SOHO: 30 anos bisbilhotando o Sol e sobrevivendo a tudo que deu errado

Em 2 de dezembro de 1995, a ESA e a NASA lançaram o Solar and Heliospheric Observatory, o SOHO para os íntimos, com a modesta ambição de observar o Sol por dois anos. A ideia era posicionar o satélite a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, num ponto privilegiado entre nosso planeta e o astro-rei, e deixá-lo espiar a estrela sem interrupções. O que os engenheiros não esperavam é que esse observador solar se tornaria o satélite mais teimoso da história espacial, recusando-se terminantemente a se aposentar mesmo três décadas depois.

Spoiler: o SOHO não só continua no posto como acumulou um currículo de fazer inveja. Trinta anos depois, esse veterano espacial segue firme, observando o Sol como um vigia insone e acumulando descobertas científicas como quem coleciona selos. Só que em vez de selos, são 5.000 cometas. Sim, você leu certo: cinco mil.

A história do SOHO é um testemunho glorioso de que às vezes as melhores coisas da vida são aquelas que simplesmente não sabem quando parar. O satélite estava programado para observar o astro-rei por meros dois anos, mas aí aconteceu aquilo que os engenheiros chamam de “exceder expectativas” e os mortais chamam de “milagre”: ele não só funcionou além do prazo como sobreviveu a desastres que deveriam ter selado seu destino.

Cerca de dois anos e meio após o lançamento, o SOHO decidiu ter uma crise existencial em forma de pane catastrófica. O satélite entrou em rotação descontrolada e perdeu comunicação com a Terra. Durante três meses, três meses!, uma equipe internacional trabalhou dia e noite para encontrá-lo no espaço profundo e trazê-lo de volta à vida. Como se isso não bastasse, em 1998 seus giroscópios estabilizadores falharam. Engenheiros desenvolveram software novo às pressas e, em fevereiro de 1999, o SOHO voltou a operar sem giroscópios. Era como ensinar um equilibrista a trabalhar sem rede de proteção, exceto que o circo aqui fica no vácuo espacial.

E o que esse satélite teimoso fez com sua segunda (e terceira, e quarta) chance? Revolucionou a ciência solar. O SOHO tornou-se pioneiro em heliossismologia, o estudo de como ondas sonoras viajam pelo interior do Sol, uma espécie de ultrassom estelar. Com isso, os cientistas descobriram que o plasma no Sol circula em um único loop gigante em cada hemisfério, levando aproximadamente 22 anos para completar o circuito. Essa dança interna de material eletricamente carregado sobe do equador em direção aos polos, mergulha no interior solar e retorna ao equador, explicando por que as manchas solares vão progressivamente se aproximando da linha do equador ao longo de cada ciclo solar de 11 anos.

Outro achado essencial: a energia total emitida pelo Sol varia apenas 0,06% ao longo do ciclo solar, uma estabilidade impressionante para uma bola de fogo nuclear. Porém, a radiação ultravioleta extrema dobra entre o mínimo e o máximo solar, afetando a química e temperatura da alta atmosfera terrestre. Antes que os negacionistas climáticos saiam comemorando, vale o alerta científico: essas variações não explicam o aquecimento global de longo prazo que estamos vendo na superfície do planeta.

O SOHO também se tornou, acidentalmente, o maior caçador de cometas da história. Seu coronógrafo, um telescópio com um disco bloqueando o centro do campo de visão para permitir a observação da coroa solar, acabou revelando cometas “rasantes”, aqueles que passam perigosamente perto do Sol. Cidadãos cientistas ao redor do mundo, através do Projeto Sungrazer, têm ajudado a identificar essas bolas de gelo e poeira cósmica. O satélite descobriu seu 5.000º cometa em março de 2024, incluindo o espetacular Tsuchinshan-ATLAS, o Grande Cometa de 2024.

Mas talvez a conquista mais prática do SOHO seja seu papel no monitoramento de clima espacial em tempo real. Seu instrumento LASCO tornou-se tão crucial para prever tempestades solares que foi incluído por nome em lei federal dos Estados Unidos em 2020, o ato PROSWIFT. Ao detectar ejeções de massa coronal, enormes erupções de material solar, o SOHO fornece até três dias de aviso antecipado de clima espacial potencialmente destrutivo chegando à Terra. É tipo previsão do tempo, mas para quando o Sol decide cuspir plasma na nossa direção.

Três décadas depois, com centenas de papers científicos publicados anualmente com seus dados, o SOHO continua produzindo informações de alta qualidade diariamente. Sua longevidade influenciou o design de novas missões como Solar Orbiter e Solar Dynamics Observatory, estabelecendo padrões de dados abertos e cooperação internacional. Como disse Daniel Müller, cientista do projeto: “SOHO é um sucesso brilhante em todos os sentidos”. E ele nem estava fazendo trocadilho com a palavra “brilhante” e o Sol.

Ou estava?


Fonte: Nature

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