
A humanidade finalmente alcançou um estágio de evolução moral tão extraordinário que agora está preocupada em obter autorização de cadáveres com três mil anos de idade. Depois de milênios de guerras, genocídios, saques, escravidão e outras demonstrações pouco edificantes da nossa capacidade de convivência, descobrimos que o verdadeiro problema civilizatório estava numa vitrine de museu em Glasgow. Uma múmia egípcia, aparentemente, vinha sendo exibida sem ter assinado um termo de consentimento
Isso é um escândalo! Uma afronta à dignidade de um cidadão que não apresenta reclamações formais desde aproximadamente 1000 A.E.C. Felizmente, a burocracia escocesa, sempre vigilante, resolveu intervir antes que o defunto sofresse novos constrangimentos. Mesmo porque, não basta morrer, ser embalsamado, atravessar trinta séculos, sobreviver ao colapso de impérios e acabar numa coleção europeia. Agora é preciso também estar em dia com a legislação de proteção à privacidade póstuma.
O palco dessa ópera-bufa-funerária é o Kelvingrove Art Gallery and Museum, em Glasgow, onde uma cabeça mumificada, uma mão, um pé e os restos mortais de um sacerdote egípcio chamado Nekht foram retirados de exposição. No lugar, uma comunicação educada informa que os restos humanos foram removidos como demonstração de respeito.
My daughter has a book on the ancient Egyptians and has been quite animated by it so we took her to Kelvingrove Museum to see their mummy. Except, it’s no longer there. All ‘human remains’ gone with the following sign up in place of exhibits that have been there for years. https://t.co/DKGOx4VjpR
— Jonny McFarlane (@jonnyrmcfarlane) October 17, 2026
Respeito, naturalmente, é uma coisa admirável, embora seja difícil determinar se Nekht se sentiu particularmente contemplado pela iniciativa. O homem passou três milênios sem reclamar da exposição, mas os administradores concluíram que seu silêncio não deveria ser interpretado como consentimento. Nekht agora está mortinho de Hórus. Não morto no sentido figurado, como a carreira de um cantor que resolveu gravar sertanejo universitário, mas morto mesmo, com direito a embalsamamento e sarcófago.
A responsável pela administração do museu, a Glasgow Life, relacionou a retirada a uma política sobre restos humanos ainda em elaboração, inspirada em princípios éticos internacionais. Entre as preocupações está o consentimento informado da pessoa falecida ou de seus descendentes, e é nesse ponto que a história começa a adquirir a consistência intelectual de uma assembleia de condomínio realizada durante um eclipse.
Efetivamente, ninguém perguntou a Nekht se ele gostaria de passar a eternidade em Glasgow, nem se considerava ofensivo ser observado por turistas de bermuda, segurando copos de café e perguntando onde fica o banheiro. O sacerdote não atende correspondências e o departamento de registros civis do Antigo Egito encerrou suas atividades há alguns milênios. O cara não tá nem respondendo ao whatsapp!
Talvez fosse possível convocar uma sessão espírita extraordinária, com intérprete de egípcio antigo e reconhecimento de firma mediúnico. Mas suspeito que até isso exigiria autorização prévia do comitê de ética, ou verificar se o James Spader pode dar uma ajuda na transcrição das mensagens.
Mas calma, que melhopiora: Nekht não está sozinho. O Hunterian, museu da Universidade de Glasgow, também retirou de exposição Lady Shep-En-Hor, outra egípcia que, depois de atravessar milênios na condição de múmia, descobriu que sua permanência diante do público estava sujeita a uma espécie de revisão contratual retroativa. A Glasgow Life também pretende retirar outros restos humanos de espaços expositivos, incluindo coleções relacionadas à pré-história escocesa.
Imagine o trabalho necessário para descobrir a opinião de um sujeito pré-histórico sobre os protocolos museológicos de uma instituição fundada milhares de anos depois de sua morte. Talvez não gostasse de escoceses. Nunca saberemos, porque o infeliz morreu antes de inventarem a escrita, a pesquisa de satisfação e o direito de reclamar na ouvidoria. Eu até sugeriria falar com Chico Xavier para ele dar uma ajuda, mas ele não é escocês de verdade.
Naturalmente, a controvérsia chegou à política: Murdo Fraser, porta-voz conservador para assuntos culturais na Escócia, criticou a iniciativa, e surgiram acusações de que até as múmias haviam sido vítimas da chamada cultura do cancelamento. Cancelar alguém que já morreu há três mil anos exige uma dedicação admirável; é o equivalente burocrático de chegar atrasado à Batalha de Waterloo e exigir a rendição de Napoleão. Também surgiu a possibilidade de devolver os restos mortais ao Egito, o que acrescenta uma complicação deliciosa. Afinal, se não podemos exibir Nekht porque ele não consentiu, com que autoridade poderíamos colocá-lo numa caixa, despachá-lo para outro continente e decidir unilateralmente onde deverá passar os próximos três milênios?
O detalhe mais extraordinário é que os antigos egípcios levavam a preservação dos mortos muitíssimo a sério. Os filhos de Rá gastavam recursos consideráveis com natrão, resinas, linho e sarcófagos porque acreditavam que a conservação do corpo era fundamental para a existência após a morte, e o nome do falecido precisava continuar na memória dos vivos. Isso não significa que desejassem terminar numa vitrine britânica, entre uma armadura medieval e uma excursão escolar. Mas existe uma ironia monumental em retirar da vista do público, em nome da dignidade, indivíduos de uma civilização que dedicava esforços extraordinários para impedir que seus mortos fossem esquecidos. Nekht conseguiu sobreviver ao tempo, à decomposição e ao desaparecimento de seu mundo. Acabou derrotado por uma reunião administrativa em Glasgow.
A moral da história é simples: respeitem os mortos, estudem sua história e devolvam o que tiver de ser legitimamente devolvido. Mas, pelo amor de Osíris, não transformem uma questão arqueológica numa repartição de atendimento ao falecido. Nekht já enfrentou a morte, a mumificação, a passagem de trinta séculos e uma temporada indeterminada no Reino Unido. Merecia, no mínimo, ser poupado da burocracia. Porque, se existe alguma coisa mais assustadora do que a maldição de uma múmia egípcia, é descobrir que nem depois de morto o sujeito consegue escapar da exigência de apresentar um documento com foto, CPF e assinatura reconhecida em cartório.
Já basta reis que tiveram que tirar passaporte depois de morto!
Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!
