
O Meio Bit publicou esta semana uma reportagem que merece ser emoldurada como obra-prima do eufemismo corporativo. Martin Hiegl, diretor executivo de Soluções Avançadas da Lenovo, durante a ISC High Performance 2026, avisou a plateia que os preços de memória RAM e NAND “talvez nunca mais” voltem ao patamar de antes da explosão da Inteligência Artificial, e ainda fez questão de soltar essa bomba em tom jocoso, como se estivesse contando uma piada e não anunciando que o consumidor vai pagar a conta por pelo menos cinco anos, “e um pouco além disso”
A Microsoft, generosa, já adiantou que os preços devem dobrar até 2027, depois de reajustes superiores a 2,5 vezes só neste ano. Tudo isso porque Samsung, SK Hynix e Micron, que juntas controlam de 90% a 95% do mercado mundial de DRAM, decidiram que é mais lucrativo fabricar memória HBM para data centers de IA do que abastecer o resto da humanidade com DDR4 e DDR5 comuns.
E aqui mora a parte engraçada da reportagem, que o próprio MB menciona quase de passagem: enquanto a narrativa oficial repete que é tudo culpa da demanda insaciável da IA, um grupo de consumidores e pequenas empresas entrou, em 25 de junho último, com uma ação coletiva no Tribunal Distrital Federal do Norte da Califórnia, acusando justamente esse trio de ter coordenado um corte deliberado na produção de memória comum para inflar os preços em cerca de 700% ao longo dos últimos quatro anos, um fenômeno que já ganhou apelido, “RAMpocalypse”.
A ação também remete ao histórico de condenações criminais das mesmas empresas por fixação de preços de DRAM nos anos 2000, o que dá um contexto e tanto para quem ainda acredita em coincidência. Tem quem acredite que o varejão não é mais lucrativo por ganhar no volume e que a OpenAI vai com sacolinha comprar no Mercado Livre. Sim, aham. Foi uma coisa diferenciada que mudou as estruturas e alavancou os preços… Como se isso fosse novidade.
Bem… não é. Em 2011, uma enchente na Tailândia inundou fábricas da Western Digital e da Seagate, e o mundo aceitou, sem questionar muito, que os discos rígidos ficassem entre 100% e 214% mais caros da noite para o dia. Fazia sentido, água e eletrônica não combinam, e os analistas prometeram que tudo voltaria ao normal assim que a produção se recuperasse, talvez já no último trimestre daquele ano, mas mais provavelmente só em 2013. Guess Waht: não aconteceu. Os preços baixaram um pouco, estabilizaram bem acima do patamar anterior, e a indústria seguiu seu caminho como se nada tivesse acontecido, porque, convenhamos, nada de ruim tinha acontecido com ela.
E não é a primeira vez que esse mesmo trio específico é flagrado com a mão na cumbuca. Em 2005 e 2006, Samsung e SK Hynix já tinham se declarado culpadas de fixação criminosa de preços de DRAM perante a Justiça americana, pagando multas de 300 milhões e 185 milhões de dólares respectivamente, com executivos indo em cana, vendo bytes nascerem quadrados (o que jamais aconteceria aqui, lógico).
Em 2018 já tinha havido outra tentativa de responsabilizá-las por reduzir produção propositalmente, rejeitada pela Justiça em 2020 por falta de provas suficientes. Ou seja, o roteiro é sempre o mesmo: escassez conveniente, alta de preço, promessa de normalização, normalização que nunca chega, e quando finalmente alguém processa, ainda tem o desplante de chamar de coincidência um padrão que já rendeu prisão.
Saindo da informática mas continuando no mesmo manual de instruções, lembre-se da COVID. Entre 2020 e 2022, a combinação de fábricas paradas, escassez global de chips e demanda reprimida fez os preços de carros zero-quilômetro dispararem no mundo todo, e por tabela os usados foram junto, em alguns mercados americanos chegando a subir mais de 40% em um único ano. No Brasil, dados do setor automotivo apontaram alta de 18% nos novos e 22% nos usados só em 2021, mas que na realidade foi muito, muito maior! E isso num país onde carro nunca foi barato para começo de conversa.
A pandemia passou, as fábricas voltaram a funcionar havia anos, e mesmo assim o preço dos automóveis no Brasil seguiu subindo acima da inflação muito depois de qualquer fábrica ter reaberto as portas. A justificativa, claro, foi reciclada: primeiro foi a pandemia, depois a escassez de chips que a pandemia causou, depois o dólar, depois a guerra na Ucrânia, depois as eleições americanas, depois um chimpanzé místico transdimensional que apareceu na Economia e saiu cagando em tudo. Sempre tem um evento novo disponível na prateleira pronto para justificar que o preço de ontem virou piso, nunca teto.
As placas de vídeo seguiram coreografia parecida, só que em dose dupla. Entre 2013 e 2017, mineradores de criptomoeda compraram GPUs aos montes e os preços dispararam, vítima colateral sendo qualquer gamer que só queria jogar sem hipotecar a casa. A história se repetiu quase didaticamente entre 2020 e 2021, com mineradores chegando a pagar até 2,5 vezes o preço original de placas usadas, num estrago que analistas calcularam em vinte bilhões de dólares para a indústria, e fabricantes como Nvidia e AMD lucrando horrores enquanto fingiam estar igualmente indignadas com a escassez que elas próprias jamais se apressaram a resolver.
Cada vez que a bolha das criptomoedas estourava, o mercado prometia “voltar ao normal”, os preços de fato cediam um pouco, mas o “normal” para o qual voltavam já não era mais o mesmo normal de antes, era um patamar superior esperando a próxima desculpa para subir de novo. E a próxima desculpa, vejam só, já chegou, só que agora se chama Inteligência Artificial em vez de Bitcoin.
Peguem aí um papel de pão e vamos fazer umas contas: se os preços de armazenamento, memória e até automóveis tivessem seguido a curva normal de qualquer indústria madura, aquela que historicamente entrega mais por menos a cada geração ou que ao menos devolve o preço ao patamar anterior quando a crise some, um HD, um pente de RAM ou um carro usado de hoje deveriam custar uma fração do que custam, não um múltiplo deles.
Em vez disso, tivemos um choque em 2011 que nunca foi plenamente revertido, dois ciclos de escassez de GPU que só serviram para empurrar o piso pra cima de novo a cada repetição, uma pandemia que disparou o preço de carros e nunca devolveu o troco, um aperto em 2018 que motivou processo judicial, e agora um salto de aproximadamente 700% em quatro anos que tem motivação real (a fome da IA por HBM existe, ninguém nega isso) mas que é usado, mais uma vez, como cortina de fumaça perfeita para travar o preço no novo teto e nunca mais descer.
Cada crise empurra o piso para cima, e nenhuma recuperação devolve o consumidor ao ponto de partida. É escada rolante de subida, sem versão de descida, e o estranho é que ainda tem gente surpresa quando o elevador chega lotado de novo.
A moral da história, se é que existe moral em economia de oligopólio, é que catástrofe natural, pandemia, febre especulativa e disrupção tecnológica funcionam, para essas empresas, exatamente como aquele desconto “por tempo limitado” que nunca acaba: a promessa de provisoriedade é o produto, não a exceção. A enchente passa, a pandemia passa, a bolha cripto estoura, a corrida da IA também vai passar ou pelo menos estabilizar, mas o preço fica, porque ele nunca esteve realmente amarrado ao evento. Estava amarrado à oportunidade.
E para quem ainda acha isso teoria da conspiração, vale lembrar que da última vez que chamaram de teoria, terminou em gente de terno listrado atrás das grades.
Fontes:

Um comentário em “A anunciaram a próxima desculpa para o preço das memórias. Dica na imagem de abertura”