Grandes Ideias que sequer deveriam ter sido pensadas: Operação Plowshare

Eu tinha postado antes como a Era Atômica trouxe incríveis novidades. Entre elas, o uso de raios-X para vários fins. Desde o uso como exame não-invasivo até ver se seu pé estava bem acomodado dentro do sapato. Outro exemplo de fascínio mórbido pela tecnologia estava no uso de bombas atômicas. Isso despertou e muito o interesse da população, alavancou negócios e até mesmo tiveram incríveis planos para elas. O que passaram a chamar de “usos pacíficos para a bomba atômica”.

Eu vou passar direto pelo histórico da criação da bomba atômica até chegar na parte que realmente interessa: coo ela chegou no imaginário popular. Sim, eu sei que é uma arma de destruição em massa e matou muitas pessoas na Segunda Guerra Mundial. O bombardeio de Dresden e Dusseldorf foi muito mais violento e mortífero e ninguém dá uma pitomba para isso; mesmo porque eram bombas convencionais. Apenas mais um carpet bombing, nada a se ver aqui. Mas uma bomba atômica? Aquilo era o pináculo da tecnologia bélica!

O grande problema com a bomba atômica era: como fazer as bombas mais eficientes e… o que acontece mesmo durante a detonação? A grande questão é que a Little Boy (usada em Hiroshima) tinha poder destrutivo teórico de 15 kTon (equivalente a 15 mil toneladas de TNT) e a Fat Man (usada em Nagasaki) tinha poder destrutivo teórico de 21 kTon (equivalente a 21 mil toneladas de TNT), mas a realidade é que deram chabu, já que não foram produzidos pelos Fogos Caramuru. A eficiência real delas foi de apenas 1% do que deveriam ser… e mesmo assim foi aquele estrago.

A única saída era fazer mais testes e como as bombas atômicas foram eficientes para fins de conseguir mais financiamento no orçamento militar, entre 1946 e 1958, 23 dispositivos nucleares foram detonados no Atol do Bikini.

Isso causou um furor em todo canto. Primeiro porque estava causando uns eventos desagradáveis nas populações locais que viviam de pesca. Em segundo, porque o marketing gritou mais alto e apareceu pessoas dispostas a lucrar com isso, como foi o caso de Jacques Heim que, em junho de 1946, lançou seu maiô de duas peças chamado Atome, que ele anunciou como “o menor maiô do mundo”.

Claro, isso levou a uma competição e em 5 de julho de 1946, Luís Réard – um engenheiro automobilístico e designer de roupas nas horas vagas – apresentou o que ele chamou de “o maiô menor que o menor maiô do mundo”, batizando-o de “Bikini”, tendo este nome porque, segundo ele, “a mulher de biquíni causa o efeito de uma bomba atômica”.

Bem, se você for em qualquer loja de roupas e procurar por uma roupa de banho feminina, vai descobrir quem ganhou a disputa. E o motivo desta esmagadora vitória foi que o Bikini mostrava… o umbigo. A devassidão, meus amigos!

Os testes nucleares passaram a ser feitos no Deserto de Nevada e eram televisionados, gerando um interesse nacional enquanto mandava um recadinho ao pessoal da bandeira vermelha: Olha só o que a gente tem. Por outro lado, as pessoas faziam caravanas para ir até Nevada.


Modelos atômicos. E você acabou de ser enganado pelo Google.

Pessoal fazia caravanas para ir assistir. Enquanto aqui pessoal vai para Aparecida do norte para comprar em barraquinha de camelôs, os americanos iam ver KABUM atômico. Eu também acho que KABUM atômico muito mais maneiro que ir na Jesuslândia.


Óculos de cobalto inclusos.

Uma das coisas que os testes atômicos fizeram foi alavancar o turismo em Las Vegas, que organizavam shows e a hora da detonação (lá pras 5 da manhã) era um evento. Isso ajudou muito os cassinos, que ainda estavam ruins das pernas e não tinham dito a que veio. Foram os testes atômicos que colocaram a cidade no mapa, apesar das bombas terem o intuito de riscar gente do mapa. Às vezes, a ironia é bem irônica.


Sim, estava bem longe. Para você imaginar a potência da explosão

Fora estes testes, vários outros estiveram na prancheta, como o projeto Plowshare. Ele tinha este nome por causa de Miquéias 4:3 (E julgará entre muitos povos, e castigará nações poderosas e longínquas, e converterão as suas espadas em arados, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra”. A ideia era transformar as armas nucleares em usos pacíficos, ou seja, não-militar. O projeto Plowshare era para terraplanar terrenos e fazer algo como o canal do Panamá, com suas comportas subindo um terreno elevado em algo como o Canal de Suez, que é retinho e mais fácil de ser navegado.

Não apenas isso, planejaram usar bombas atômicas para criar um porto artificial em Cape Thompson, no Alaska. Era o Projeto Charriot, em 1958. Alguma mente pensante, entretanto, viu que encher aquele lugar com radioatividade não era uma boa ideia. O projeto Plowshare como um todo foi arquivado.


Projeto Charriot. Só boas ideias, né?

Em 15 de janeiro de 1965, a URSS dá início à Operação Chagan, um teste nuclear subterrâneo em Semipalatinsk visando estudar as vantagens econômicas do uso de dispositivos nucleares para fazer terraplanagem, como seu equivalente americano, o Plowshare. O que conseguiram foi uma catástrofe ambiental, várias pessoas e animais mortos, uma grande área virando um caldeirão radioativo, e esse foi o prenúncio do fim do uso não-militar de artefatos nucleares.

Tudo isso pareceu uma ideia maravilhosa no papel, mas a parte inconveniente é mostrada quando se vê o que vai resultar disso. Hoje, testes assim são proibidos e projetos como o Plowshare sequer são mais aventados, significando que escapamos de uma boa.

4 comentários em “Grandes Ideias que sequer deveriam ter sido pensadas: Operação Plowshare

  1. Coisa boa ninguém copia, né? Eu fui pesquisar sobre a Operação Chagan depois que li seu texto e pqp, hein? Povo não pensava MESMO na merda que podia dar. Aquele lago tá radioativo ATÉ HOJE!

    Curtir

Deixar mensagem para nestorbendo Cancelar resposta