O Épico Concurso da Polícia de Uttar Pradesh

Existe uma pergunta filosófica que atravessa séculos, de Platão a Juvenal, passando por qualquer pessoa que já assistiu a um noticiário com o estômago vazio: quem guarda os guardiões? A resposta, depois de acompanhar o concurso para soldado da polícia de Uttar Pradesh realizado entre 8 e 10 de junho de 2026, é simples e desoladora: ninguém. E talvez nem valha a pena tentar; mas aqui é o Ceticismo.net, e Uttar Pradesh mora em nossos corações rancorosos, então, o que se pode dizer se não…

Guardando a loucura e policiando o retardo mental, ESTA É A SUA SEXTA INSANA!!!

Uttar Pradesh é o meu shithole indiano favorito, como vocês bem sabem. Ele tem mais de 240 milhões de habitantes (sim, um único estado tem uma população maior que o Brasil inteiro), e por isso tudo que acontece lá acontece em escala industrial. O Conselho de Recrutamento e Promoção da Polícia local, o UPPRPB, organizou o exame escrito para preencher 32.679 vagas para ser meganha de Shiva. Foram três dias de prova, dois turnos por dia, 1.183 centros espalhados pelos 75 distritos do estado. Inscreveram-se 2.886.798 candidatos, sendo que compareceram “apenas” 2.192.236. Uma nação inteira se mobilizou.

E parte dela chegou com documentos falsos.

Antes de entrar no mérito dos candidatos, convém entender o contexto histórico desta edição do exame, porque sem ele o nível de paranoia institucional que se seguiu parece gratuito. Em fevereiro de 2024, a edição anterior do mesmo concurso precisou ser cancelada depois que o gabarito vazou nas redes sociais antes mesmo de as canetas serem destampadas. Mais de 4,8 milhões de candidatos tiveram que voltar para casa, o estado ficou coberto de vergonha e o Conselho jurou, de punho fechado, que desta vez seria diferente. E foi… bem, foi diferente, porém não necessariamente melhor.

Para garantir a lisura do processo, o aparato tecnológico mobilizado foi genuinamente impressionante: verificação biométrica, e-KYC via Aadhaar (o sistema de identidade digital indiano, uma espécie de RG com reconhecimento facial e impressão digital integrados), monitoramento em tempo real de redes sociais, câmeras de CCTV em todos os centros e fiscais espalhados por toda parte. O sistema funcionou, é verdade, detectou fraudes e prendeu impostores. E, em algum momento que ainda não foi adequadamente explicado pela cadeia de comando, também achou por bem introduzir detectores de metal portáteis na boca dos candidatos.

Sim, isso mesmo que você leu.

Na cidade de Jaunpur, durante a revista de entrada, um vídeo registrou agentes de segurança passando o aparelho detector não apenas no corpo dos candidatos, mas diretamente entre seus lábios, como se estivessem procurando um Bluetooth escondido no terceiro molar. O vídeo viralizou com a velocidade que só o absurdo genuíno consegue atingir, e os comentários na internet oscilaram entre a indignação sanitária e a admiração involuntária.

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Um usuário sintetizou melhor do que qualquer editorial poderia: “Se o Serviço Secreto americano tivesse aprendido com a polícia de Jaunpur, teria impedido três tentativas de assassinato contra Trump.” Outro foi mais sóbrio: “Esse é o exame de policial de UP. Então já dá para imaginar como esses policiais vão tratar as pessoas depois de formados.” Um terceiro, mais preocupado com epidemiologia do que com ironia, observou que aquela era uma maneira excelente de disseminar infecções entre quase três milhões de candidatos.

Mas enquanto a segurança realizava sua odontologia preventiva nos candidatos inocentes, os candidatos culpados estavam ocupados sendo culpados com muito mais sofisticação. Tomemos o caso de Ankit Kumar, filho de Satyadev, residente de Khutiyana no distrito de Etah. Ankit se apresentou ao centro de provas no Mihir Bhoj PG College, em Gautam Buddha Nagar, com a expressão de quem não deve nada a ninguém e um Aadhaar que devia tudo a alguém porque era falsificado.

O sistema de e-KYC detectou o a inconsistência biométrica com a frieza de uma máquina que não sente constrangimento, e Ankit saiu do local acompanhado de pessoas que portavam distintivos reais. Registrou-se o Caso nº 255/2026 na delegacia de Dadri, com uma lista de artigos do novo Código Penal indiano, o Bharatiya Nyaya Sanhita, que recitados em sequência soam como um encantamento de Harry Potter, mas com consequências jurídicas muito mais concretas.

Se Ankit I já seria suficiente para encher uma tarde de causos em família, a história de Ankit II eleva o episódio a outro patamar existencial. No centro do DAV Girls Inter College em Aligarh, um segundo indivíduo chamado Ankit – porque a Índia tem população para ter Ankits sobressalentes – foi flagrado fazendo a prova no lugar de Lokesh, filho de Netrapal, um candidato que, ou era preguiçoso demais para comparecer, ou chegou a um acordo comercial cujos termos o UPPRPB não aprecia.

Este segundo Ankit havia apostado que biometria era uma formalidade, como o número de série nos eletrodomésticos: impressa em algum lugar, mas que ninguém realmente verifica. Apostou errado. Caso nº 474/2026, Delegacia de Quarsi, Aligarh. Tá vendo Krishna nascer quadrado.

Em Kanpur, um terceiro candidato, Nagesh Kumar, de Jaunpur (a mesma Jaunpur do detector de metal bucal, em mais uma coincidência que o universo não precisava providenciar mas generosamente providenciou), foi detido sob suspeita no Lalu Prasad Intermediate College. Os documentos estavam sendo analisados. As autoridades comunicaram que “medidas legais cabíveis estão sendo tomadas”, que é o equivalente oficial de “esse aqui não vai embora tão cedo.”

Ao todo, doze casos foram registrados nos três dias de prova. Nove pessoas presas. O número pode parecer modesto diante de quase três milhões de candidatos, mas convém parar um momento para contemplar o que está acontecendo aqui em termos filosóficos. Estamos falando de pessoas que tentaram enganar a polícia para trabalhar como polícia. Pessoas que cometeram crimes documentados enquanto tentavam ingressar na corporação responsável por impedir crimes documentados. Há uma circularidade nessa situação que Escher desenharia com prazer e que Kafka transformaria em romance.

E não para por aí, porque o ecossistema da fraude é sempre mais diversificado do que aparenta à primeira vista. Antes mesmo do início das provas, um canal no Telegram chamado “UPP Exam Paper” havia montado uma operação de venda de supostos gabaritos vazados pelo módico preço de 8.000 rúpias, cerca de R$ 500, oferecidos com QR codes e dados bancários, com a desenvoltura de um empreendedor, a ética de um estelionatário e o bom senso combinado de nenhum dos dois. Durante e após o exame, um bando de influenceiros em busca do estrelato foram igualmente presenteados com inquéritos policiais por espalhar vídeos com alegações falsas sobre vazamentos.

O quadro final, portanto, é o seguinte: de um lado, candidatos falsificando documentos e se passando por outras pessoas para entrar na polícia. Do outro, a segurança introduzindo detectores de metal na boca de candidatos que nada deviam a ninguém, como compensação psicológica coletiva pelo trauma de 2024. No meio, quase 2,2 milhões de pessoas tentando honestamente fazer uma prova para um emprego que paga 40.000 rúpias mensais de salário inicial, enquanto ao redor delas o Estado simultaneamente investigava fraudes e cometia abusos.

A moral, se ainda sobrou espaço para uma: os candidatos que chegaram com documentos falsos, que se passaram por outras pessoas, que pagaram por gabaritos inexistentes – esses eram os candidatos mais alinhados com certa tradição de funcionamento das forças policiais em estados sobrecarregados do mundo em desenvolvimento. Não porque a polícia de Uttar Pradesh seja necessariamente corrupta; é porque a ironia tem timing próprio, e desta vez o timing foi perfeito. Eles ainda não eram policiais e já estavam praticando o repertório completo: documentos forjados, identidade falsa, suborno e desrespeito às regras que deveriam, em tese, defender.

Quem sabe, no fundo, eles fossem os candidatos mais preparados de todos.


Fonte: Times of India

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