
Nos anos 1990, havia um vilão claro na História da Internet: as redes proprietárias pertencentes ao que hoje chamam de Big Techs (na época eram chamadas de empresas fidaputas, mesmo). Havia a AOL, a CompuServe e a Microsoft, com sua Microsoft Network (abreviada para MSN, que se resumiu a um serviço de mensagens instantâneas) recém-lançada. Eram serviços que funcionavam como condomínios fechados: você pagava a mensalidade, entrava no ambiente controlado pela empresa, consumia o conteúdo que ela selecionava e não saía dali para lugar nenhum. Bill Gates chegou a escrever um livro inteiro, A Estrada do Futuro, celebrando esse modelo de conectividade, sendo que parte da maravilha que ele descrevia era, convenhamos, a própria rede da Microsoft. A Internet aberta mal aparecia.
As pessoas reagiram com indignação saudável. Não queriam jardins murados. Não queriam intermediários decidindo o que podia ser lido, publicado ou discutido. Queriam um bosque a ser explorado, uma rede descentralizada, livre, construída sobre protocolos públicos que nenhuma empresa controlasse. Lutaram por isso e conseguiram. E foi lindo enquanto durou.
Havia sites sobre tudo. Páginas pessoais feitas com o mesmo cuidado artesanal de quem monta maquetes de trem. Fóruns onde especialistas e curiosos dividiam espaço sem que ninguém tivesse pedido autorização a ninguém. Blogs de gente comum escrevendo sobre química, história medieval, videogames obscuros do Japão e teorias envolvendo lagartos interdimensionais infiltrados no governo. A Internet parecia uma cidade construída sem urbanistas. Uma bagunça completa, mas uma bagunça com alma.
Então alguém inventou a conveniência, que passaram a chamar de “serviços”.
A conveniência é uma força da natureza: ela não anuncia que vai chegar. Aparece sorrindo, oferecendo facilidades, como um furgão escrito “FREE CANDY” na porta. Você não precisa mais aprender HTML, não precisa pagar hospedagem, não precisa configurar servidor, não precisa administrar nada. Basta abrir uma conta, depois outra e mais outra. E a Internet aberta foi sendo substituída, silenciosamente, por meia dúzia de plataformas gigantescas que hoje concentram praticamente tudo.
Os sites pessoais desapareceram. Os fóruns desapareceram. Os blogs desapareceram. As listas de discussão desapareceram. Todo mundo foi morar em condomínios digitais; os muros voltaram, só que agora nós os chamamos de funcionalidades “premium”.
Quer ouvir música sem que o algoritmo decida interromper seu heavy metal com algo que parece escolhido por alguém em estado de choque severo? Pague. Quer assistir a um vídeo sem propaganda no meio da frase, às vezes no meio da palavra, inserida no exato instante em que a cena atingiu o ponto de maior tensão dramática? Pague. Quer que as pessoas que já escolheram seguir você nas redes sociais realmente vejam o que você publicou? Pague. Quer ter alcance, visibilidade, o mínimo de presença digital? Pague, pague, pague. Você foi sequestrado, estão pedindo resgate a você mesmo e as pessoas estão achando normal. Sim, é muito normal pagar a uma milícia para ela não destruir a sua casa, espancar você e matar o seu cachorro (a ordem pode não ser essa).
O Spotify é particularmente fascinante nesse sentido. A plataforma jura que personaliza sua experiência musical. A experiência, na prática, consiste em descobrir quantos estilos incompatíveis cabem em dez minutos antes que você quebre e assine o plano premium. O Twitter (que chamam de X só para não ser nada igual ao anterior, mas é a mesma merda, só que pior), inventou a verificação paga: ou você contribui mensalmente para o caixa do senhor mais rico do mundo, ou suas postagens são sepultadas pelo algoritmo num canto onde ninguém as encontra. O Instagram e o Facebook seguiram o mesmo raciocínio com elegância similar.
A rigor, o Google inventou isso com o Adwords: ou você pagava, ou a busca do maior site de busca do mundo tem probleminhas para te encontrar. O mesmo Google que sequestrou todo mundo quando comprou o YouTube, criou os youtubeiros monetizados e os escravizou, capando depois a monetização, e você que pague se quiser ver os vídeos sem os trocentos anúncios. Os produtores de conteúdos de verdade fugiram para o Nebula e o Brilliant, que são plataformas pagas. Os grandes canais que estão no YouTube hoje estão sendo comprados por empresas de Capital Privado, como a Blackstone, por exemplo. Aos poucos, o conteúdo será filtrado para atender os objetivos destas empresas.
Passamos décadas criticando as redes fechadas dos anos 80 e 90 e a sede de lucro das empresas que tentaram de tudo colocar sob domínio a Internet. Achávamos absurdo que uma empresa controlasse um ambiente inteiro, selecionasse o conteúdo e decidisse o que o usuário podia ou não ver. Hoje entregamos voluntariamente nossas conversas, fotos, vídeos, textos, amizades, trabalho e entretenimento para plataformas que fazem exatamente isso, com uma diferença importante: as antigas redes proprietárias eram honestas: elas diziam que eram fechadas e não vinham com bordões “Don’t be Evil”. As novas insistem em dizer que são abertas… abertas no mesmo sentido em que uma ratoeira é acolhedora.
Talvez o problema seja que confundimos promessas com presentes. A Internet aberta nunca foi gratuita. Servidores custam dinheiro. Banda custa dinheiro. Desenvolvimento custa dinheiro. Alguém sempre pagava a conta. O que fizemos foi encontrar uma forma criativa de pagá-la: com atenção, com dados, com privacidade, com dependência e com a lenta transformação da rede em algo que se parece cada vez mais com aquilo que jurávamos estar combatendo. Só que isso era a isca brilhante e sacolejante, a cenoura na frente da vara.
A Internet não foi destruída por censores, governos autoritários ou corporações reunidas em salas secretas acariciando gatos brancos. Foi destruída pela nossa preguiça. Não queríamos liberdade. Queríamos praticidade. Não queríamos construir comunidades. Queríamos serviços, presentes, facilidades, só que tudo isso era enganoso. Não queríamos entender como as coisas funcionavam. Queríamos apertar um botão. Antes comprávamos softwares e eles eram nossos. Agora compramos o serviço, a boa aventurança de usarmos os softwares. Antes comprávamos as músicas, agora a satisfação de poder escutar a música pela qual pagamos, mas que podem simplesmente serem apagadas de nossa playlist, e o dinheiro que pagamos fica por isso mesmo. Ebooks, a mesma coisa. Filmes, idem.
Hoje temos uma Internet extremamente conveniente. Basta pagar para usá-la ou aceitar que ela nos use; só que isso está acontecendo ao mesmo tempo. Pagamos por um serviço ruim, e ele é ruim porque tem o mesmo serviço Plus, que tem uma coisinha a mais. Plus não serve? Tem o Pro. Tem o Advanced, tem o Enterprise. Cada um muito mais caro sem uma progressão claramente definida do quanto é mais caro e quais as funcionalidades adicionais foram adicionadas.
Queríamos a gaiola dourada, e conseguimos… até vermos que o dourado não era ouro e sim um chapeado fajuto que apodrece com o tempo. Os serviços Plus, Pro etc. continuam tendo barras douradas, mas nada de ouro. Apenas um metal com um vernizinho um pouco melhor, mas que você sabe que vai apodrecer, e isso se a argola sumir e você cair no fosso da câmara de privação.
Gates, lá nos anos 90, apostou que o futuro seria uma rede controlada por grandes empresas que cobrariam pelo acesso. Disseram que ele perdeu a aposta na época, mas grandes capitalistas pensam a longo prazo, e 30 anos é médio prazo para altos investidores. Os lucros estão chegando agora, porque uma geração inteira não saberá o que fazer sem os serviços, quando até o governo EXIGE que você use estes serviços de uma forma ou de outra. É o sequestro com sanção governamental.
E a ironia final é que Gates nem precisou vencer. Ele simplesmente esperou que nós mesmos nos derrotássemos, destruindo tudo com nossas próprias mãos e em nome da preguiça, pois, ela é mais poderosa que a liberdade, e isso era exatamente aquilo que ele queria construir; só que maior e com mais planos de assinatura, garantindo que ele e seus amigos capitães de indústria enriquecessem cada vez mais, enquanto entregam cada vez menos.
