Cidade indiana acha que bebida, cigarro e calcinha vão deixar entidade mágica tristinha

Nada como um bom plano urbanístico temperado com fé e abstinência. A cidade sagrada de Ayodhya fica no nosso velho amigo, o meu estado indiano favorito: Uttar Pradesh. Problema é que.. veja bem, é sagrada e tal. Daí o que a governança fez? Decidiram finalmente resolver seus grandes dilemas existenciais: o pecado está no kebab. A prefeitura, numa crise espiritual tão profunda quanto seletiva, decidiu que vender carne e bebida ao longo da Ram Path – a estrada que leva ao Templo de Ram (não o Mola) – é uma ofensa gravíssima à santidade local. Afinal, nada desrespeita mais a divindade do que um frango grelhado com uma cervejinha gelada a três quarteirões da fé.

A decisão veio como uma revelação divina com carimbo da câmara municipal: nove açougues e treze lojas de bebidas alcoólicas estão com os dias contados. Porque, convenhamos, não se pode meditar em paz sabendo que a três lojas dali alguém está vendendo linguiça de churrasco, com uma banquinha na frente oferecendo um tira-gosto de brinde.

O prefeito, Girish Pati Tripathi, explicou que o Ram Path “carrega o nome do Senhor Ram” e que, por isso, deve ser mantido livre de tentações carnívoras e etílicas. Sim, o problema da Índia não são a desigualdade, o caos urbano ou a corrupção institucionalizada — é o biryani de cordeiro no lugar errado (ou seja, todos os lugares).

E como todo puritanismo que se preze, o pacote sagrado inclui a proibição de propagandas de cigarro, gutkha (um fumo de mascar), bidis (cigarro enrolado a mão) e – TCHARAAAAN – roupas íntimas. Isso mesmo: o demônio agora atende pelo nome de “cueca em outdoor”. Porque ver uma calcinha bege de algodão em um painel publicitário pode comprometer a iluminação espiritual de todo um bairro. Eu ouvi um amém? (como se diz “amém em sânscrito? Ah, deixa pra lá)

A associação de comerciantes, em um raro momento de lucidez capitalista, pediu locais alternativos para os expulsos da fé urbana. Talvez uma Zona de Tolerância para frango frito e cerveja barata? Ou um “Distrito Profano” com direito a cartaz piscante dizendo “Aqui vendemos carne, mas com respeito”. Um bairro da luz vermelha mielina, escorrendo deliciosamente de um belo filé mal-passado.

Enquanto isso, o departamento responsável pela implementação aguarda instruções superiores. Talvez estejam tentando interpretar os astros, ou só esperando o Ram Path virar uma passarela de ascensão espiritual com Wi-Fi gratuito e detector de churrasco na entrada.

Moral da história? Em Ayodhya, o paraíso é vegano, casto e sem anúncio de calcinha; é praticamente um distrito jovem de rede social. E se você quiser saborear uma cerveja ou um espetinho, prepare-se para o exílio. Ou, como diria um comerciante local: “Foi por fé que me tiraram o frango, mas eu só queria pagar o aluguel.”

Em tempo:


Fonte: India TV

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