
Quando pensamos na evolução humana, costumamos imaginar nossos ancestrais enfrentando desafios grandiosos: aprender a caminhar sobre duas pernas, fabricar ferramentas, dominar o fogo e, eventualmente, dar origem a uma espécie capaz de construir arranha-céus, sondas espaciais e aplicativos para entregar hambúrgueres em quinze minutos. O que raramente aparece nessas narrativas é que, durante boa parte dessa jornada, nossos antepassados também precisavam lidar com um problema bastante básico: evitar ser devorados.
A pré-história costuma ser romantizada como uma aventura heroica rumo ao progresso. Mas a realidade provavelmente parecia menos um documentário inspirador e mais um episódio permanente de sobrevivência extrema. Há cerca de três milhões de anos, na região da atual Etiópia, os ancestrais humanos viviam em um ambiente onde beber água exigia a mesma cautela que hoje alguém teria ao abrir um e-mail com o assunto “urgente” enviado pelo chefe às seis da tarde de uma sexta-feira.
O dr. Christopher A. Brochu é paleontólogo e professor da Universidade de Iowa. Ele é um dos maiores especialistas do mundo em crocodilianos fósseis, e há mais de 35 anos ele estuda a evolução desses predadores e participou da descrição de diversas espécies extintas. Foi justamente durante o exame de fósseis preservados em museus da Etiópia que Brochu percebeu que estava diante de algo incomum.
O resultado dessa investigação foi a identificação de uma nova espécie de crocodilo batizada de Crocodylus lucivenator, expressão que significa literalmente “caçador de Lucy”. O nome não foi escolhido por acaso. O animal viveu entre aproximadamente 3,4 e 3 milhões de anos atrás, exatamente na mesma região ocupada por Lucy, o famoso exemplar de Australopithecus afarensis descoberto em 1974. Lucy se tornou um dos fósseis mais importantes da história da paleoantropologia porque ajudou a demonstrar que nossos ancestrais já caminhavam eretos muito antes de desenvolverem cérebros maiores.
O novo crocodilo não era exatamente uma criatura fácil de ignorar. Os adultos atingiam entre 3,6 e 4,5 metros de comprimento e podiam pesar entre aproximadamente 270 e 600 quilos. Em seu ambiente, dominado por áreas alagadas, rios, lagos e vegetação variada, ele ocupava o topo absoluto da cadeia alimentar. Segundo os pesquisadores, era uma ameaça ainda maior do que leões e hienas para os hominídeos da época. Em outras palavras, se existisse um prêmio de “maior motivo para não chegar perto da água”, ele venceria por larga margem.
Como os crocodilos modernos, o crocodilão do mal era um predador psicopata de emboscada. Permanecia quase totalmente submerso, aguardando pacientemente a aproximação de animais sedentos até que dava o bote gritando PEGADONA DO CROCODILÃO! É praticamente certo que essa máquina de matar caçava os ancestrais de Lucy. Não há como saber se algum indivíduo específico tentou transformar a famosa australopiteca em refeição, mas os cientistas consideram extremamente provável que hominídeos fizessem parte de suas presas ocasionais.
O animal também possuía características anatômicas bastante peculiares. A mais evidente era uma protuberância localizada na parte superior do focinho. Estruturas semelhantes são observadas em crocodilos americanos atuais, mas não nos crocodilos-do-Nilo.
A equipe analisou 121 fósseis catalogados, incluindo crânios, dentes e fragmentos de mandíbula pertencentes a dezenas de indivíduos. Os restos foram encontrados na Formação Hadar, uma das localidades paleontológicas mais importantes do planeta. Foi ali que surgiram alguns dos fósseis mais famosos da evolução humana. O local integra o Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1980 e continua produzindo descobertas capazes de reescrever partes importantes da história da vida.
Os fósseis também registraram episódios de violência entre os próprios crocodilos. Uma mandíbula apresentava lesões parcialmente cicatrizadas compatíveis com mordidas recebidas durante confrontos entre indivíduos da mesma espécie. Segundo os pesquisadores, esse comportamento de morder o rosto dos rivais aparece repetidamente ao longo da história evolutiva dos crocodilianos. A boa notícia para o animal ferido é que ele sobreviveu. A má notícia é que provavelmente teve uma semana particularmente desagradável.
No fim das contas, a descoberta serve como um lembrete desconfortavelmente útil. Gostamos de pensar nos seres humanos como protagonistas inevitáveis da história natural, mas durante milhões de anos fomos apenas mais uma espécie tentando sobreviver em um mundo cheio de criaturas maiores, mais fortes e muito interessadas em nos transformar em jantar. Antes das cidades, dos computadores e das discussões intermináveis na internet, nossos ancestrais caminhavam pelas margens de rios africanos torcendo para que nada emergisse da água. E, ao que tudo indica, às vezes emergia.
A pesquisa foi publicada no periódico Journal of Systematic Palaeontology.
