Domus aurea, a casa dourada de Nero

A luz entra difusa pelas janelas estreitas. A brisa suave corre pelo ambiente e faz as velas bruxulearem, e a luz explode em uma miríade de brilhos dourados, iluminando deuses, heróis e ornamentos. Um suave abrir de portas e um som de passos quebram a calma, mas não a majestade do lugar. As sandálias de couro finíssimo ressoam sobre o chão de mosaicos e o teto abobadado e totalmente decorado testemunham um deus passando… ou ao menos era assim que ele se via.

As mãos para trás, o senhor daquele lugar olha a obra terminada e, no salão central, assente com a cabeça em sinal de regozijada aprovação. Aquela, sim, era uma casa. Aquele, sim, era um palácio. Algo digno de um rei, de um imperador, de um deus. De finalmente um ser humano poder morar.

Nossa história começa com algum com problemas físicos, passa por uma catástrofe, migra para a boa vida dos ricaços, se direciona para gente ambiciosa e termina em tragédia, com um final surpreendente. Praticamente, uma obra de Shakespeare adaptada por Hitchcock; nisso, muita mentira foi contada por todos os lados e propaganda política existe desde sempre. Muito do que se pensa que sabe é apenas uma enganação contada por séculos.

A história começa com um imperador gago; a saber: Cláudio.

Cláudio era um complexado, já que não só era gago, como manco e feio. A guarda pretoriana – que já tinha assassinado Calígula – olhou para ele, coçaram os queixos e fizeram dele imperador em 24 de janeiro de 41, já que ele seria facilmente manipulável… ou ao menos foi isso que acharam. Tudo bem que Cláudio deixou pessoal poderoso ainda poderoso (exceto os que queriam matá-lo, mas ele descobriu a tempo), mas surpreendentemente, Cláudio foi um exemplo de boa administração, diplomacia e comandante militar.

O moral dos citadinos da Urbs estava baixo e Cláudio fez o que qualquer governante faz para garantir aprovação da população (e evitar ser assassinado): empregos. Ele começou várias obras públicas, tratando de dar uma repaginada na capital do Império, mandando construir anfiteatros, aquedutos e banhos públicos. Claro, para fazer isso, tem que levar a sério as finanças imperiais, já que as construções não eram de graça e materiais e mão de obra precisavam ser pagos, mas Cláudio conseguiu resolver isso.

Outra coisa digna de nota foi quando Cláudio enfrentou uma orca (sim, a “baleia” que na verdade é um golfinho), mas isso é história para um artigo próprio.

O reinado de Cláudio chegou ao fim com a sua morte; se por assassinato ou problemas de saúde, não se sabe ao certo e não teceremos maiores comentários. O importante é que, em 13 de outubro de 54, um certo sujeito chamado Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus (Nero, para encurtar) sobe ao poder e isso causa insatisfação em todo mundo; ninguém gostava de Nero, que estava bem pouco se importando com o que pensavam dele, e é aqui que nossa história realmente começa.

Nero vestiu a púrpura imperial quando tinha 17 anos e olhava para uma Roma com orgulho e via de longe a magnificência que ela poderia se tornar um dia. Entretanto, seus principais biógrafos (Tácito, Suetônio e Dião) o pintaram como o demônio encarnado, mas há uns problemas com esses 3 relatos. De Tácito, pouquíssima coisa sobrou e sob a forma de fragmentos de cópias, nunca o relato original e completo. Suetônio o descreveu como um maníaco, e já veremos daqui a pouco por que é mentira; já a obra de Dião Cássio data do século 3 EC, e em muitos aspectos é possível ver uma mistura de fantasia com relatos verdadeiros e outros claramente inventados, entremeados com fatos para lá de questionáveis. Por exemplo, ele começa a obra com a chegada de Enéias na península Itálica, só que este Enéias é o personagem que aparece na Ilíada e no kibe da obra de Homero: Eneidas, escrita por Virgílio (sim, Eneidas vem de Enéias).

O que se sabe com certeza é que na noite de 18 de julho de 64, um incêndio colossal devorou Roma. Você pode pensar na Cidade Eterna naquela maravilha de mármore, mas não é bem assim. A moradia dos pobres eram de madeira – mesmo as Insulas, prédios de apartamentos que muitos cidadãos moravam – e não primavam pelo luxo que os patrícios que tinham propriedades muradas dentro da cidade possuíam.

As paredes e fachada eram de tijolos, mas os pisos e telhado eram à base de madeira. Isso era não só para baratear a construção, como para garantir que ela não viria abaixo com o próprio peso.

Suetônio disse que Nero estava tocando lira enquanto Roma ardia, dando a entender que ele que colocara fogo nela para poder fazer o seu plano de reurbanização. Dião, ao que parece, usou Suetônio como fonte. Mas lembrem-se que nenhum dos dois foi contemporâneo do acontecimento. No máximo, Plínio o Velho, mas ele não deu detalhes. Flávio Josefo, Dião Crisóstomo (não confundir com o outro Dião), Plutarco e Epiteto, apesar de terem vivido durante os acontecimentos, não escreveram uma só linha a respeito em suas obras. Tácito diz que culparam os cristãos, mas, como foi dito, Tácito e apenas fragmentos aqui e acolá. Não se sabe direito o que ele realmente escreveu.

De qualquer forma, o que Suetônio escreveu foi apenas ranço contra Nero. Ele sequer estava na cidade quando do incêndio. Documentos apontaram que Nero estava em viagem e, quando soube do acontecido, deu ordens para que todos os prédios públicos fossem abertos para receber as pessoas cujas casas estavam em chamas, mandando inclusive abrir os portões dos jardins do palácio imperial para abrigar as pessoas.

A verdade é que Nero era odiado pela elite romana. Como medidas administrativas, ele isentou de impostos navios que transportavam alimentos para baixar o preço dos víveres nos mercados; quando o senado aprovou lei dizendo que senhores tinham o direito de rever a libertação de ex-escravos – tornando-os escravos novamente –, Nero vetou. Nero era popular entre o povão, o que fazia com que angariasse ódio da elite romana. Ao colocar a culpa nos cristãos pelo incêndio de Roma, Nero estava afetando a elite romana. Pois é, não era o populacho que seguia Jesus, e sim os aristocratas. Suetônio chegou até a inventar que Nero matara sua mãe, que alguns diriam que esta é a origem da palavra “Cesariana”, mas não há nenhuma informação isenta que Nero tenha realmente feito isso.

Nero era uma figura complicada num mundo complicado. Suas ordens era para castigar com rigor crimes graves, e alguns diziam que ele queria estar presente durante a aplicação do castigo, o que já não se tem certeza, embora, sim, tais ordens para castigos rigorosos realmente tenham existido, só que o mundo naquela época era para lá de violento. A única forma de garantir que cidadãos romanos pudessem andar pelas ruas em segurança era dar ordens nesse calibre, já que a criminalidade era violentíssima, também. Uma coisa justifica outra? Difícil dizer. Como falei: era um mundo complicado.

Voltando à catástrofe romana, Nero precisava agir rápido. Ter um levante popular contra ele não era o seu sonho de princesa. Então ele precisava reconstruir rápido, e foi o que ele fez. Foi aí que surgiu uma opulenta Roma de mármore, templos e bom gosto. Nero gozava de um dos melhores tempos da Pax Romana, tecera tratados com algumas tribos e saqueava outros lugares que não ofereciam resistência, de forma a garantir a entrada de dinheiro, bens, víveres e escravos. A construção começou e um projeto paralelo começou também: a Domus Aurea, ou Casa Dourada.

Nisso, já começou uma insatisfação: aumento de impostos e cobrança de impostos de gente que simplesmente sonegava. Acho que você pode imaginar que não era o populacho quem sonegava os impostos.

Nero baseou sua ideia de reforma num lugar chamado Baiae, uma cidade romana que ficava no que hoje é o noroeste da Baía de Nápoles. Mas Baiae não era mais uma cidade como outra qualquer. Era um balneário, um imenso spa que a alta (altíssima seria melhor) aristocracia ia para descansar e curtir o melhor que seu ouro podia comprar. Uma baía calma, banhos termais, anfiteatros, templos luxuosos e tudo do bom e do melhor! Uma espécie de Fernando de Noronha sem a parte de se preocupar com os bichinhos fofos. Seria bem capaz de terem um termo como “venha Baiae-se”. Hoje, recebe o nome de Parco Archeologico delle Terme di Baia. Sim, muitas construções romanas estão de pé lá até hoje.

Nero passou muitos bons momentos lá quando jovem e resolveu levar um pouco de Baiae para Roma. Assim começou a construção. Suetônio – que como dito, não era nada favorável a Nero – descreve assim a “casa”, que na verdade era um palácio:

Não havia nada, porém, em que ele fosse mais ruinosamente pródigo do que na construção. Ele fez um palácio que se estende desde o Palatino até o Esquilino, que a princípio chamou de Casa de Passagem, mas quando foi queimado logo após sua conclusão e reconstruído, foi chamado a Casa Dourada. Seu tamanho e esplendor serão suficientemente indicados pelos seguintes detalhes. Seu vestíbulo era grande o suficiente para conter uma estátua colossal do imperador com 36 m de altura [obviamente, ele não usou sistema métrico por motivos óbvios]; e era tão extenso que tinha uma colunata tripla de um quilômetro e meio de comprimento.

Havia também um lago, como um mar, cercado de prédios para representar cidades, além de extensões de campo, variadas por campos cultivados, vinhedos, pastagens e matas, com grande quantidade de animais selvagens e domésticos. No resto da casa, todas as partes eram revestidas de ouro e adornadas com pedras preciosas e madrepérola. Havia salas de jantar com tetos de marfim [o termo em português seria “laje nervurada”] (obrigado, Hemetério), cujos painéis podiam virar e derramar flores e eram equipados com cachimbos para borrifar os convidados com perfumes. O salão principal do banquete era circular e girava constantemente dia e noite, como os céus. Lá tinha banhos abastecidos com água do mar e água sulfurosa.

Quando o edifício foi concluído neste estilo e [Nero] o dedicou, ele se dignou a dizer nada mais em forma de aprovação do que estava finalmente começando a estar morando como um ser humano.

Lá também possuía uma piscina, estendendo-se de Miseno ao lago de Averno, coberta e cercada por colunatas, na qual planejava transformar todas as fontes termais em todas as partes de Baiae; um canal de Averno até Óstia, para permitir que a viagem fosse feita de navio, mas não por mar; seu comprimento deveria ser de 260 km e sua largura suficiente para permitir que navios com cinco bancos de remos passassem uns pelos outros. Para a execução desses projetos, Nero havia ordenado que os prisioneiros de todo o império fossem transportados para a Itália e que aqueles que fossem condenados até mesmo por crimes capitais não fossem punidos de outra forma senão com sentença a esse trabalho. Ele foi levado a tal extravagância louca, além de sua confiança nos recursos do império, pela esperança de um vasto tesouro escondido.

Plínio, o Velho, foi outro que não pareceu nada satisfeito com a obra, mas nem por isso se furtou a descrevê-la:

Mas ainda existem duas outras mansões pelas quais todos esses edifícios foram eclipsados. Duas vezes vimos toda a cidade cercada pelos palácios dos imperadores Caio [Júlio César] e Nero; o do último, para que nada falte à sua magnificência, sendo revestido de ouro. Certamente, palácios como esses devem ter sido destinados à morada daqueles que criaram este poderoso império e que deixaram o arado ou seu lar natal para sair para conquistar nações e retornar carregados de triunfos! homens, de fato, cujos próprios campos ocupavam menos espaço do que as câmaras de audiência desses palácios.

Suetônio deu alguma exagerada nas medidas, mas não na opulência do interior. Entretanto, é possível perceber o esgar de nojo quando ele diz que o palácio ia do Palatino a Esquilino. Ele estava falando das colinas de Roma. São sete as principais colinas onde Roma fora fundada: Capitólio, Quirinal, Viminal, Esquilino, Célio, Aventino e Palatino, e nos tempos de Nero, eram a Barra da Tijuca do pessoal emergente. Assim que ficavam ricos, compravam uma villa lá. Nero ter construído algo tão monumental fez com que os ricaços tenham ficado muito irritados, pois seus palácios se tornavam um nada perto daquela opulência.

Em 65, um dos senadores mais ricos e poderosos de Roma, Caio Calpúrnio Pisão, já estava de saco cheio da opulência de Nero. Pisão era praticamente o dono de toda Baiae, e agora via seus empreendimentos superados pela monumental obra do imperador, e como todo ricaço era mimado e não podia ficar por baixo. Pior ainda: os impostos estavam vindo gostosos, porque Nero deixou a camada mais pobre isenta e estava batendo feio na aristocracia. Assim iria começar a Conspiração de Pisão, que por sinal acabaria em morte violenta…

Mas não de Nero.

A conspiração teve início no ano 65, e Pisão conseguiu arregimentar apoio de vários senadores e gente de dinheiro. O problema começou quando uma fofoqueira deu com a língua nos dentes. Uma certa mulher chamada Epicharis contou vantagens para Volusius Proculus, depois que este fizera queixinha que Nero não o favorecia; então, ela entregou todo o plano, o que foi um ato extremamente estúpido.

Proculus pensou que ali estava a forma como Nero iria reconhecer o seu falor e foi correndo contar ao imperador o que estava acontecendo. Nero mandou prender Epicharis, que obviamente foi torturada, mas ela não entregou ninguém. Assim que ela teve oportunidade, ela cometeu suicídio estrangulando-se com seu próprio cinto. Os conspiradores acharam que era tarde demais para desistir, só mudaram de planos. Ao invés de matar oi imperador em Baiae, resolveram fazê-lo em Roma. Na manhã em que a conspiração deveria ser executada, em 19 de abril de 65, um escravo liberto chamado Milichus deveria se aproximar de Nero e fazer com ele o mesmo que fizeram com Júlio César, mas Milichus não quis fazer isso, entregando a conspiração para o seu antigo mestre Flavius ​​Scaevinus, que relatou a Epafrodito, secretário de Nero. Todos eles pensando numa recompensa generosa, é claro. Ninguém ali era bonzinho.

Todos os envolvidos, inclusive o orador Sêneca, foram considerados culpados e sentenciados a se suicidarem.

Nero passou por outras tentativas de assassinato, e todas falharam exceto…

A rebelião de Víndice em meados do ano 68, o ano que a Domus Aurea foi terminado, deixou o trono imperial instável. Nero até conseguiu sufocar a rebelião, mas começou a ascensão de Galba. Nero foi considerado Inimigo do Estado. Em junho de 68, o Senado determinou que Galba fosse proclamado imperador. Nero acabou sendo preso e obrigado a se matar. Isso daria numa instabilidade péssima e o Ano dos Quatro Imperadores. A estabilidade só voltou quando Vespasiano, que tinha ido a Jerusalém para tentar (e conseguir) sufocar a Revolta Judaica, voltou como grande general e corado Imperador.

É o fim de Nero e o fim da Domus Aurea.

Vespasiano manda soterrar o palácio e aplainar o terreno. O imenso lago é drenado e plantação e usada para produzir alimento para a própria população. Vespasiano entrega tudo o que Nero fez para o Povo de Roma, que agradece feliz da vida, pois, Imperator morto, Imperator posto. Vida longa ao Imperator.

A estátua de Nero é convertida numa estátua do deus Helios, e ele fica praticamente no mesmo lugar e, em volta, sobre o que outrora era a entrada principal do terreno da Domus Aurea, Vespasiano cimenta de vez a lembrança de Nero com uma construção mais grandiosa ainda, entregue para a população, mas ainda lembrando a todos eles quem eles eram, pois mantinha o sistema de hierarquia social, sendo o lugar de imperador um lugar de destaque, enquanto mulheres e escravos ficavam bem longe, escondidos.

Esta construção era o Anfiteatro Flaviano, que tendo uma construção magnificamente monumental, acabou tendo este apelido que pelos séculos vindouros seria conhecido:

3 comentários em “Domus aurea, a casa dourada de Nero

  1. Aristocrata é birrento seja lá qual for a época, né? Deixa o cara construir o barraquinho dourado dele, pô, que que tem? :P
    Aliás, ressentimento é uma merda quando acaba virando história. Eu lembro que o programa que a gente usava pra gravar CD se chamava Nero e depois eu descobri a correlação, e depois eu descobri que na verdade a correlação tava errada. Muito feio, sr. Tácito. Muito feio.

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