Guia confiante prova que confiança mata

Existe uma conquista da civilização que ninguém celebra porque todo mundo assume que já estava resolvida: descobrimos, ao longo de uns quarenta mil anos de tentativas, que altura mata. Não de forma metafórica, não condicionalmente, não dependendo do humor do dia. Literalmente, sem exceções cadastradas desde o Paleolítico. A Gravidade é aquele funcionário público que nunca faltou um dia sequer, não tira licença, não aceita propina e não tem o menor interesse em como você se sente a respeito dela, por isso todo mundo a detesta e ela está pouco se dando para o que você pensa. Você pode questionar a democracia, a fé, o capitalismo, o resultado do jogo de ontem. Questionar a Gravidade é uma discussão com desfecho garantido, e o garantidor não é você.

E ainda assim, toda semana, alguém olha para uma rocha íngreme e pensa a frase mais cara da história evolutiva da nossa espécie: Comigo dá.

Mais uma vez, não deu.

Caio Rocha Aguiar Arrabal, 44 anos, conhecido como Rocha (o que é uma ironia por si só), integrava a equipe responsável por conduzir um grupo de trilheiros de Araruama na trilha. Repita isso em voz alta para sentir o peso: ele… era… “O”… guia! Um profissional pago para saber onde pisar e, crucialmente, onde não pisar. Tinha equipe própria de trilhas, excursões e viagens, e colaborava com a agência Saquatrilhas, de Saquarema. Conhecia a região, o terreno e, por definição de cargo, cada pedaço de rocha daquele percurso.

Foi justamente esse conhecimento que o matou.

Após o grupo chegar ao topo, subiu até um ponto mais elevado para tirar uma fotografia. Ao retornar, escolheu um trajeto considerado inadequado para a descida. Perdeu o equilíbrio. Caiu aproximadamente 150 metros em direção a uma área de mata fechada. Vou escrever por extenso: CENTO E CINQUENTA METROS!

Porque ele subiu ali e desceu por onde não deveria, perguntarão vocês.

Eu não faço a menor ideia, responderei eu.

Mas isso é absurdamente idiota, insistirão vocês.

Eu concordo, concordarei eu.

Mas o que responde isso, então, facepalmeando vocês.

As pessoas… elas são idiotas, vaticinarei eu.

A familiaridade tem esse efeito perverso e documentado: ela anestesia o medo. E o medo é o que tem nos mantidos vivos nesses milhares de anos.

– Gronk. Vamos ali naquela caverna ver o que tem dentro?

– Não, Krung. Vô não.

– Pruquê?

– Medinho. Vou ficar aqui neste descampado que é mais fácil ver o que se aproxima

– Seu covarde. Aí, ó. Vô lá, porque não tenho medo de nada.

Dentro da caverna tinha um tigre dentes-de-sabre, Krung foi de arrasta pra cima e Gronk continuou vivendo feliz gerando descendentes. Somos descendentes de Gronk, o esperto. A[í vem o cara achando que era valente e que aquele trecho específico de rocha lisa não era um inconveniente irracional a superar. Era uma informação técnica sobre o estado do mundo. Quem faz a mesma trilha cem vezes começa a achar que a centésima primeira já não exige atenção. A rotina, descoberta há milênios e esquecida diariamente, mata muito mais gente do que a aventura propriamente dita. Meu pai dizia que só morre afogado quem sabe nadar. Isso vale para quem despenca de montanhas.

Uma integrante do grupo gravava o momento. Chegou a alertá-lo para tomar cuidado. Segundos depois, ele despencou.

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Existe algo de cruel nos vídeos assim. É como assistir ao universo oferecendo a última saída antes de fechar a porta com a naturalidade desinteressada de quem só está cumprindo protocolo. A pedra não negociou. Ela nunca negocia. Não porque seja malévola, mas porque é uma pedra.

O Corpo de Bombeiros foi acionado às 11h30. Equipes de Maricá e Niterói realizaram uma operação de quatro horas, com apoio de helicóptero, exigindo técnicas de escalada, cordas e acesso por mata densa. É curioso: subir levou minutos. O erro de descida ocupou a tarde inteira de muita gente fardada.

E a realidade, como de costume, reservou um detalhe que nenhum roteirista ousaria escrever. Horas antes do acidente, Rocha havia passado pela sala onde o instrutor de resgate Matheus Moura dava aula. Conversaram, tomou café, voltou para usar o banheiro, deixou duas coquinhas de agradecimento e foi embora. Pouco depois, Matheus estava na operação para recuperar seu corpo. Se alguém apresentasse isso num pitch meeting de série, o produtor mandaria tirar. Forçado demais. A realidade, porém, nunca teve compromisso com a verossimilhança.

Maricá ainda acumula, menos de duas semanas antes, a morte de Rosemary Suzart Garcia, 59 anos, que caiu da Gruta do Spar durante os preparativos para um rapel. Ela já usava luvas e capacete quando parou para passar repelente, levantou uma perna, perdeu o equilíbrio e caiu. Perceba o padrão: a natureza raramente mata no momento heroico. Ela espera o segundo em que você relaxa.

Tem uma frase bordada em cada camiseta de loja de aventura por R$ 130: A montanha não perdoa. Bonita, fotogênica e completamente errada. A montanha não pune ninguém. Ela simplesmente não faz exceções, que é uma coisa bem diferente. Quem pune é a confiança que cresce junto com a experiência e, num determinado ponto da curva, começa a trabalhar contra ela.

Moral da história: a experiência existe para mostrar onde não inventar moda. O problema é que, certa altura, ela convence a pessoa de que inventar moda já virou rotina. E a gravidade, invicta desde o Big Bang, agradece pela colaboração.

Moral da história 2: Maricá continua sendo uma merda (PAES, Eduardo).

Moral da história 3: De dentro do recesso de seus lares, homens sedentários e sem o menor amor por aventuras seguem tranquilos, saudáveis e em segurança.


Fonte: G1

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