
Existe um ritual quase litúrgico em qualquer consultório do planeta. O paciente se senta, estende o braço, a braçadeira infla até quase pedir clemência, e o médico encara o visor com a gravidade de um sacerdote romano lendo as entranhas de um carneiro. Então, vem a sentença: “12 por 8, tudo certo”. Saímos dali absolvidos, leves, prontos para atacar um pastel de feira. Ninguém pergunta o que a pressão andou aprontando nas outras 23 horas e meia do dia. Às vezes o médico resolve isso pedindo o MAPA, aquele aparelhinho que você carrega por um dia inteiro e que infla a braçadeira de tempos em tempos, sufocando o braço (vai sufocando, mesmo, por falta de termo melhor, e se tiver que se dane) justamente para acompanhar a pressão fora do consultório.
Cardiologistas costumam indicar o exame quando suspeitam de hipertensão do avental branco, de pressão que só sobe em casa (a mascarada), quando o tratamento não parece estar segurando bem os números ou para checar se a pressão cai como deveria durante a noite. Bem, pesquisadores identificaram uma pequena população de neurônios no tronco encefálico que parecem ter uma função específica: impedir que a pressão arterial dê trancos violentos.
O dr. Stephen B. G. Abbott é professor-assistente do Departamento de Farmacologia da Universidade da Virgínia. Sua pesquisa analisa sistemas de sono e vigília e a relação desses dois com neurobiologia autonômica. Seu laboratório tenta entender como o cérebro integra os sinais que recebe do corpo para acionar respostas que restauram o equilíbrio fisiológico, e também como a fisiologia do coração e da respiração conversa com o estado emocional.
Para entender por que isso importa, convém desconfiar da média, essa senhora de reputação impecável e péssimas companhias. Se eu me sentar ao lado de um mendigo e eu comer dois frangos, em média, cada um comeu um frango. Com a pressão arterial acontece o mesmo, e há evidências crescentes de que oscilações rápidas ou exageradas aumentam, por conta própria, o risco de doença cardíaca, AVC e lesão cerebral, mesmo quando a média cai dentro da faixa considerada saudável.
O corpo humano vive provocando essas oscilações. Dormir, acordar, levantar da cama, subir uma escada, correr atrás do ônibus: cada transição exige que a pressão se reajuste em segundos. Basta lembrar que, ao ficar de pé, a gravidade puxa sangue para as pernas, e o cérebro precisa compensar na hora para não ficar sem abastecimento. Alguém tem de operar esse acelerador e esse freio o dia inteiro, e o trabalho do dr. Costello, digo, dr. Abbott sugere que parte considerável dessa função cabe a esses neurônios adrenérgicos do tronco encefálico, que limitam as variações da pressão ao longo dos diferentes estados de comportamento.
Aqui entra o número que dá vertigem. Segundo Abbott, a perda de apenas algumas centenas dessas células basta para deixar a pressão instável, mesmo com a média normal. Considerando que o cérebro humano abriga algo em torno de 86 bilhões de neurônios, estamos falando de uma proporção da ordem de uma célula em centenas de milhões. É como se o sumiço de um único habitante num país do tamanho do Brasil bastasse para a economia inteira desandar. Nas palavras do pesquisador, o sistema que mantém a pressão estável de um momento para o outro deixa de funcionar.
O grupo, aliás, já tinha intimidade com essa vizinhança química. Em trabalho anterior sobre perda de sangue, Abbott-Sem-Costello mostrou que neurônios adrenérgicos do tronco encefálico ficam hiperativos durante a hemorragia, sustentando a pressão, e que reativá-los em ratos revertia o colapso cardiovascular. Parece que o tronco encefálico é um bairro com vários síndicos competentes, e cada um cuida de uma emergência diferente.
A história ganha contornos mais sombrios quando se descobre que essas mesmas células já foram encontradas danificadas ou ausentes em pessoas com atrofia de múltiplos sistemas, uma doença neurológica rara e fatal, aparentada da doença de Parkinson, marcada por graves dificuldades de regular a pressão. O que antes parecia mais um sintoma entre tantos pode, portanto, ter uma peça específica quebrada por trás. Os pesquisadores levantam a possibilidade de que falhas nesses neurônios também contribuam para a instabilidade da pressão em outras condições, inclusive nos casos em que as medições de rotina dão resultado normal.
Durante décadas, o consultório nos ensinou a olhar só para a altitude média, e agora descobrimos que há uma turma minúscula de neurônios trabalhando de graça, sem crachá e sem plano de carreira, para que a viagem seja tranquila. Fica a moral irônica: da próxima vez que o médico disser “12 por 8, tudo certo”, vale agradecer às suas poucas centenas de funcionários invisíveis. Eles nunca aparecem no laudo, mas, quando faltam, a média continua sorrindo enquanto o resto desmorona.
Depois eu voltarei qualquer dia no assunto que o famoso “12 por 8” não é tão maravilhoso assim e já é considerado hipertensão. Não hoje.
A pesquisa foi publicada no periódico Circulation Research.
