A mais antiga farmácia do mundo

Vendo um pórtico antigo de uma construção alojada dentro de uma capela florentina do século XVI, ninguém daria nada por ela, mas ali está a farmácia mais antiga do mundo em atividade. O local esconde uma história interessante e faz parte da Itália, e por que não dizer, da história do próprio conhecimento científico.

A dita farmácia se trata da Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella ou Farmacopeia de Santa Maria Novella, que entre seu catálogo estão poções antigas como o Vinagre dos Sete Ladrões, o primeiro perfume moderno e até um licor de joaninha. E esta é sua história.

Desde que começamos a ficar doentes – ou seja, quando o ser humano colocou as patinhas sobre a terra – remédios passaram a ser uma necessidade. Com o tempo, fomos buscando na Natureza coisas que pudessem curar doenças ou pelo menos diminuir dores e mal-estar do amiguinho, ou mesmo matar o não tão amiguinho.

E foi aí que surgiu a farmacologia.

Etimologicamente, “Farmácia” vem do latim medieval Pharmacia, que obviamente tem origem grega, que, por sinal, nos traz origens bem interessantes: A princípio “Farmacopeia” vem de φαρμακεία, “uso de drogas e medicamentos”, em que o profissional era chamado de “Farmakeus”, φαρμακεύς, “preparador de medicações, poções ou veneno. Feiticeiro, conjurador”. Também temos a palavra “Farmakon”, φάρμακον, “veneno, droga, filtro, encantamento”. A Bíblia até fala de de farmácia e farmacêuticos de uma forma muito lisonjeira, tratando-os como como feitiçaria e feiticeiros. Em Gálatas 5:20, temos:

ειδωλολατρεια φαρμακεια εχθραι ερεις ζηλοι θυμοι εριθειαι διχοστασιαι αιρεσεις

Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias,

Em Apocalipse 21:8 vem:

δειλοις δε και απιστοις και εβδελυγμενοις και φονευσιν και πορνοις και φαρμακευσιν και ειδωλολατραις και πασιν τοις ψευδεσιν το μερος αυτων εν τη λιμνη τη καιομενη πυρι και θειω ο εστιν δευτερος θανατος

Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos que se prostituem, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.

Antigamente, farmacêuticos eram chamados de apotecários (do latim apothecarius, a partir do grego apothéke (ἀποθήκη), que significa “depósito”) ou boticários, donos de boticas). Em inglês americano as farmácias, enquanto estabelecimento, são “drugstores” e no inglês britânico “chemist” ou “pharmacy”.

Durante a Idade Média, o conhecimento ocidental estava nas mãos da ICAR. Principalmente nos mosteiros. Cultivando plantas e fazendo experimentos, muitos monges se tornaram mestres herbolários, conhecendo todas as ervas e plantas e como usá-las como remédios. Os mosteiros eram o único bastião de cultura e conhecimento, e isso era passado de mestre para aprendiz da prática medicinal.

Claro, nem tudo eram flores. A medicina medieval ainda estava misturada com pseudociências, magias e encantamentos. Sim, mesmo os monges acreditavam que as plantas tinham poderes mágicos, apesar da Bíblia condenar feiticeiros. O conhecimento era baseado em experimentação e antigos tratados gregos e árabes, mesmo porque, a maior parte dos tratados gregos foram traduzidos por árabes.

Ser capaz de identificar sintomas e remédios tornou-se o foco principal do clero, e antes do desenvolvimento dos hospitais, as pessoas das cidades vizinhas procuraram os mosteiros para ajudar com seus doentes. Mesmo porque, os próprios hospitais da Idade Média estavam sob o controle da ICAR.

Sim, ela também fez coisas boas nessa época.

Com o tempo, outros negociantes começaram a abrir suas próprias lojas, comprando ervas processadas pelos mosteiros, de modo a vender nas cidades. Foi o início das boticas. Depois, os boticários começaram a fazer suas próprias misturas, elixires, poções etc. Obviamente, essas boticas não existem mais… exceto uma!

A Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella funciona dentro da capela na Igreja de Santa Maria Novella, que foi estabelecida (junto com seu mosteiro) em 1221 fora dos portões da cidade de Florença. Os monges dominicanos começaram a experimentar ervas e flores cultivadas no jardim monástico, criando bálsamos, elixires e outros medicamentos para usar em seu hospital; viram o poder medicinal de algumas ervas, e melhoraram o sabor amargo de algumas delas com caldas adocicadas. Estava inventado o xarope.

Quando os monges curaram um rico comerciante local doente, como sinal de gratidão, o comerciante construiu a Capela de San Niccolo para os Frades operarem. Em torno de 1381, uma enfermaria no local estava em operação, onde os produtos dos monges eram usados para o tratamento de si mesmos e pacientes florentinos.

Um dos produtos desenvolvidos nessa época foi uma água de rosa destilada destinada a tratar a praga, no auge da Peste Negra. Outro medicamento produzido pelos monges, supra-citado Vinagre dos Sete Ladrões (Aceto dei Sette Ladri), ganhou seu nome e reputação durante a Peste Negra por causa de um rumor de que um bando de 7 ladrões de cadáveres se banhariam com esta mistura para proteger contra doenças.

Os ladrões foram eventualmente pegos, sendo sentenciados à morte. Entretanto, o juiz estava desesperado por uma defesa contra a peste, e então prometeu que pouparia qualquer ladrão que lhe entregasse a sua receita secreta. Os ladrões alegaram que sua poção tinha 7 ingredientes e cada um deles só sabia um ingrediente. Portanto, todos eles teriam que ser soltos se o juiz quisesse seu elixir secreto. O juiz os libertou e não demorou muito para que essa poção que prevenia a Peste fosse atualizada e vendida em Santa Maria Novella. Você ainda pode encontrar uma versão desta poção chamada Aceto Aromatico.

As poções potentes do frade tornaram-se famosas e, em 1612, a sacristia de San Niccolo tornou-se uma loja voltada para o público. Quanto mais lucro os farmacêuticos ganhavam, mais eles poderiam investir em pesquisa e desenvolvimento.

Santa Maria Novella produzia excelentes águas perfumadas, desenvolvidas em tempos medievais, incluindo “Água de Santa Maria Novella”. Tanto ela quanto o Pasticche di Santa Maria Novella eram empregavam a erva Tanacetum balsamita, conhecida como erva-bálsamo, folha da Bíblia ou gerânio de hortelã. No século XVI, um tipo especial de incenso foi inventado: o Papel Armênio (Carta D’Armênia), que foi infundido com especiarias e resina para perfumar a sala enquanto o papel queimava sem chama.

Em meados do século XVI, a fama generalizada da Santa Maria Novella induziu os monges a oferecer seus produtos à venda ao público pela primeira vez. A loja expandiu sua gama de produtos, desenvolvendo tônicos curativos e perfumes. Os boticários de Santa Maria Novella também desenvolveram o primeiro perfume com base alcoólica, Acqua della Regina, em 1553. Perfumes na época usavam uma base de azeite ou vinagre.

A Acqua della Regina foi um presente para Catarina de Médici quando ela deixou Florença para se casar com o futuro rei da França. Ela fez um grande respingo com sua “Água da Rainha” como a primeira pessoa a introduzir perfume aos franceses. Isso causou ainda mais aclamação e vendas para o boticário. Catarina de Médici se torna, então, a mais importante patrona da farmácia. Através do patrocínio da Rainha Catarina, os produtos de Santa Maria Novella foram introduzidos na côrte francesa, onde o perfume não havia sido usado anteriormente.

Embora bem sucedidas, as ansiedades sobre a comercialização dos remédios do mosteiro causaram o fechamento do negócio durante a primeira década do século XVII. Em 1612, o negócio havia retomado as operações e uma loja foi aberta ao público na Via della Scala. Em 1659, a Officina recebeu o título de Sua Fundição De Sua Alteza Real (Fonderia Granducale) de Ferdinando II de Médici, Grão-Duque da Toscana, colocando-a sob a proteção da família Médici.

Em 1749, a fundição desenvolveu seus famosos Alchermes, licor alcoólico, uma bebida alcoólica supostamente medicinal que obtém sua cor escarlate profunda de joaninhas secas e esmagadas. Farmacêuticos deram esse medicamento para novas mães para ajudar a se recuperar do parto.

Em 1866, a propriedade da Igreja de Santa Maria Novella foi confiscada pelo Estado italiano, e a farmácia passou para a propriedade de Cesare Augusto Stefani, sobrinho do último diretor do mosteiro, Damiano Beni. Em 2012, para celebrar o 400º aniversário da Officina, um selo comemorativo foi emitido pela Poste Italiane, parte da série “Made in Italy”. A Farmácia celebrou o evento produzindo dois perfumes Edição Limitada, e ainda hoje você pode ir lá, comprar desde uma aspirina até o licor dos 7 Ladrões ou, quem sabe, se segredar com o balconista, alguma poção mágica.

2 comentários em “A mais antiga farmácia do mundo

  1. Confesso que ler “monge”, “farmacêutico” e “pesquisa e desenvolvimento” no mesmo contexto é no mínimo inesperado. Mas sempre dá pra aprender algo novo! Curti a história, e as fotos são bem legais. E aquela latinha me deixou com vontade de ir comprar pastilha de hortelã.

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