puritana. Esta cidade imperial repelirá o odioso conluio de Albany, que há tanto tempo abusa de seu poder sobre ela, e como cidade livre, abrirá amplamente seus portões para a civilização e o comércio do mundo.” É aquele tipo de discurso que faz você imaginar alguém rasgando documentos dramaticamente enquanto música épica toca ao fundo.
Em janeiro de 1861, Wood oficializou o plano aos vereadores da cidade. “Por que Nova York não pode romper os laços que a prendem a um mestre corrupto e venal?”, perguntou, referindo-se ao interior do estado. Em vez disso, propôs, a cidade formaria uma Cidade-Estado, citando exemplos como Hamburgo, Frankfurt e Bremen, as cidades-estado hanseáticas que mais tarde se tornariam parte da Alemanha. “Em meio à penumbra que a condição atual e futura das coisas deve lançar sobre o país, Nova York, como cidade livre, pode irradiar a única luz e esperança para uma futura reconstrução da nação”, declarou com a confiança de quem estava vendendo a ideia do século.
E olha, muita gente comprou esta ideia! Os sulistas adoraram, cof cof, para surpresa de ninguém. O escritor virginiano George Fitzhugh elogiou a proposta como uma chance de escapar “da democracia imoral, infiel, agrária e de amor livre do oeste de Nova York e da regra dos puritanos, os mais vis, egoístas e sem princípios da raça humana.” Pelo menos três membros da delegação congressual da cidade apoiaram. Três jornais diários saíram em defesa entusiasmada. Comerciantes e banqueiros, apavorados com a perspectiva de perder o lucrativo comércio sulista, acharam a ideia sensata. O Daily News editorializou que a secessão “por meios pacíficos e legais é digna da atenção de todo nova-iorquino.”
Mas aí, em 12 de abril de 1861, aconteceu o inesperado. A Carolina do Sul atacou Fort Sumter, uma base militar federal que protegia o porto de Charleston. O tiro saiu pela culatra para os secessionistas em todos os sentidos. O ataque uniu quase todos ao norte da linha Mason-Dixon atrás do chamado de Lincoln por tropas para sufocar a rebelião. A opinião pública na cidade de Nova York virou instantaneamente. Wood instruiu os cidadãos a deixarem de lado o partidarismo “e se unirem pela restauração da Constituição e da União.” Daniel Sickles, o mesmo que tinha feito aquele discurso dramático defendendo a secessão da cidade, recrutou quatro regimentos de soldados e, como major-general em Gettysburg, perdeu uma perna lutando contra os confederados. Ganhou a Medalha de Honra por isso. É o tipo de reviravolta que roteiristas de Hollywood descartariam por parecer inverossímil demais.
Os habitantes de Charleston tinham acabado com o sonho de independência de Gotham, mas o desejo de escapar do controle de Albany não morreu. Durante mais de um século, legisladores do sul do estado apresentaram repetidamente projetos de lei para transformar a metrópole em seu próprio estado americano. Seus colegas do interior, que controlavam a política estadual pela força populacional até meados do século XX, ridicularizavam as tentativas.
Um dos planos de 1919 propunha um novo estado de Grande Nova York incluindo Long Island e sete condados no baixo Hudson, correspondendo quase exatamente à antiga zona de influência holandesa. Um esforço de 1959 foi aprovado pelo Conselho Municipal por 23 a 1. Em 1966, o juiz emérito da Suprema Corte Estadual Samuel Hofstadter propôs outro plano de autonomia estadual. O escritor Norman Mailer concorreu à prefeitura em 1969 com uma plataforma de secessão (e perdeu).
O auge veio em 1971, quando o plano do “51º Estado” da deputada Bella Abzug contava com apoio de quatro colegas de Câmara, sete senadores estaduais, 33 membros da assembleia, 22 vereadores e três presidentes de distritos. O esforço morreu depois que uma comissão da prefeitura descobriu que as finanças da cidade seriam prejudicadas. Nos anos 1970, porém, o equilíbrio de poder havia mudado. O crescimento populacional da Nova York metropolitana superou o do interior à medida que a desindustrialização castigava Buffalo, Syracuse e Rochester.
Desde o final dos anos 1990, os papéis se inverteram completamente. Agora são os líderes do interior que apresentam projetos para dividir o Empire State a uma taxa de quase um por ano, apenas para serem mortos em comissão pelos próprios nova-iorquinos da cidade. Um patrocinador perene, o senador estadual John R. Kuhl Jr., disse uma vez que seus constituintes da região de Finger Lakes frequentemente lhe perguntavam: “Por que você simplesmente não corta a cidade de Nova York e deixa ela flutuar para o mar?”
A resposta, é claro, é que Nova Amsterdam não vê mais necessidade de partir. Quando você finalmente consegue o controle demográfico e político que buscava há séculos, por que se separar? Às vezes, o melhor divórcio é aquele que nunca acontece, não porque o casamento melhorou, mas porque você finalmente conseguiu controle do controle remoto.
Fonte: Smithsonian
